Digão em PoA: "O Raimundos acabou é o caralho!"

Resenha - Raimundos (Opinião, Porto Alegre, 26/05/2011)

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Por Paulo Finatto Jr.
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Desde que o cantor Rodolfo Abrantes deixou o RAIMUNDOS em 2001, a banda vinha sofrendo com a instabilidade dos seus músicos e, como consequência, deixou muitas dúvidas sobre a continuidade da sua carreira. O grupo – que nunca encerrou oficialmente as suas atividades – retorna agora em 2011 para mostrar que as constantes crises internas ficaram no passado. Em turnê para promover o novo DVD ao vivo “Roda Viva”, o RAIMUNDOS voltou à capital gaúcha após oito anos para, acima de qualquer coisa, provar que dessa vez a retomada é séria.

Fotos: Liny Rocks

Por mais não possua a mesma visibilidade e a mesma representatividade dos anos dourados da MTV brasileira, o RAIMUNDOS ainda conta com um repertório interessantíssimo, sobretudo para os fãs que cresceram ao som de clássicos e polêmicos como “Raimundos” (1994) e “Só no Forévis” (1999). No entanto, a banda precisa atualmente reconquistar o que deixou aberto em quase uma década de ostracismo e de pouco destaque na mídia. Em razão disso, Digão (vocal e guitarra), Marquim (guitarra), Canisso (baixo) e Caio (bateria) prepararam o DVD “Roda Viva” – gravado na capital paulista no passado – para marcar de vez a volta do grupo ao cenário brasileiro.

De qualquer modo, o show do quarteto brasiliense não possuiu nenhuma grande novidade – sequer uma música inédita foi incluída no repertório. O grupo, que entrou no palco do Opinião às 23h35, retornou à capital gaúcha unicamente para saciar a vontade do público, que mesmo não ocupando plenamente a casa, compareceu em bom número. O atraso de mais de meia hora não só deixou as pessoas impacientes como ainda proporcionou uma abertura verdadeira intensa (e muito ovacionada) com “Fique! Fique!”, faixa retirada do controverso “Kavookavala” (2002). O pique do espetáculo continuou em seu ápice durante o hit “Esporrei na Manivela”, música que contou com praticamente todas as vozes do Opinião como apoio à performance de Digão. Na sequência, uma mistura de faixas recentes de pouco brilho, como “Jaws” e “El Mariachi”; e outras do imponente debut de 1994, como “Marujo” e “Rapante”.

Não há dúvidas de que o RAIMUNDOS possui no guitarrista Marquim e no baterista Caio a sua sustentabilidade. Por mais que Canisso não comprometa o espetáculo – tampouco o baixista pode ser apontado como o melhor músico do quarteto. Porém, Digão é quem deixa um pouco a desejar. Embora possua uma performance irreparável com a guitarra em mãos, falta muito fôlego para que a sua empreitada diante do microfone seja igualmente eficiente. Não é à toa que o grupo anunciou que Tico Santa Cruz, mesmo que de modo temporário, deve acompanhar o RAIMUNDOS ao vivo sempre que a agenda da sua outra banda – o DETONAUTAS – permitir. Depois das bem recebidas “Opa! Pera aí Caceta” e “Pompem”, os caras ainda executaram “Nêga Jurema” que, pelas palavras de Digão, foi incluída de última hora no set-list.

Entre as músicas mais rápidas – próximas ao hardcore californiano – e outras de apelo mais pop ou comercial, certamente o público evidenciou a sua preferência pela segunda opção. A plateia cantou sozinha boa parte de “O Pão da Minha Prima” e, como não poderia ser diferente, acompanhou novamente a performance de Digão em “Mulher de Fases”, provavelmente o maior hit do RAIMUNDOS. No entanto, “Palhas do Coqueiro” – outra retirada do imponente “Raimundos” (1994) – movimentou (e muito) o público gaúcho. Com uma câmera na mão, o frontman registrou as rodas punk que foram abertas na pista para o videocast oficial do grupo. Na sequência, “Be a Bá” e o curtíssimo hardcore “Macaxeira” não chegaram a impressionar, mas não comprometeram a continuidade do espetáculo.

