Será que não damos atenção demais aos críticos musicais?
Por Mateus Ribeiro
Postado em 24 de outubro de 2025
O heavy metal entrou na minha vida há mais de 25 anos. Muito antes de me tornar fã, o estilo já se fazia presente. Meu irmão, a quem sempre agradeço pelo incentivo, costumava ouvir bandas como Black Sabbath, Metallica e Slayer sete dias por semana. Ele tinha uma vasta coleção não apenas de CDs e LPs (que só aumentou com o tempo), mas também de revistas especializadas. E antes mesmo de ouvir uma nota de "Master of Puppets", eu já sabia quem o havia gravado - cortesia dessas publicações.
Com o passar dos anos, acabei me tornando aquilo que se costuma chamar de metaleiro. De Ozzy Osbourne a Morbid Angel, passando por Dream Theater e Anthrax, ouvia todo tipo de som pesado que surgia pela frente. Enquanto me perdia naquelas músicas agressivas e repletas de camadas, também folheava revistas com resenhas e análises de discos - afinal, sempre gostei muito de ler.

Naquela época, eu era apenas um jovem curioso, querendo desbravar o universo headbanger. Descobri muita coisa naquelas longas tardes de leitura, que me proporcionaram altas doses de conhecimento musical. Mas nem tudo era encantamento. Foi também nas páginas dessas revistas que tive meus primeiros contatos com críticas severas. Lembro-me claramente de ler textos que desciam a lenha em lançamentos de bandas que eu conhecia de nome, mas não a fundo. "Load" (1996), do Metallica, e "Risk" (1999), do Megadeth, são dois exemplos.
Esses discos foram achincalhados não apenas em uma, mas em várias análises que li. As críticas se concentravam nas mudanças que Metallica e Megadeth promoveram quando 'tiraram o pé' e passaram a investir em andamentos cadenciados e melodias mais acessíveis. Obviamente, me senti influenciado. Afinal, eu era um moleque em formação, que tratava os autores daqueles textos como verdadeiros "professores". Ainda assim, pensava comigo mesmo: "será que esses discos são mesmo tão ruins?".
Certo dia, por intermédio de um amigo de escola, tive acesso ao famigerado "Load". Voltei para casa e coloquei o CD para rodar. Logo de cara, gostei do que ouvi. Conforme as faixas iam passando, percebi que eu realmente estava apreciando aquele trabalho - o mesmo que tantas pessoas que eu admirava haviam ridicularizado.
Algum tempo depois, passeando por um sebo da cidade onde moro, me deparei com um exemplar de "Risk". Após pensar por alguns segundos, resolvi levar aquele CD. Afinal, tirar minhas próprias conclusões é infinitamente melhor do que me basear na opinião de outra pessoa.
Não me arrependo nem um pouco por ter comprado aquela cópia de "Risk", que me acompanhou por alguns anos antes de eu me desfazer da minha pequena coleção. Sem qualquer dose de exagero, gosto muito desse álbum até hoje - e o coloco entre os meus preferidos do Megadeth.
É claro que a relação que tenho com "Load" e "Risk" passa, e muito, por memórias afetivas. A cada vez que os ouço, lembro do início da minha caminhada, das tardes lendo revistas e escutando discos de bandas desconhecidas. E pensar que, se eu tivesse levado em consideração tudo o que li sobre essas obras, talvez jamais as tivesse ouvido.
Muitas vezes pensei na vida ao som de "Breadline" e "Until It Sleeps". Comemorei pequenas grandes vitórias com "Hero of the Day" rolando nos fones de ouvido. "Crush 'Em", tantas vezes desprezada, já me deu ânimo para encarar situações complexas. "Mama Said" sempre me faz lembrar o quanto minha mãe é importante.
No final das contas, a música é emoção - com algumas pitadas de nostalgia. Um riff pode te lembrar da infância, um refrão pode te levar de volta ao tempo em que você era apaixonado por alguém, um solo de guitarra pode te reconectar com um ente que se foi e até te arrancar algumas lágrimas.
Cada um vivencia a música de um jeito. Aquela canção que você acha ridícula pode ser a trilha sonora da vida de outra pessoa. E está tudo certo, porque cada um gosta do que bem entende.
Voltando às resenhas, hoje as revistas não são mais produzidas nas mesmas quantidades. Por outro lado, temos muita gente falando sobre música pesada na internet, seja no YouTube ou nas redes sociais. De profissionais renomados a aventureiros em busca de um lugar ao sol, não é difícil encontrar alguém comentando sobre um disco ou uma banda. Há quem seja ponderado, e há quem seja veemente - alguns não medem palavras para depreciar determinados lançamentos.
A crítica musical tem seu valor. Muitas vezes, nos apresenta sons que talvez nunca ouvíssemos. O problema acontece quando deixamos de ouvir com o coração e passamos a escutar com o filtro dos outros. Não é de hoje que vejo entendidos (e curiosos) apontando o que é legal e o que não é - alguns deles, aliás, agindo como se fossem os detentores da verdade absoluta. Aqui, cabe uma reflexão: o que conta mais? A opinião de um dito especialista ou o caminhão de memórias que notas musicais nos trazem?
Cabe a cada um de nós colocar as coisas na balança e avaliar se esses conteúdos realmente agregam algo à nossa experiência. Mas, levando em conta que a música é uma vivência profundamente pessoal, deixo aqui uma pergunta: será que não estamos dando atenção demais aos críticos musicais?
Eu ainda não sei responder. Enquanto busco essa resposta, vou ouvir o "Risk".
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