Within Temptation: A historia do implacável bicho de sete cabeças

Resenha - Within Temptation (Audio Club, São Paulo, 30/11/2014)

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Por Fernando Yokota
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Quando The Unforgiving foi lançado em 2011, ficou a impressão de que o WITHIN TEMPTATION havia lançado o álbum que eles gostariam de lançar ao invés daquele que muita gente achava que lançariam. O passo seguinte poderia ser a volta ao porto seguro épico de um The Heart of Everything (que talvez já apresentasse sinais da mudança que viria) ou continuar em frente. O WITHIN TEMPTATION de Hydra ainda é heavy metal, mas com grau de parentesco cada vez mais distante da sua versão de quase duas décadas atrás, e tentar entender a apresentação dos holandeses sob o prisma da dicotomia antigo/novo torna-se irresistível.

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A fila impressionava, chegando à porta do "irmão maior" Espaço das Américas, que fica no mesmo quarteirão. Com a Audio Club bem cheia, a banda fez sua terceira apresentação no país em três dias seguidos (Recife e Rio de Janeiro receberam apresentações nos dias anteriores) e após um pequeno atraso (provavelmente para que todos que estavam do lado de fora pudessem entrar) deu início ao seu set.

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Paradise (What about us?), vai além do "single do disco novo que abre o show": o dueto de Sharon den Adel e Tarja Turunen (trazida em playback) mostra uma discrepância de estilos que, há quinze anos, não seria tão grande como hoje. Tarja personifica o -- na falta de um termo melhor -- metal sinfônico e o canto lírico enquanto Sharon encarna uma contrapartida mais pop que cai muito bem para a melodia com notas acentuadas da dance music do início dos anos 90. Ainda com um pé no pop e outro no metal, a banda se equilibra muito bem com Faster (de The Unforgiving) e a nova Let Us Burn. Enquanto a primeira leva timbres que passariam despercebidos num disco do Depeche Mode ou do New Order, a segunda, com muita naturalidade, junta um "middle 8" alinhadíssimo às prerrogativas do cânone do metal a um legítimo refrão de single radiofônico.

Em In The Middle Of The Night, a banda não faz a menor questão de esconder nos riffs um certo sotaque de Hamburgo e que o nome Kai Hansen não lhes soa indiferente. Heavy metal puro sangue e dos raros momentos em que a voz de Sharon pareceu dar sinais de algum cansaço da corrida maluca de shows. Se cabe uma ressalva à banda, seria a de pensar em versos um pouco mais inspirados em determinados momentos. Coisas como "No more tears, no, nothing else matters" são um tanto quanto enfadonhas, para dizer o mínimo. O primeiro quarto do set, todo ele de músicas dos últimos dois discos, foi fechado com Edge Of The World, pela qual Sharon delcarou ter um carinho especial.

A primeira das músicas mais antigas foi Our Solemn Hour, em sua primeira execução na perna brasileira da turnê. Evocado pelo rito litúrgico das cabeças balançando, o espírito santo do metal fez-se presente e a reboque trouxe Stand My Ground, recebida efusivamente e que Sharon fez questão de lembrar que fala sobre direitos civis e respeito à diversidade.

Entre "deprimente" e "depressivo" existe um abismo que a sutileza morfológica pode atenuar. Musicalmente falando, Lana del Rey mais lamenta do que sofre e não transcende a fronteira que existe entre uma coisa e a outra. Sem o ar blasé da americana (e sem aqueles coqueiros horríveis no palco), Ruud Jolie e Stefan Helleblad (que substitui Robert Westerholt, agora membro de estúdio e pai em tempo integral) metem o pé na porta e desinfetam o chororô "deprê-chic" meio pedante da versão original com suas as guitarras. Sharon, por sua vez, intima a plateia a dançar. Com sua releitura de Summertime Sadness, o WITHIN TEMPTATION subverte a música pop ao mesmo tempo em que deixa extravasar a vontade de se expressar em outros idiomas musicais além daquele que o consagrou. Ponto para eles.

O lado B dessa aventura musical veio em seguida com And We Run, que conta com a participação de Xzibit (quem não se lembra daquele programa da MTV, o Pimp My Ride?), mais uma vez, em playback e nas imagens ao fundo do palco. Não dá para negar o quão louvável é o esforço de se lançar rimas num ambiente tão, digamos, hermético como o heavy metal. Tanto a banda como a plateia até tentaram, mas se não foi decepcionante, certamente não foi o clímax da noite.

