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Glenn Hughes: uma aula de rock no show do Dio do rock clássico

Resenha - Glenn Hughes (Tropical Butantã, São Paulo, 21/04/2018)

Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
Postado em 22 de abril de 2018

Não era só um ex-DEEP PURPLE, era também um ex-TRAPEZE, ex-BLACK SABBATH (tá certo, o tal do "Seventh Star" era mais um projeto solo do Tony Iommi que precisava se um cantor, mas tá valendo) e ex-BLACK COUNTRY COMMUNION que faria show na noite de sábado em São Paulo. Embora apenas a primeira destas bandas citadas contribuísse com canções para este show (ou até mesmo por causa disso), o baixista e vocalista tem lotado as casas por onde passa. Claro que o Tropical Butantã ficou ainda menor, com as pessoas crescendo em emoção durante o show de GLENN HUGHES neste sábado, na capital paulista. E isto ficou ainda mais evidente quando ele e seus três companheiros de banda subiram ao palco (com magros doze minutos de atraso) e mandaram "Stormbringer". E o encontro dos fãs com "a voz do rock" continuou com emoções a flor da pele em "Might Just Take Your Life". Com Jay Boe solando em seu teclado, Glenn sorridente e de punhos cerrados, meio que escondendo o rosto, meio que uma adolescente tímida, resume-se a gritar I Love You, num de seus agudos espetaculares.

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O riff que percorre toda a canção "Sail Away" despertou gritos logo em suas primeiras notas. Entre os múltiplos solos de teclado e a atuação brilhante de Glenn, é uma daquelas canções que servem de identidade para o Rock, mas que vale o show. Se seu último pedido antes de morrer é ouvir uma última canção de rock, essa serve.

Como vocês estão se sentindo? Glenn pergunta antes de "Mistreated". Nem precisaria perguntar. Bastava olhar nos sorrisos de orelha a orelha na cara dos fãs. Estavam todos sendo muito bem tratados (e, sim, este é um trocadilho e, sim, ele cabe aqui). Era chegada a hora dele exagerar dos agudos, até um tanto esnobe (porque pode - não com os fãs, mas diante de outros artistas de mesma idade e estilo). Impressionante como, aos 66 anos e depois de quase cinquenta de carreira (e muitos problemas com drogas), o inglês cante com a mesma facilidade que o fazia nos gloriosos (e cada vez mais longínquos) anos 70.

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"Vocês não vieram para me ver. Eu vim para ver vocês", disse ele em "You Fool No One", antes de deixar sozinho no palco, o tecladista que detona num solo que inclui partes de diversas canções, de vários estilos, sendo as vezes acompanhado com palmas pelo público. Como um bom professor, ele volta pro palco fazendo reverência a seu colega/parceiro de banda/empregado/aluno de rock and roll. Agora é vez de toda a banda brilhar de novo. Eu falei que "Sail Away" vale o show? Pois esquece. YFNO é que vale. Adiante, sob holofotes cor de rosa, é o guitarrista Søren Andersen que fica só no palco para impressionar com seu solo. Ainda há passagens bluesy com todo mundo no palco e, por fim, por justiça, mais um solo (de bateria agora). Enquanto Fer Escobedo sola, seus três colegas observam sentados na lateral do palco, longe dos olhares do público. "Uau. Só Uau. Eu tenho um novo baterista. Ele é de Santiago. Tem 25 anos. Procurei uns 5 anos e achei esse menino", revela Glenn. "Todo mundo que tem um sonho pode alcançá-lo. Esse moleque tinha um sonho e agora ele está ali atrás da bateria", ele continua. E também declarou o amor pelo tecladista Jay e pelo guitarrista Søren, este último que o acompanha há 10 anos. A banda é relativamente jovem. Glenn é claramente o mais sênior. O baterista é ainda um menino (não na idade, mas em comparação com o resto da banda). O teclado, embora com toda a parafernália moderna, fica num movem estilo colonial.

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"Não falo muito, mas tenho que dizer que os requeiro dessa cidade são os mais loucos". E todas as luzes se acendem para o público. "Não há ninguém como vocês", diz ele - deve ter dito o mesmo nos outros estados e ainda vai dizer nos próximos, mas é o que se espera de um show man. Mas, de certa forma, havia um tanto de sinceridade ali. Quando Glenn e sua banda passou pela Argentina nem estava tão falante assim.

Sobre "This Time Around", ele diz que é muito especial, que a escreveu com John Lord (ex-tecladista do PURPLE, falecido em 2012) e provavelmente iria fazê-lo chorar. Ele não chorou, mas se o tivesse feito, não ter sido o único. Era permitido. Ele próprio disse. "É hora de ser emotivo. Vocês querem ser emotivos?" Era hora de "Holy Man".

