Matanza: rock/hardcore para uma plateia enlouquecida em PoA

Resenha - Matanza (Opinião, Porto Alegre, 15/05/2011)

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Por Paulo Finatto Jr.
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De volta à capital gaúcha para promover o recente “Odiosa Natureza Humana” (2011), os cariocas do MATANZA mais uma vez incendiaram o Opinião. A banda, que pode ser apontada como um dos nomes mais enérgicos e queridos do público brasileiro, mostrou o seu rock/hardcore para uma plateia verdadeiramente enlouquecida. Em quase duas horas de show, o quarteto deixou o palco da mesma forma que entrou em cena: ovacionados em uníssono por cerca de mil pessoas.

Fotos: Liny Rocks

Por volta das 19h50, uma imensa fila (constituída principalmente por adolescentes) rodeava a entrada do Opinião. Os dois primeiros lotes de ingressos promocionais estavam previamente esgotados – o que comprovava a ansiedade (e a vontade) do público gaúcho em assistir o show do quarteto carioca. De qualquer modo, a expectativa ficaria ainda maior por causa do cronograma extenso da noite. Os gritos de “Matanza! Matanza!” precederam a primeira banda de abertura, a ZERODOZE. Em um set de aproximadamente trinta minutos, Cristiano Wortmann (vocal e guitarra), André Lacet (baixo) e Alberto (bateria) mostraram consistência em uma série de músicas próprias, inclusive do seu novo álbum, intitulado “Dias Inesquecíveis” (2011).

O rock n’ roll encorpado (e moderno) da banda mostrou desenvoltura e conquistou uma boa receptividade desde o início do espetáculo, sobretudo com “Dani Jueves”, que podia muito bem iniciar o show do conjunto. Porém, foi o cover de “Wrathchild” (IRON MAIDEN) que criou um ambiente extremamente favorável ao grupo, que ainda executaria “Ninguém” e “Fantoche”, essa última com direito a roda punk na pista. O público, que parecia conhecer muito pouco sobre a ZERODOZE, se animou em “Nossa História”, provavelmente o maior do hit do primeiro álbum do power-trio. No passar da régua, os caras agradaram a plateia e deixaram o palco do Opinião sob o rótulo de mais uma promessa do underground gaúcho.

Depois de um pequeno intervalo, o quarteto FERROLHO sofreu muito nas mãos do público, nitidamente avesso a sonoridades como hardcore cru e direto da banda. Entretanto, o grupo mostrou profissionalismo e não se abalou com as vaias, até certo ponto tímidas, que surgiam entre uma música e outra. De qualquer forma, os caras evidenciaram uma proposta agressiva, ríspida e que mistura crítica social ao bom humor. O som embolado (em que o guitarrista foi o mais afetado) prejudicou a performance dos caras, o que contribuiu ainda mais para as caras fechadas na plateia. Entre as faixas apresentadas, a abertura com “Osama Bin Laden” surpreendeu muita gente, mas foi com “Crianças” e com “PM’s” que o público se mostrou um pouco menos indiferente. O show – desastroso pela ótica dos fãs – pode (e vai) melhorar daqui para frente. O quarteto deixou mais do que estampada a sua força de vontade em trinta minutos de espetáculo.

Com o palco montado à espera do MATANZA, precisamente às 22h10 Jimmy London (vocal), Maurício Nogueira (guitarra), China (baixo) e Jonas (bateria) entraram em cena com a ótima “Remédios Demais”, provavelmente a faixa mais interessante do seu novo disco, intitulado “Odiosa Natureza Humana” (2011). O público, que se comportou enlouquecidamente durante o show inteiro, promoveu muitas rodas punks em cada uma das áreas do Opinião – inclusive no mezanino – e muito empurra-empurra em frente à grade do palco. Na sequência, “Ressaca Sem Fim” e a animada “Meio Psicopata” comprovaram o domínio dos gaúchos sobre o repertório da banda. Do início ao fim do espetáculo, o rock/hardcore rápido e agressivo do quarteto carioca era acompanhado pelas vozes da plateia.