The Promise, de Mother Earth, foi a primeira das realmente antigas do repertório. Com Sharon agora vestindo um par de óculos e um manto branco, predominam os duetos de guitarra, o arranjo grandioso e o canto lírico, atingindo notas altíssimas. Lembremos mais uma vez que se tratava da terceira apresentação em três dias, com uma performance realmente impressionante da cantora. Na sequência, Dangerous, que inclui Howard Jones (ex-Killswitch Engage) dividindo as vozes (pré-gravadas para a performance ao vivo), foi uma espécie de interlúdio para Angels, de The Silent Force. O público, que segurava a respiração a cada nota mais aguda de Sharon em The Promise (e foram várias delas), se virava como podia para cantar junto e gritar o nome da vocalista ao final.

Apresentar Sinéad, de The Unforgiving, em versão acústica, foi outro dos momentos de uma banda que deseja testar suas canções pelo que elas são e não pela grandiosidade de seus arranjos. A despeito de ser uma representante desse "WITHIN TEMPTATION 2.0", já não muito coberta do verniz sinfônico, Sinéad é lançada aos leões apenas com um violão e uma modesta cama de cordas provida pelo tecladista Martijn Spierenburg e três minutos depois é declarada vencedora.

The Heart of Everything, de 2007, foi apontado por Sharon como o apogeu do processo de aprimoramento do estilo sinfônico, e teve em Hand Of Sorrow e What Have You Done suas representantes na noite (com a não mais que razoável Tell Me Why, de Hydra, entre elas fazendo sua única aparição em terras brasileiras), com recepção barulhenta por parte do público. Nesta última, era curioso ver casais celebrando o amor loucamente aos beijos ao som de uma tragédia amorosa ao melhor estilo Montecchio/Capuleto.

Silver Moonlight e a clássica Mother Earth fecharam o show em inegável estilo metal. A primeira leva destaque pelos oito compassos do solo de guitarra de Ruud e as partes de Robert em playback e a última, pelo "ôôô" maideniano e a influência céltica de seu arranjo. Certamente, a que angariou a maior participação da plateia na noite. O bis veio logo em seguida com Covered By Roses e Ice Queen, representantes diametralmente distintos da discografia da banda. Os que ainda tinham de fôlego acompanharam as notas em registro estratosférico de Ice Queen (que ganha com a execução ao vivo e a ausência do polimento de sua versão de estúdio) e não decepcionaram a banda. Foi a fita decorativa do o embrulho de memórias que a banda levará de volta para o Natal na gelada Holanda.

O WITHIN TEMPTATION não vai mudar a história do rock mas reivindica a escrita de sua própria história ao dar mais atenção ao que toca nos fones de ouvidos deles, músicos, que nos nossos, os fãs. Muitas das relações entre fãs e artistas acabam pelo mesmo motivo que relações entre pessoas terminam: elas se atraem pelo que o outro é e se repelem quando percebem que um tenta moldar o outro à sua própria figura. O bicho de sete cabeças não é a hidra que dá o nome ao disco, mas o fratricídio doentio do fanatismo que cruza a linha da paixão pela música, do qual escaparam com a sinceridade artística (e que não muitas conseguiram) e fãs que parecem abraçar as novas ideias do mesmo jeito que as antigas. Que continuem com a ousadia (e, por que não, a alegria?) de correr riscos.

Setlist:
Paradise (What About Us?)
Faster
Let Us Burn
In The Middle Of The Night
Edge Of The World
Our Solemn Hour
Stand My Ground
Summertime Sadness
And We Run
The Promise
Dangerous
Angels
Sinéad
Hand Of Sorrow
Tell Me Why
What Have You Done
Silver Moonlight
Mother Earth

Covered By Roses
Ice Queen

WITHIN TEMPTATION é:
Sharon den Adel: voz
Stefan Helleblad: guitarra
Ruud Jolie: guitarra
Jeroen van Veen: baixo
Martijn Spierenburg: teclado
Mike Coolen: bateria
Robert Westerholt: guitarra/voz (estúdio)




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