Jethro Tull: Em Porto Alegre, um diamante perfeito mas sem o mesmo bri
Resenha - Jethro Tull (Teatro do Sesi, Porto Alegre, 23/04/2007)
Por Alcio Mota
Postado em 05 de maio de 2007
Apesar dos preços nada convidativos que ultimamente tem se praticado nos ingressos dos shows, quando uma banda mítica como o Jethro Tull aterrissa nos nossos pagos, a vontade de conferir como andam os velhinhos acaba por suplantar qualquer tendência sovina. Foi o que aconteceu na noite de 23/04/07 em Porto Alegre, no Teatro do Sesi: lá estavam eu e meu filho, esfregando as mãos para ver Ian Anderson e sua trupe no "Acoustic/Electric Tull Concerts".
Pelo que lembre, esta é a terceira vez que o JT visita Porto Alegre. A primeira foi em outubro de 1988, no Gigantinho, e a segunda foi em março de 96, no Opinião. Estive nestas duas vezes: em 88 foi um show memorável, dos melhores que já assisti; em 96 não deu para ficar até o final, o Opinião estava superlotado, não tinha ar condicionado na época e o calor era insuportável. Agora, a expectativa era das melhores: teatro bacana, infra-estrutura de primeira, ar condicionado nos trinques, etc. Só faltava o principal, que era a banda corresponder.
Quando Anderson entrou, sapecando uma gaita de boca, acompanhado de seu fiel "sócio" de estrepulias, o guitarrista Martin Barre, únicos remanescentes dos heróicos anos 60, a energia cósmico-telúrica do velho JT ameaçou se confirmar: "Some Day The Sun Won’t Shine For You", do primeiro álbum, "This Was" (1968), um blues arrastadão, no melhor estilo do delta do Mississipi. Este tema singelo relembra que o Jethro Tull bebeu de diversas fontes, blues, música celta, música folclórica européia, jazz, música erudita) para fazer um rock de características únicas: progressivo, com sonoridade medieval, vocal potente, na medida certa, com letras bem pensadas, regado por instrumentos incomuns no mundo do rock e até em outros mundos, a flauta de Anderson principalmente, mas também acordeon, mandolin, marimba e outras raridades.
Infelizmente, a "ameaça" não se confirmou. A partir daí o show se transformou numa performance de tiozões para tiozões. Aliás, se alguém tivesse levado aquela velha tia que adora Roberto Carlos, ou aquele tio fã de João Gilberto, nenhum sairia escandalizado, e isto é um mau sinal para um show de rock, mesmo para rock progressivo. Quando tocou "Living in the Past", um dos temas mais impactantes da história do JT, ainda dos 60, deu para sentir que a coisa ia ser "amaciada", e isto sim se confirmou.
O Jethro Tull atual é todo "certinho". Doane Perry, o baterista, virou um perfeito funcionário público (perdoem-me meu amigos "barnabés"): preciso, burocrático e lento. Aliás, não sei se isto foi intencional ou não, mas o andamento imprimido no show atual é quase que invariavelmente mais lento do que nas versões originais das músicas. Isto é admissível em exceções, mas quando se torna a regra, começa a se tornar deprimente. Perry não erra, mas também não tenta nada de novo, não esculacha a bateria e, com isto, acaba não acertando. Talvez esteja aí o problema desta turnê: não se definiu entre elétrica ou acústica, ficando uma coisa morna, insossa. Já vi shows plenamente acústicos com mais pegada do que este do JT. Ainda dentro da galeria dos bons moços está o tecladista/acordeonista John O’Hara. Por falar nisto, alguém ouviu o teclado? Tá certo, tá certo, é sacanagem, mas a participação dele lembrou-me festas de casamento ou até eventos menos dignos, e isto é uma pena, os teclados sempre tiveram bastante força no JT.
