Crítica musical: ela não morreu, mas deve se transformar
Por Ricardo Seelig
Fonte: Collectors Room
Postado em 20 de novembro de 2016
Um amigo se perguntou se deveria estar nesse site no início desta semana. Ele não foi o primeiro a refletir sobre isso. Dan Ozzi, do Noisey, ponderou sobre o mesmo assunto no início deste ano, e o Invisible Orange postou um questionamento semelhante cinco anos atrás.
Nenhum deles encontrou uma resposta adequada à pergunta: os reviews de discos se tornaram obsoletos? Todos sugerem essencialmente que "sim", mas como as resenhas seguem pipocando a cada novo lançamento, a resposta é, obviamente, "não". A questão persiste. De fato, agora, quando parece que todo pensamento crítico e qualquer tipo de análise cultural está se despedaçando em ritmo acelerado, é o momento mais importante para entender como a crítica funciona, pra que ela serve e qual a sua importância.
A verdadeira resposta é que a crítica musical está, atualmente, em uma espécie de limbo. Ela atravessa um processo de transformação que ainda não chegou ao fim. E o motivo que levou a isso é um só: a internet. A internet expôs e começou a desmantelar a relação econômica entre conteúdo e objeto, que costumava ser a base do criticismo musical.
A cultura pop em geral floresceu após o fim da Segunda Guerra Mundial e chegou até o novo milênio embalada pela ascensão da mídia. E por mídia quero dizer a venda de objetos, de itens, que foram enriquecidos pelo conteúdo. Quando você, ou sua mãe ou quem quer que seja, compra um disco de vinil, a parte musical não é realmente o que você está comprando. O que você está comprando é, literalmente, um disco de plástico. A música, a gravação e a embalagem existem para tornar esse disco de plástico valioso o suficiente para que ele possa ser trocado por dinheiro. Filmes? A mesma coisa. Eles não estão vendendo um ator ou atriz construído em 64 frames por segundo, mas sim um DVD, um fita de vídeo ou um pedaço de papel que permite ao comprador assistir ao filme projetado em uma tela de exibição. Notícias? Estão vendendo pra você uma pilha de papel barato impresso. Revistas de música? Um monte de papel caro e cheio de brilho. O conteúdo - a música, a escrita, os quadros por segundo, as resenhas que você lê - só possui valor a partir do momento em que passui alguma utilidade para você.
O que isso tem a ver com resenhas de discos? Tudo.
A internet tornou o conteúdo infinitamente reproduzível. Esse é o verdadeiro problema com a pirataria. Não é que a pirataria possibilite que você escute o novo disco de sua banda favorita antes de seu lançamento - de qualquer modo, a data de lançamento era apenas uma questão de conveniência e logística. O produto sempre vai chegar ao mercado, razão pela qual artistas como Beyoncé e Frank Ocean podem lançar discos sem nenhum aviso prévio. O fato de que você é capaz de facilmente duplicar e multiplicar o alcance dos arquivos é o que faz com que não valha a pena prensar um disco em formato físico. A pirataria destruiu o valor deste disco de plástico, que sempre foi o que você comprou por anos e anos.
Esse meu amigo afirma que o valor da crítica de cinema e TV segue intacta. Não, não segue. O Wall Street Journal e o New York Times acabaram de reduzir o número de críticos em suas equipes. O fato de a música bater contra as rochas antes que o cinema e TV se deu porque a pirataria chegou primeiro ao cenário musical. E a pirataria de música só existiu antes porque os arquivos MP3 são bem menores que os arquivos de um filme. A internet desacoplou toda a cultura pop da cultura material, mas é no material que está o dinheiro.
Chega de falar de economia, cara! O que tudo isso tem a ver com a crítica de discos? Bem: como eu disse, tudo.
A crítica musical, principalmente as resenhas de discos, eram uma ferramenta consumista do pós-guerra. Os reviews de álbuns existiam, de modo geral, para ajudar os consumidores a definirem suas listas de compras. Listas de melhores do ano e livros como 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer tiram um pouco do trabalho do leitor. Mas, por causa da internet, o conteúdo não tem valor e as listas de compras perderam o sentido, principalmente quando os próprios indivíduos podem criar suas amostras através do streaming. Sem valor consumista, a crítica musical pós-guerra não tem utilidade.
E isso é uma coisa boa, porque nos liberta da tarefa cansativa de pensar sobre a música como um produto de consumo. Agora, podemos parar de pensar sobre a lógica "bom" versus "ruim" (traduzindo: "vale o seu dinheiro" e "não vale o seu dinheiro"), porque "bom" e "ruim" não importam mais.
O que importa é dar contexto à paisagem musical, porque, mais do que nunca, é ela que dá sentido à obra de cada artista. A troca de fitas acabou, o underground está plenamente consciente de si mesmo, e a troca de ideias pode ser feita em tempo real.
Em vez de dizer às pessoas o que comprar, os críticos pós-internet precisam realizar um trabalho diferente: dar aos ouvintes o contexto do que eles estão ouvindo. A melhor crítica não é aquela que dá uma nota de 0 a 10, mas sim aquela que diz ao leitor como uma determinada peça musical se encaixa no ecossistema da música.
Não me diga que o Diadem of Twelve Stars do Wolves in the Throne é uma obra-prima - essa é uma decisão minha como ouvinte, e nenhuma opinião é certa ou errada. Em vez disso, mostre-me que o Weakling fez algo similar anos atrás, mas que foi o Wolves in the Throne que gerou uma série de imitadores. E, caso você seja um crítico muito bom, explique-me porque esse disco inspirou várias pessoas naquele momento. Por que o álbum poderia me inspirar?
Os críticos perderam sua utilidade como agentes de recomendação. Temos, literalmente, algoritmos para isso. Mas os algoritmos não podem oferecer o contexto. Um computador não pode oferecer ideias e pontos de vista que irão ajudar a abrir a sua mente enquanto você ouve um disco, fazendo com você enxergue aquele álbum de uma maneira totalmente nova.
Contexto é algo muito mais difícil de entender do que o "bom" versus "ruim". Os melhores escritores são aqueles capazes de descrever a música. O ouvinte pode ouvir por si mesmo. O contexto é o que nos faz encontrar reflexões e associações entre a música que ouvimos e o mundo que nos rodeia.
Isso vai deixar algumas pessoas loucas, especialmente as que pensam que a música é um sistema fechado, ou apenas uma boa ferramenta para o escapismo e que deve ser mantida separada da "política". Mas essas mesmas pessoas precisam admitir, por exemplo, que a sombra da Guerra Fria responsável pela paranoia nuclear foi o que fez o Metallica e o Celtic Frost serem tão legais nos anos 1980. Elas precisam admitir que a mentalidade liberal que tomou conta do mainstream na Noruega da década de 1990 foi o que tornou o black metal possível. E é o consumismo da cultura pop do pós-guerra que tornou possível o seu próprio escapismo. Eventos recentes como a eleição de Donald Trump e o Brexit vão mudar o mundo da música de formas que ninguém poderá ignorar.
Agora, mais do que nunca, vamos precisar de grandes críticos que consigam entender o panorama geral. Quando isso se tornar o padrão para a crítica musical, a transformação que o Napster iniciou estará completa. Qualquer um capaz de executar essa tarefa ganhará uma nota 10 de 10. Os que não forem capazes, ganharão um belo zero.
Por Joseph Schafer, da Decibel
Tradução de Ricardo Seelig
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