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Glenn ainda arrumou tempo para reclamar do próprio cabelo que lhe entrava pela boca (talvez por causa da turnê - Classic Deep Purple Live - ele tenha mantido muito mais o visual setentista), brincar com o roadie e conversar ainda mais com o público. Ao ver que alguém segurava uma camisa da seleção com o seu nome nas costas, o inglês disse amar futebol e que esteve no Brasil há quatro anos para ver a copa. Ainda lembrou que fez "Gettin' Tighter", a próxima no set, com Tommy Bolin. Claro, se não mencionamos ainda, o som do baixo de Glenn é uma atração à parte. E é maravilhoso. Este é um dos momentos em que isso fica ainda mais claro.

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Tendo gravado três discos com o DEEP PURPLE, a maior parte do set (idêntico em toda a turnê) vem de "Burn", "Stormbringer" e "Come Taste The Band"), mas Glenn abriu espaço para algumas do "Machine Head" que foram sucesso na voz de Ian Gillan. A primeira é "Smoke on the Water". É indescritível. Eu nem vou perder meu tempo tentando achar palavras. Quer saber como foi? Ainda dá tempo de ir a Limeira, Curitiba, Manaus, Porto Alegre, Rio de Janeiro ou Vila Velha. Não dá para se arrepender. E a citação de "Georgia on My Mind", introduzida no meio do clássico púrpuro, serviu apenas de pretexto para mais um "eu te amo, São Paulo".

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"Eu amo a humanidade. Este planeta. Toda raça", o homem não para de fazer declarações de amor entre uma música e outra (agora "You Keep on Moving"). É como se a paixão do público batesse nele de frente e refletisse de volta. "Eu vim aqui porque quero dar para vocês todo o amor que vocês têm dado. A minha voz é a sua voz", declarou o Dio do classic rock, mas traduzindo melhor o que se tem é que a voz do rock é a voz do público. Impressionante o tanto de tempo que ele consegue segurar um agudo. É, a voz do rock pode até ser a voz do público, mas só o Glenn (e alguns poucos no mundo) conseguem fazer aquilo e ainda, repito, aos 66 anos. Antes do bis, prometeu voltar no próximo ano, sendo muito aplaudido. Se diminuísse um tanto os solos (principalmente os de "You Fool No One" ainda daria até, talvez, para encaixar "Child In Time". Será?

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E o bis, como já esperado vem com "Highway Star", outra que faria Ian Gillan e David Coverdale esconderem-se em seus quartos e praguejarem aos céus ininterruptamente. Há que se respeitar suas vozes e o que fizeram tanto no DEEP PURPLE, quanto em outras bandas, mas hoje, em 2018, é Glenn que continua com a voz superlativamente perfeita. O roadie fica com o baixo porque agora "a voz" quer ser só a voz. Mas Glenn recebe de novo o baixo, para fechar com "Burn", o maior sucesso das formações MK III e MK IV e uns dos três maiores clássicos do DEEP PURPLE e uma das canções que o público sempre espera ouvir em um show do DEEP PURPLE (os outros dois, você sabe, também estiveram no show). Era o fim do show. Foram quase duas horas de muita classiqueira em apenas doze músicas (boa parte do "Burn" e seleções pinçadas do "Come Taste The Band", "Stormbringer" e "Machine Head"). Dá até para editar o verbete da Wikipédia sobre shows de rock (basta substituir todo o texto com "show do Glenn Hughes).

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Enquanto o público repete várias vezes o nome "da voz", os três músicos dão nele o abraço que todos queríamos dar. E mais uma vez ele promete voltar ano que vem. "Four (!) More Songs" alguns gritavam em coro. Como o pedido não seria atendido (o setlist da turnê e o mesmo em todas as cidades), resta esperar que Glenn cumpra sua promessa e apareça para outros shows em todo o Brasil em 2019. Tendo o cara uns cinquenta discos, com suas várias bandas, dá vontade de correr para casa e ouvir todos. Vamos começar pelo primeiro, do TRAPEZE?

Agradecimentos:

EV7 pela atenção e credenciamento, especialmente Márllon Matos.
Diego Câmara, pelas imagens que ilustram esta matéria.

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Setlist:

1. Stormbringer
2. Might Just Take Your Life
3. Sail Away
4. Mistreated
5. You Fool No One
6. This Time Around
7. Holy Man
8. Gettin' Tighter
9. Smoke on the Water / Georgia on My Mind
10. You Keep on Moving
11. Highway Star
12. Burn

Músicas por álbum:

Burn
* Burn
* Might Just Take Your Life
* Mistreated
* Sail Away
* You Fool No One

Come Taste the Band
* Gettin' Tighter
* This Time Around
* You Keep on Moving

Stormbringer
* Holy Man
* Stormbringer

Highway Star e Smoke on The Water são do Machine Head.

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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).
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