Em seguida, “Pitando no Kombão” manteve o clima ameno do espetáculo, que misturou composições conhecidas do RAIMUNDOS com faixas mais alternativas, sobretudo da época de Rodolfo Abrantes com a banda. O grupo, que por muitos anos representou o que de melhor o nosso país produzia dentro do rock (constantemente o grupo era o escolhido para abrir shows internacionais – inclusive de heavy metal), deixou para a reta final da apresentação a maior parte das suas músicas conhecidas e/ou populares. Em “Aquela”, a plateia gaúcha cantou junto mais uma vez. Na sequência, o hit radiofônico “Saw You Saying (That You Say That You Saw)” inseriu uma dose extra de ânimo nos presentes, que não perderam o pique em “Me Lambe” e em (outra clássica da era MTV) “A Mais Pedida”. O cantor Digão, que perdeu boa parte do fôlego e da potência da voz se comparado com o início do show, contava com o apoio incondicional dos fãs nos maiores clássicos da banda. Por isso, pouco se reparava o desgaste do frontman do RAIMUNDOS.

Depois da mediana “Mais Vó”, o quarteto brasiliense encerrou o show com a sequência mais adequada para isso. Embora não seja a música mais imponente do seu repertório, “Reggae do Manêro” é uma daquelas faixas que o público certamente adora. A letra – uma das mais ácidas escritas pelo RAIMUNDOS até agora – foi acompanhada do início ao fim (principalmente no refrão) por boa parte da plateia. Em seguida, o frontman pediu que todos girassem as suas camisetas durante a execução de “Tora Tora”. No entanto, nada se comparou ao que o público fez durante “Eu Quero Ver o Oco”, provavelmente a música mais agitada da noite. Os fãs, que aguardavam o retorno para o bis, se despediram do RAIMUNDOS pedindo insistentemente “Puteiro de João Pessoa” – que estava programada para mais tarde.

O intervalo curtíssimo entre o show e o bis não diminuiu o ânimo dos cerca de oitocentos fãs que compareceram ao Opinião. Os pedidos incessantes motivaram Digão a declarar “vocês se amarram em um puteiro!”, o que, obviamente, serviu de incentivo para que os gritos fossem ainda mais fortes. No entanto, o cantor anunciou que executariam uma música diferente e que duvidava que alguém soubesse que faixa era. Porém, nem mesmo com o pedido para que um fã subisse ao palco para ajudá-lo na performance de “Duality” (SLIPKNOT) foi suficiente para isso. De qualquer modo, Digão apenas arranhou algumas frases em inglês até que um corajoso da plateia assumiu o microfone, já na sua parte final. Na sequência, “Deixa eu Falar” (curiosamente de pouco brilho) antecipou o encerramento do show, com a aguardada e agitada “Puteiro em João Pessoa”.

O quarteto brasiliense deixou o palco após 1h45 de show do mesmo modo que iniciou o seu repertório: sem cometer nenhum deslize. Porém, o que praveleceu não foi nenhuma das quase trinta músicas executadas, mas sim as palavras de Digão: “o RAIMUNDOS acabou é o caralho!”. O espetáculo enérgico da banda contou com o carinho dos fãs de carteirinha da banda. Na noite em que dividiu os olhares para com show ‘revival’ do DEFALLA – marcado para o mesmo horário em outra conhecida casa na capital gáucha – os que compareceram ao espetáculo de Digão & Cia. não se aparrenderam. Pelo contrário. Eles reviveram uma época que – pelo o que se viu e ouviu – está armada para se repetir.

Set-list:
01. Fique! Fique!
02. Esporrei na Manivela
03. Jaws
04. Marujo
05. Rapante
06. El Mariachi
07. Opa! Pera aí Caceta
08. Pompem
09. Nêga Jurema
10. O Pão da Minha Prima
11. Mulher de Fases
12. Palhas do Coqueiro
13. Be a Bá
14. Macaxeira
15. Pitando no Kombão
16. Aquela
17. I Saw You Saying (That You Say That You Saw)
18. Me Lambe
19. A Mais Pedida
20. Mas Vó
21. Reggae do Manêro
22. Tora Tora
23. Eu Quero Ver o Oco
24. Duality (Slipknot)
25. Deixa eu Falar
26. Puteiro em João Pessoa

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Sobre Paulo Finatto Jr.

Reside em Porto Alegre (RS). Nascido em 1985. Depois de três anos cursando Engenharia Química, seguiu a sua verdadeira vocação, e atualmente é aluno do curso de Jornalismo. Colorado de coração, curte heavy metal desde seus onze anos e colabora com o Whiplash! desde 2000, quando tinha apenas quinze anos. Fanático por bandas como Iron Maiden, Helloween e Nightwish, hoje tem uma visão mais eclética do mundo do rock. Foi o responsável pelo extinto site de metal brasileiro, o Brazil Metal Law, e já colaborou algumas vezes com a revista Rock Brigade.

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