Guthrie Govan: um grande show de técnica e simpatia em Fortaleza
Resenha - Guthrie Govan (Teatro Marista, Fortaleza, 05/06/2013)
Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
Postado em 15 de junho de 2013
Um sujeito desce do avião, abre a carteira, pega o cigarro que já tinha começado a fumar três horas e meia antes, desamassa-o e procura por uma área aberta onde possa terminar de fumá-lo. Este sujeito é um inglês de barba e cabelos longos, atende pelo nome de Guthrie Govan e é um dos maiores guitarristas do mundo. Na noite daquele dia ele tinha um encontro marcado com uma plateia lotada por outros guitarristas ou meros apreciadores de boa música executada com extrema técnica. Ali estariam desde músicos com larga experiencia, estudantes iniciando o estudo musical até este redator, que finalmente já sabe um pouco mais que batucar na mesa, mas vai pouco além disso.
Fotos: Regis Capibaribe
O próprio Govan diria mais tarde que aquilo não seria um show. Para um show, seria necessário ter uma banda. Mesmo assim, foi um grande show de técnica e simpatia que os quatrocentos presentes puderam presenciar. Entre os músicos que ali estavam, também haviam músicos de diversos instrumentos (violonistas, guitarristas, baixistas) e diversos estilos de música, de metalheads muito true a evangélicos e até mesmo componentes de uma famosa banda de forró ruim (é tudo que me atrevo a dizer), todos em busca de mais conhecimento, inspiração e aperfeiçoar suas técnicas. E as origens deles também seriam muito diversificadas. A maioria obviamente morava em Fortaleza, mas, muitos tinham vindo de cidades vizinhas (ou nem tão vizinhas), como Teresina, Mossoró, Natal e Iguatú (distante um Ceará inteiro).
Com o Teatro Marista completamente lotado, finalmente abrem-se as cortinas e o ex-ASIA GUTHRIE GOVAN inicia a execução de "Sevens", sozinho no palco (os sons de baixo e bateria eram previamente gravados). Não seria um show. Ainda nesta música, a corda Mi da guitarra de Govan quebrou, mas ele não interrompeu a execução. Continuou tocando com apenas cinco cordas como se nada tivesse acontecido. E como tocou. Ao fim da execução, se dirigiu a plateia dizendo "parte disso foi uma canção chamada 'Sevens' e parte foi eu fingindo estar tudo bem". Muito bem humorado, ao ouvir o tradutor dizer o que ele tinha acabado de dizer, pegou as últimas palavras e ressaltou "mas não estava 'tu du bain'", enquanto trocava a corda partida.
Então, Guthrie respondeu algumas perguntas da plateia, principalmente sobre como improvisar. Para tanto, ele aconselhou os músicos a investir tempo fazendo transcrições. "Quanto melhor você fizer suas transcrições, melhor vai improvisar, por que improvisar não é nada mais que transcrever a música em sua cabeça". Ele também contou como começou a tocar guitarra. Aos três anos, seu pai lhe mostrou alguns acordes, mas depois ele teve que aprender a tocar de ouvido músicas como "Because" (BEATLES), o tema dos Flintstones e "Happy Birthday". E aconselhou a solfejar. "Usando estas dicas, a música se tornará como sua língua natal. Música é assim, você não pensa em gramática pra poder falar".
Guthrie ainda falou muito sobre country music, chegando a fazer sua guitarra soar como um banjo e até como um piano, além de demonstrar técnicas de bending e slapping. Sobre slapping, ele reconheceu que é muito melhor fazer isso usando um baixo, mas aconselhou e mostrou como usar também os dedos da mão esquerda.
Depois de tantas dicas, mais uma canção, "Waves", com um trecho de "Garota de Ipanema", de Tom Jobim, o músico brasileiro mais admirado por Govan.
Para finalizar o "workshow", Govan deixou alguns pensamentos, todos perfeitamente demonstrados, inclusive, construindo coisas bonitas com notas intencionalmente erradas: "Técnicas não são coisas separadas que você coloca em caixas separadas. Se eu quisesse perfeição, eu programaria os sons. Eu prefiro a expressão que a guitarra dá".
"Wonderful Slippery Thing" e "Fives" foram as últimas músicas da noite. Mesmo com o cansaço pela grande quantidade de workshops que Govan tem dado nas últimas semanas e pelo deslocamento entre cada um deles, Govan ainda posou para fotos com todos que quiseram fazê-lo e ainda distribuiu alguns autógrafos. Govan ainda recebeu uma guitarra, uma lap steel fabricada com madeiras brasileiras, feita pelo luthier cearense Júlio Alves. Num vídeo gravado após o evento, o guitarrista revelou ter amado o presente.
Quem é do Ceará poderá em breve assistir a uma entrevista com o músico na TV Assembléia, feita pelo apresentador e fanático por rock and roll Fernando Pessoa e filmada por Gandhi Guimarães, nosso parceiro na maioria dos eventos.
O evento teve patrocínio da Casa dos Relojoeiros, Escola de Música Guitartrix, Targino Custom Pedais, Rafastour, Fire Custom Pedals e Case Music. A turnê de Govan no Brasil vem sendo organizada por Luciano Alf. Todas as fotos nesta matéria foram tiradas por Regis Capibaribe, um dos maiores nomes da fotografia cearense. Agradecimentos à produção do evento, em especial a João Paulo C. Saraiva, pelo credenciamento.
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