Em seguida (e praticamente sem nenhuma pausa entre as faixas), a banda misturou o que há de mais recente em sua carreira com músicas que viraram imediatamente hinos do rock n’ roll brasileiro. Depois de “Rio de Whisky”, retirada do primeiro álbum do grupo, intitulado “Santa Madre Cassino” (2011), o MATANZA emendou “Ela Não Me Perdoou” com “Bebe, Arrota e Peida”. O pique frenético – da banda e do principalmente dos presentes – continuou em seu ápice durante “Bom É Quando Faz Mal” e “A Arte do Insulto”, duas das músicas mais imponentes do repertório do conjunto. O calor do Opinião – consequência do inferno proporcionado por centenas de fãs que agitavam ao extremo – era enfrentado a base de muita cerveja. Na primeira pausa para conversar com os gaúchos, Jimmy London introduziu “Santa Madre Cassino”, faixa do primeiro registro da banda, supostamente lançado no ano de 1666. O bom humor contornou a performance do carismático vocalista a cada nova música.

Na sequência, pode-se dizer que o show do MATANZA perdeu um pouco do seu pique insano, sobretudo pelo abatimento do público, que aguentou ao máximo o que pode o calor do Opinião. Nesse ponto do show, o suor era uma parte integrante da roupa de cada um dos fãs – mais agitados ou não – que ocupavam cada um dos espaços da casa. Em cena, o Jimmy London & Cia. emendaram uma série de músicas interessantes e bem recebidas, como “Melhor Sem Você” e “Tombstone City”. O público ainda cantou cada verso de “Tudo Errado” (que foi bastante ovacionada) e “Eu Não Gosto de Ninguém”. O modo pelo qual o quarteto comanda os seus shows é de impressionar. Não há pausas. Não há descanso. O rock/hardcore ainda se desdobrou em outras faixas de impacto, como “Todo o Ódio da Vingança de Jack Buffalo Head” e “Whisky Para um Condenado” antes da segunda pausa para uma outra rápida conversa com os fãs.

Por mais que a banda evidencie uma performance extremamente coesa e tecnicamente densa, as pausas são fundamentais para a retomada do fôlego, sobretudo dos cariocas. Por outro lado, o público praticamente não sossegou em quase duas horas de show. Na continuidade do repertório da noite, as recentes “Em Respeito ao Vício” e “Carvão, Enxofre e Salitre” vieram intercaladas com a mais antiga “Interceptor V-6”. No entanto, outras músicas, como “Santânico (Parte 1)” e (principalmente) “O Chamado do Bar” levaram os presentes a uma loucura praticamente imensurável. Em seguida, o MATANZA relembrou o disco-homenagem “To Hell with Johnny Cash” (2005) com duas composições, “Home of the Blues” e “Straight A’s in Love”. Embora as versões assinadas pelo quarteto sejam incríveis, o impacto do rock/hardcore em português é extremamente superior às músicas de JOHNNY CASH ao vivo.

De um lado, as faixas mais antigas, sobretudo retiradas de discos como “Música Para Beber e Brigar” (2003) e “A Arte do Insulto” (2006), eram as mais esperadas da noite. De outro, o MATANZA conseguiu satisfatoriamente acrescentar as músicas mais recentes no seu set-list sem maiores inconvenientes. Depois da nova “Odiosa Natureza Humana”, as clássicas “Tempo Ruim” e “Pé na Porta, Soco na Cara” não só foram ovacionadas já nos primeiros acordes, como ainda contaram com as vozes em uníssono do público. O espetáculo, que parecia ter encontrado o ápice, ainda estava longe do seu fim. Outras faixas clássicas – como “Clube dos Canalhas” e “Maldito Hippie Sujo” – evidenciaram como o repertório do grupo carioca é completo e versátil para os momentos ao vivo. A prova é que ainda havia espaço para outro tema retirado de “Odiosa Natureza Humana” (2011): a interessante “A Menor Paciência”.