Mas o grande e ininteligível destaque do show foi a violinista convidada Ann Marie Calhoun. Ann Marie, uma simpática e elegante americana, com ascendência chinesa, creio eu, toda arrumadinha e da turma dos "certinhos", toca bem demais. O que ela faz com o violino daria gosto de ver: sola, improvisa, faz efeitos, dialoga com a flauta e com a guitarra (na verdade massacra estes instrumentos), estica as notas e o corpo junto em passos de bailarina, uma "graça". Eu digo "daria gosto de ver", se não fosse num show do Jethro Tull. Ela simplesmente reduziu o grande e incansável Martin Barre a um guitarrista coadjuvante, numa típica guitarra base com pouquíssimas incursões solo (um tema próprio e algumas oportunidades "concedidas" por Calhoun: isto não está ao contrário?). Fez falta o peso da guitarra de Barre, com seus riffs instigantes, que sempre foram uma marca do JT, além da flauta de Anderson, obviamente. Grandes bandas de heavy metal sempre respeitaram o JT, muito pela guitarra decidida e criativa de Barre. Exemplo: a versão do Iron Maiden para "Cross Eyed Mary". Já o pobre baixista David Goodier... Com a única exceção de uma pequena invenção no solo de Bourée, o baixo foi no show o que costuma ser um baixo "meia-boca": está lá, mas não se ouve e a gente nunca sabe se faria falta se não estivesse.
Quanto ao Ian Anderson, exceto as críticas que fiz em relação ao enfoque do show, que certamente é concepção dele, continua sendo um grande astro. Arrasando na flauta como sempre, cantando muito bem (apesar de já não ter mais aquela voz de vinte anos atrás, o que é natural), pulando como um fauno saído da floresta, Anderson sempre conquista o povo. O destaque dele só não foi maior porque a violinista roubou a cena em diversas passagens. Algo que o público poderia ter sido poupado: Anderson dançando em volta de Ann Marie como se fossem uma dupla de mestre-sala e porta-bandeira. Ainda bem que durou pouco!
Com todo o respeito à opinião de Rodrigo Werneck, que escreveu a resenha do show do Rio no Whiplash.net, muito bem por sinal, no geral, a pasmaceira dominou em Porto Alegre, com alguns poucos momentos de real criatividade e energia, e não apenas temperos dispensáveis. Teve momentos em que achei que alguém ia puxar uma mesa para o palco e iam dar uma pausa para o chá, como se faz em peças de teatro. O compactão de "Thick As A Brick", uma das clássicas indispensáveis, foi de uma letargia não merecida. Algumas exceções: apesar de muita gente não ter gostado, achei bem interessante a nova introdução com variações sobre o tema de "Aqualung", mas poderia ter ficado melhor se tivessem fechado com a versão original; "My God", um tema brilhante, acordou o público, que já estava quase dormindo após a chatíssima "America" (que teve inclusive citações de outros temas não menos chatos). Sobre "America", que felizmente não é do JT, apenas uma homenagem à música americana: como perdem tempo com uma bobagem destas e deixam de fora "A New Day Yesterday", "Cross Eyed Mary" ou "Songs From The Wood"? Bom mesmo foi o tema do bis: "Locomotive Breath", esta sim honrou a tradição de temas poderosos da banda. Até a contribuição do violino de Ann Marie casou bem, quando finalmente ela deu uma enlouquecida e saiu do sério. Será que tocaram o bis num andamento mais rápido só pela pressa de ir embora?
O Jethro Tull dos 60 e, principalmente do início dos 70, era uma pedrada sonora cheia de pontas contundentes, um diamante valioso, mas totalmente bruto. Hoje é uma pedra lapidada, com arestas já arredondadas e brilho esmaecido. Entra "redondinho" em qualquer ouvido não iniciado, e isto é o que não satisfaz os fãs da fase antiga.
Neste momento, se alguém me perguntasse se vale a pena ir ao show, eu responderia: se você é um fã inconteste do JT, vá, porque ver o Ian Anderson é sempre um prazer e tudo vai ser perdoado; se você é alguém que está tentando conhecer a banda e gosta de um som mais enérgico, guarde os seus reais para comprar CDs como "Stand Up", "Living in The Past", "Aqualung", "Thick As A Brick" ou "Too Old To Rock’n’Roll Too Young To Die", o investimento será seguro e você não correrá o risco de não gostar do Jethro Tull sem ter conhecido sua verdadeira face.
Nota sobre o local e o público: o som foi decepcionante, não sei se pela acústica do teatro (creio que não) ou pelo sistema eletrônico, o fato é que alguns instrumentos se ouviam demais e outros de menos (a voz muitas vezes falhava); o público foi algo de se pensar: com exceção de algumas namoradas e esposas, 80% eram homens, um verdadeiro Arizona. Será que as mulheres não foram com a cara da Ann Marie?
Email do autor: [email protected]
Escrito em 25/04/07
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