Como se deu minha história pelo heavy metal (parte 2)

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Por Rodrigo Contrera
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

689 acessosOpinião: Como se deu minha história pelo heavy metal (parte 1)

Eu contei, na primeira parte, como o heavy metal como um todo entrou na minha vida, em que medida ele tinha a ver com minha história e meus valores, que tipo de bandas pareciam falar comigo e algo sobre o por quê de outras bandas realmente não "dialogarem" comigo. Porque eu tinha uma forma específica de ver o rock e o heavy metal. E enquanto o tempo passava eu percebia que essa forma tinha tudo a ver comigo enquanto pessoa particular, com gostos e trajetória particular.

Mas, como é óbvio, a história foi avançando e minha percepção do Iron Maiden foi mudando, assim como minha percepção do mundo. Começavam então a estourar as bandas de trash que hoje pensam até em se aposentar. O glam rock era mais uma amostra de passado (que agradou alguns), as bandas tradicionais (das décadas de 70 e 80) viravam saudosismo e surgiam novas potências no gênero. Pantera, Alice in Chains, Red Hot Chili Peppers, muitas outras bandas pareciam carregar consigo o estilo - mas cada uma do seu jeito. E nenhuma batia em mim. Como eu já disse, a ênfase na história, os temas, o jeito teatral do Iron foram para mim imbatíveis no começo, e depois, com os atropelos de sua trajetória, fui me afastando até quase o rompimento. Ocorre que minha vida também mudava.

Eu já trabalhara alguns anos, e superara (cronologicamente) os problemas familiares. Ao me casar, foi necessário coadunar minhas paixões com a convivência em casal, e isso fez também com que eu me retraísse (um pouco, ou muito, ainda não concluí). Sei apenas que meu gosto musical era diferente do dela, e que ela realmente tentou por uns bons anos curtir o que eu curtia. Mas ela, tristemente, parecia não conseguir. Minha ênfase no heavy metal era, como na maior parte das vezes entre os fãs, entre OS FÃS, e não uma coisa de casal. Nesse sentido, não havia como compartilhar com ela minha paixão. Que era uma paixão que mudava, e que se tornava mais pesada e mais cínica no que dizia respeito ao relacionamento com as pessoas em geral e com ela em particular.

Eu já comentei em outro texto como cheguei ao Motörhead. Ocorre que a banda não era mesmo nada simpática. O Lemmy tinha e sempre teve uma visão bastante triste e desiludida sobre o amor e relacionamentos em geral, e isso me contaminava, contaminava meus valores e minha visão do casamento, que avançava mas que só hoje reparo como avançava mal. Porque, embora não brigássemos, ela e eu, a gente parecia realmente não se entender. Houve momentos de decepção, claro (especialmente para ela). Houve momentos em que eu mesmo não admitia minhas decepções (e ela deveria perceber). E houve momentos em que o que eu mais queria era mesmo viajar sozinho, com o som alto e cantar a liberdade, ao invés do relacionamento, ou de qualquer coisa nesse sentido. E ela deveria perceber. Porque realmente meu gosto sobre o rock beirava agora algo meio selvagem, realmente distanciado do contato, algo que reacendia descrença e tristeza, e que parecia, ao menos nas letras e no tom em que eram cantadas, levar a um certo fim. Isso se estendeu por anos.

