Como a nova era dos festivais está sufocando os shows menores
Por Emanuel Seagal
Postado em 24 de março de 2026
O aumento de preços em grandes shows e festivais internacionais tem impactado diretamente os shows fora do mainstream. Com a oferta de pacotes VIP que chegam a custar milhares de reais, uma parcela do público concentra seus gastos em eventos de grande porte, diminuindo a venda de ingressos de artistas menores e transformando a experiência cultural em um artigo de luxo.

Um levantamento apontado pela Folha de São Paulo mostra que, entre os grandes eventos listados na Ticketmaster, sete em cada dez oferecem pacotes VIP. A prática, antes restrita a astros internacionais, já foi adotada por artistas brasileiros como Djavan e Gilberto Gil. Em apresentações no Allianz Parque, pacotes que incluem acesso à passagem de som rondam a faixa de R$ 1.000.
Nos grandes festivais de rock e metal, a exclusividade atinge valores ainda maiores. Para o Monsters of Rock 2026, o setor VIP Backstage Mirante chega a custar R$ 3.090 a inteira. No Bangers Open Air, o BF Experience, que inclui uma tour guiada pelos bastidores do festival, sai por R$ 5.990,00.
O Lollapalooza segue a mesma tendência. Áreas premium, associadas a patrocinadores, oferecem espaços com open bar e open food. Um único dia de festival nesse formato pode custar R$ 2.650 no segundo lote. Já o Rock in Rio levou o conceito ao extremo com o Rock in Rio Club. O pacote mais caro para a edição, avaliado em R$ 16.999, inclui entrada VIP, experiências gastronômicas e até a opção de translado aéreo.
Enquanto as áreas VIP se expandem, o tradicional "meet and greet" perde espaço. O encontro direto entre fãs e artistas, antes considerado o auge da experiência premium, tornou-se raro. Para Leo Morel, analista do mercado musical, a mudança ocorre por questões práticas e financeiras. "Imagina um artista receber 200 pessoas antes ou depois do show. É cansativo, envolve logística e o custo nem sempre fecha", explica.
O efeito colateral dessa concentração de renda no entretenimento é sentido na base da pirâmide. "Quando a pessoa gasta muito em um grande show, deixa de ir a eventos menores", afirma o analista. A dinâmica cria uma competição desigual, prejudicando o ecossistema de artistas de pequeno e médio porte e limitando o acesso à cultura para quem não pode pagar os altos preços do mercado.
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