AC/DC: Banda empolga Barcelona pela segunda vez no ano
Resenha - AC/DC (Estádio Olímpico, Barcelona, 07/06/2009)
Por Flávio H. G. Dagli
Postado em 15 de junho de 2009
Andar pelo centro de Barcelona naquele domingo de sol já dava sinais de que alguma coisa especial estava por acontecer. As camisas azul-grená, que estavam tão em evidência nas últimas semanas graças às conquistas do principal time da cidade, pareciam que tinham ficado no armário, dando lugar a roupas pretas com um grande logotipo de quatro letras: AC/DC. Por todos os lados se via velhos, jovens e crianças com alguma vestimenta que remontava ao quinteto australiano que tocaria pela segunda vez na cidade neste ano (o outro show foi no dia 31 de março) para divulgar seu mais recente trabalho, Black Ice.
Eu achava tudo aquilo muito engraçado. Mas o choque maior ficou para quando subia o Montjuic, monte onde está localizado o Estádio Olímpico, palco do show. Passando em frente às Fontes Mágicas, um dos cartões-postais da cidade, vi um pequeno conflito entre os turistas que se iam amontoando pra ver o espetáculo das águas e os metaleiros de camiseta preta que subiam para o estádio. Ali estavam, lado a lado, uma família que comia distraidamente um pacote de bolachas e tomava água e a turma de camiseta preta, fazendo bagunça, cantando as músicas da banda enquanto tomavam umas cervejinhas. Fico imaginando o que passava pela cabeça dos desavisados que não sabiam que a poucos metros dali tocaria, em breve, uma das maiores bandas de rock de todos os tempos.
Como nos eventos ocorridos no nosso país, a entrada do local do show estava lotada de gente: fãs, seguranças, organizadores de fila, pobres desesperados que tentavam vender aquele ingresso que ficou na mão bem na última hora. Mas diferente do que costuma acontecer no Brasil, todo o "circo" estava altamente organizado. Não vi nenhum tipo de tumulto, nenhum espertinho tentando furar fila nem vendedores ambulantes tentando te empurrar alguma coisa para beber ou uma camiseta de fundo-de-quintal.
Entrar no Estádio Olímpico foi uma emoção. Além da sua grandeza e beleza, não pude deixar de lembrar a abertura dos Jogos Olímpicos de 1992, quando um arqueiro acendeu a pira com uma flecha em chamas disparada do meio do gramado. Mas naquele domingo, ao invés de fãs do esporte e admiradores do tão falado "espírito olímpico", estavam ali milhares e milhares de rockeiros à espera de um mega-show, como os australianos costumam proporcionar.
Lá dentro, tudo muito organizado, seguindo o tal padrão europeu. Para se ter uma idéia, os vendedores oficiais de cerveja estavam devidamente sinalizados com uma bandeira presa por uma haste às suas cinturas. O problema é que os padrões europeus de organização se refletem nos nossos bolsos. Uma cerveja de 500mL com esses caras saía a exorbitantes 10 euros. Uma camiseta oficial do show não saia por menos de 25 euros. Muito para quem já tinha pagado 72 euros no ingresso. Os mais empolgados (ou endinheirados) compravam tudo isso e ainda juntavam o que restava para comprar chifres do Capeta, como os que Angus Young usa na capa de "Highway to Hell", esses porém tinham uma lâmpada vermelha que piscava, uma bobagem que deu um efeito bem interessante ao estádio quando se apagaram as luzes e começou o espetáculo, às 22h em ponto, depois de uma aplaudidíssima banda de abertura, The Answer.
O que dizer do show? Li numa revista uma resenha dizendo que qualquer concerto do AC/DC vai ser extremamente previsível – exatamente o que o público quer. Concordo 100%. Um show do AC/DC funciona mais ou menos como cada ingrediente de uma receita de bolo. Se falta alguma coisa, você estranha e não quer nenhuma mudança num sabor tão especial já conhecido.
Depois de uma animação super divertida que acontece dentro de um trem, a banda abre o show com a primeira faixa de "Black Ice", "Rock'n'Roll Train". Eu não pude conter a emoção. Cada acorde disparado das guitarras dos irmão Young me arrepiava! Era de surpreender que aqueles vovôs ainda tinham tanta energia. Angus continuava a se mexer como no vídeo de "Let There Be Rock" e a voz de Brian Johnson saía como se tivesse gravado o "Black in Black" (1980) uma semana atrás. O público delirava com toda aquela energia e cantava muito alto a cada nova música.
Só que os vovôs do rock são vovôs e pouco a pouco se notava os sinais de cansaço. O intervalo entre as canções, por exemplo, eram um pouco maiores que o habitual. Outro sinal de desgaste veio depois da terceira, "Back in Black", quando já se notava que Angus não se mexia tanto como antigamente. Daí pra frente, quem tomou conta do espetáculo foi Brian Johnson. Em nenhum momento perdeu o pique nem a potência de sua voz esganiçada. Mexeu com o público e levantou a galera por todo o show.
Músicas novas foram mescladas aos clássicos. O novo álbum tem uma força muito grande e suas músicas ganham ainda mais energia ao vivo. Mas era óbvio que o público vibrava mais com os clássicos, e os principais deles não foram esquecidos: "Back in Black", "The Jack", "Shoot to Thrill", "Highway to Hell", "Thunderstruck", etc.
Angus, apesar de mais lento, não decepcionou. Não. Longe disso. Fez show como só ele sabe fazer. Sabem o que dizia sobre a receita de bolo? Bom, da parte de Angus não faltou nada. Fez seu passo de pato que aprendeu com Chuck Berry, fez seu strip-tease em "The Jack", brincou com o público, correu de um lado para o outro do palco e no final, em "Let There be Rock", fez seu longo solo de guitarra como no vídeo homônimo, levando os fãs ao delírio.
Após duas horas de muito rock and roll, o show chegou ao seu fim. Depois dos canhões de "For Those About to Rock", houve uma curta, porém bonita, queima de fogos. Com a lua cheia sobre nossas cabeças, voltamos pra casa com os ouvidos zunindo e felizes por ver que a energia dessa banda que arrepiou nos anos 70 e 80 ainda contagia um estádio inteiro.
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