Slayer e Elton John: as unanimidades se aposentam

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Por Rodrigo Contrera
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Tenho várias formas de começar este artigo, mas vou fazê-lo como não esperava: agradecendo os acessos aos outros, bastante bem na parada e quase sem comentários. O Whiplash, noto, tem uma característica bem peculiar: o pessoal gosta de zoar nos comentários, em geral, e quando não comentam é porque gostaram (isso de forma geral, porque sempre existem os nós-cegos).

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Neste caso, não pretendo repisar naquilo que todo mundo sempre comenta. Ah, por que o Slayer parou? Parou por quê? Ou, ah, meu Deus, não irei ver shows deles. Ah, meu Deus, e coisa do tipo. Vou comentar algo sobre a carreira desses caras, e como as vejo, de forma geral.

Começando pelo gay mais conhecido de todo o mundo (quando o Freddie Mercury nos abandonou), Elton John. Caras, como gosto desse cara. Lembro-me bem, meio por acaso, que, no meu aniversário de 15 anos, eu fiz o meu primeiro showzinho em casa, cantando Daniel, num inglês que, sejamos sinceros, nem melhorou muito desde então. Foi o primeiro sujeito que tive a manha de tentar cantar. E o cara que, abaixo de Guilherme Arantes, mais me agrada de forma geral.

Pesquisei um pouco e descobri que o sujeito acumula 50 anos de carreira. Porra, caras, é muito tempo. Chega a ser uma eternidade. Eu mesmo nem consigo imaginar o mundo sem ele. Sem Rocket Man e outros hits de primeira - mesmo os das décadas de 80 e 90, mais pop. Não consigo sequer lamentar que ele esteja parando. Imagino-o em sua mansão com seu marido imaginando como acordar e jogar para fora algum lirismo ainda restante. Ou tocando em festas privadas, com amigos seletos. Como poderia eu exigir algo dele?

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Por outro lado, fico imaginando o Slayer agora, sendo acumulado de queixumes porque anunciaram a última turnê. Porra, caras, eles também estão a uma eternidade por aí. Exatos 37 anos. É tempo para caralho. Mesmo antes de eu ter acesso ao Iron Maiden. E sempre fazendo shows inatacáveis, insuperáveis, para aqueles que gostam de sua pegada. Eu não gosto muito, preciso admitir. Mas não posso deixar de reconhecer que os caras sempre foram fodas. E daí que o Tom Araya (também nascido no Chile, como eu) é meio mau caráter, na sua relação com a memória do Jeff Hanneman, após sua trágica morte? Eu mesmo nem sou tão flor que se cheire, afinal.

Por outro lado, tenho que pensar nas condições em que o Slayer está parando. O Araya sempre reclama do desgaste das turnês. E tenho que convir, porra, cara, fui ator durante um tempo e claro que existem as vantagens de se apresentar em palcos e fazer o seu auê. Mas também existe certo clima de déja vu, sabem. É interessante, no começo de carreira, sair do palco e ser abordado por gente interessada em nossa arte (especialmente mulheres). Mas depois enche um pouco o saco. Imaginem com eles, convivendo há 37 anos com marmanjões considerando-os como seus heróis. Não que ele pareça reclamar. Mas o cara criou família, filhos, até talvez netos, cachorros, e caralho, o cara tem vida para viver.

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Ontem mesmo encontrei um amigo aqui no prédio, e comentava como certas reuniões me desgastam. De repente ele soltou, claro, Rodrigo, a gente precisa trabalhar e tudo mais, mas porra, precisamos também viver a vida, né. Ver o tempo passar, e não ficar o tempo todo correndo atrás das coisas. Percebi que isso era bem sábio, e que deve ter a ver com a vida de todo mundo.

Costumo acordar cedo estes dias. Sempre com uma impressão forte no peito, de que preciso me esforçar para tocar o barco, e tentar flutuar ou sair com alguma segurança para o futuro. Gente como o Elton ou o Tom não precisam acordar se sentindo assim. Fizeram ambos as suas carreiras, e podem parar sem ter com o que se preocupar. Mas caralho, eles ainda querem viver suas vidas, e se não precisam ficar ainda na estrada, por que continuar? Pela inspiração? Não sei.

A gente do meio artístico com o tempo se acostuma com o fato de que as pessoas que gostam do que fazemos normalmente nos consideram algo mais do que em relação a pessoas normais. Sempre somos abordados, e aí, Contrera, outra peça em vista? Imaginem o Elton e o Tom. E aí, Tom, o que anda rolando em sua mente suja? Porra, isso é legal, saber que fazemos parte das vidas dos outros. Mas também pode ser um porre, sabem.

Eu, de minha parte, fico até surpreso em como certos caras parecem não parar. Em como o Lemmy, já velhinho e feio, e fraco, ainda batia no seu Rickenbacker sabendo que tinha câncer no pescoço (ou em algum lugar outro na cabeça). Ou em como o Guilherme Arantes, citado de novo, ainda parece feioso por aí entoando aquelas musiquinhas bonitas, quase a únicas que conseguem me acalmar o espírito? Fico sinceramente surpreso de o Elton John não ter ainda preferido comprar uma ilha para ir embora afinal (como fez o Marlon Brando).

Seja como for, todo artigo para mim aqui é uma novidade. Minha cabeça parece sempre andar sozinha e me levar a elucubrações que eu quase nunca consigo adivinhar. Desta vez foi mais onírico tudo, quase como um sonho. De minha parte, voltando ao tema das despedidas, quero mais é ver os sujeitos que estão parando em fotos de Caras, dando uma de que não é com eles esse negócio de ficar por aí chamando a atenção em mais e mais shows. Dando uma de João sem braço e mandando seus assessores de imprensa descansar, afinal. Posando com suas famílias, engordando, acumulando pés de galinha e de vez em quando soltando uma merda qualquer.

Porra, caras, já viram as últimas entrevistas do Lou Reed, por exemplo? É triste ver o cara sendo obrigado a relembrar coisas que nem faziam mais parte real de sua vida para jornalistas belas mas preguiçosas. Haja paciência, né. Porra, cara, vai descansar, vai.

Eu até prefiro assim.




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Sobre Rodrigo Contrera

Rodrigo Contrera, 48 anos, separado, é jornalista, estudioso de política, Filosofia, rock e religião, sendo formado em Jornalismo, Filosofia e com pós (sem defesa de tese) em Ciência Política. Nasceu no Chile, viu o golpe de 1973, começou a gostar realmente de rock e de heavy metal com o Iron Maiden, e hoje tem um gosto bastante eclético e mutante. Gosta mais de ouvir do que de falar, mas escreve muito - para se comunicar. A maioria dos seus textos no Whiplash são convites disfarçados para ler as histórias de outros fãs, assim como para ter acesso a viagens internas nesse universo chamado rock. Gosta muito ainda do Iron Maiden, mas suas preferências são o rock instrumental, o Motörhead, e coisas velhas-novas. Tem autorização do filho do Lemmy para "tocar" uma peça com base em sua autobiografia, e está aos poucos levando o projeto adiante.

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