Na reta final da apresentação, o público cantou junto com a banda “Ela Roubou Meu Caminhão” e, como não poderia ser diferente, ainda acompanhou o quarteto em “Eu Não Bebo Mais” e “Estamos Todos Bêbados”, que resumiu impressionantemente bem o clima da noite. Sem retornar para o bis, o MATANZA deixou o palco após a curtíssima “Santânico (Parte 2)”, que fechou o show com chave de ouro. Não há dúvidas de que os gaúchos que compareceram ao Opinião retornaram para as suas casas extremamente esgotados e contentes após exata 1h40 de show. Por outro lado, o quarteto carioca foi impecável em seu espetáculo e pode ser considerado – por que não? – a melhor banda brasileira de rock na atualidade. Os fãs e os curiosos que compareceram sentiram isso na pele.

Porém, uma crítica precisa ser feita quanto à produção do evento e – principalmente – aos seguranças da casa. Embora autorizada com antecedência, a equipe do Whiplash! não pode fotografar o show da barricada, assim como os outros profissionais da imprensa. O Opinião, extremamente cheio para o show do MATANZA, prejudicou consideravelmente o nosso trabalho. Do mesmo modo, os seguranças da portaria ainda impossibilitaram a retirada da pulseira especial para a nossa fotógrafa simplesmente “porque não dava mais para sair da casa”. Para dizer o mínimo: lamentável e vergonhoso, sobretudo para nós jornalistas.

Para encerrar a matéria, dedico o último parágrafo para a morena de piercing na boca (e muito bonita) que me abordou durante o show. “O que você tanto anota? Não é sobre a gente, né?”. Óbvio que não era. Na maioria das vezes, a vida de jornalista é ingrata e não se divertir em shows bacanas, como o do MATANZA, nada mais é do que uma consequência. De qualquer modo, eu ainda penso nela (a morena). É sério.

Sites:
http://www.zerodoze.com
http://www.myspace.com/ferrolhohc

Set-list:

01. Remédios Demais
02. Ressaca Sem Fim
03. Meio Psicopata
04. Rio de Whisky
05. Ela Não Me Perdoou
06. Bebe, Arrota e Peida
07. Bom É Quando Faz Mal
08. A Arte do Insulto
09. Santa Madre Cassino
10. Melhor Sem Você
11. Tombstone City
12. Tudo Errado
13. Eu Não Gosto de Ninguém
14. Todo o Ódio da Vingança de Jack Buffalo Head
15. Whisky Para um Condenado
16. Em Respeito ao Vício
17. Interceptor V-6
18. Carvão, Enxofre e Salitre
19. Santânico (Parte 1)
20. O Chamado do Bar
21. Home of the Blues (Johnny Cash)
22. Straight A’s in Love (Johnny Cash)
23. Odiosa Natureza Humana
24. Tempo Ruim
25. Pé na Porta, Soco na Cara
26. Clube dos Canalhas
27. Imbecil
28. Maldito Hippie Sujo
29. A Menor Paciência
30. Ela Roubou Meu Caminhão
31. Eu Não Bebo Mais
32. Estamos Todos Bêbados
33. Santânico (Parte 2)

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Sobre Paulo Finatto Jr.

Reside em Porto Alegre (RS). Nascido em 1985. Depois de três anos cursando Engenharia Química, seguiu a sua verdadeira vocação, e atualmente é aluno do curso de Jornalismo. Colorado de coração, curte heavy metal desde seus onze anos e colabora com o Whiplash! desde 2000, quando tinha apenas quinze anos. Fanático por bandas como Iron Maiden, Helloween e Nightwish, hoje tem uma visão mais eclética do mundo do rock. Foi o responsável pelo extinto site de metal brasileiro, o Brazil Metal Law, e já colaborou algumas vezes com a revista Rock Brigade.

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