Entendamos que o heavy metal, nessa época e em posteriores, parecia vender uma mensagem realmente pessimista para todos aqueles que o ouviam. Mas eu não ouvia esse heavy metal. Pois aquelas bandas não pareciam falar para mim. Talvez porque eu ainda não bebesse, ou não experimentasse a liberdade e a escravidão de certos vícios. Ou porque eu não tinha perfil para gostar de Pantera mesmo. Ou porque mensagens sobre política meio que repetissem fórmulas de liberdade que não me convenciam - talvez porque eu mesmo não fosse livre (uma boa opção). Ou porque esse pessimismo pouco rigoroso não me convencesse realmente, sendo que eu optava por outro, mais filosófico, espraiado no meio acadêmico, que eu frequentava. Ou porque tanta violência mostrada e tocada não conseguisse realmente me convencer quanto ao seu valor de verdade. Sei apenas que, se era para beber de descrença, de uma jogada mais pesada diante da vida, de risadas fantasmagóricas (que eu começava a jogar para fora), que o fosse por meio do Motörhead, uma banda querida por muitos mas que se intitulava apenas de rock'n roll, embora tivesse, sob certos aspectos, uma postura de vida e um som ainda mais pesado do que a maioria. Porque o som da banda do Lemmy era sujo, e eu andava realmente mulambento - embora tivesse cargo de supervisão numa empresa. Porque o visual deles não visava chamar a atenção. Tinha todo o seu charme, mas não parecia advir de vontades de criar marcas (embora o fosse). Talvez porque Lemmy tivesse uma filosofia de vida que realmente superava a daqueles garotos que gostavam de gritar, dar uma de headbanger, bater cabeça ou até fingir que se batiam enquanto ouviam seus sons preferidos. Até porque o Lemmy era mais velho, mais experiente, experimentado, e nele talvez eu pudesse me basear para pensar algo sobre a vida (coisa que fiz por muito tempo, sem saber criar distância em relação a tudo o que era dito).

Claro que hoje todo mundo classifica o Motörhead como heavy metal, e não há nada de mal nisso. Mas entendam que ele surgiu numa época em que o heavy metal já tinha uma cara, essa em grandes linhas fornecida por um Black Sabbath, e que vivia, após uma forte era punk - que mudou o rock como um todo -, uma nova fase, ou começava a viver, com a nova era do heavy metal, que incluía esses que todos nós consideramos já clássicos. Pois a banda do Lemmy pegava pesado, e era apreciado tanto por punks, como por rockeiros clássicos e caras de heavy metal que buscavam uma via ainda mais pesada do que aquela a que estavam acostumados. Ocorre que o que me agradava tanto no Motörhead não era necessariamente o fato de ele pegar pesado, ou de ser heavy metal, mas o fato de ele ser sujo, de ele não apreciar bons modos nem divulgar bons sentimentos, mas também o fato de ele não, digamos, fazer com que sua mensagem fosse uma espécie de pose, de lugar para iniciados, de lugar para escolhidos. Qualquer um podia escolher o heavy metal, não precisava ser heabanger para isso, e nem mesmo curtir o modo de vida do Lemmy. Porque, para gostar da banda dele, era preciso acima de tudo pensar, entender o ponto de vista rockeiro, sacar que esse negócio de vida de hipocrisias não estava nem está com nada, e que as coisas, em última instância, são e sempre podem ser mais simples do que parecem. Porque o Motörhead acima de tudo era rock puro, rock daquele clássico, que o prórpio Lemmy ouvia quando garoto, e acima de tudo integridade. Pois era isso o que ele me passava: integridade. Nem as mensagens dele me batiam tão direto quanto sua postura, embora apreciasse AQUELE baixo tocado como guitarra, embora gostasse daquela guitarra sem firulas, sem querer uma de progressivo, e aquela bateria indomável de um cara que havia vindo para arrebentar.

Ocorre que enquanto eu nadava de braçadas no Motörhead o trash se esbaldava com um mercado aparentemente crescente, os clássicos dos 70 e 80, tipo Judas Priest faziam shows extraordinários, as bandas de hardrock dos 80 e 90 lotavam estádios, e abriam espaço para muitas outras. Mas isso não me fazia sequer cócega. Meu casamento ia aos poucos para o beleléu, eu me tornava cada vez mais um cara duro e sem coração, ou com coração peludo, como muitos dizem, e nada parecia me afetar. Nem os neoclássicos pareciam me dizer muita coisa, para falar a verdade. Ocorre que essa época foi aquela em que o rock sinfônico começou e aprendeu a encontrar espaço em mentes menos peludas; o momento em que as garotas pareciam dominar estádios, atrás de Nightwith ou coisa que o valha, época em que as demonstrações do Dream Theater e outras bandas do tipo pareciam agradar públicos menos peludos. Pois o que acontecia comigo é que não é que não gostasse de tudo aquilo. Pois eu confesso que até procurei, nas lojas, CDs desse tipo de banda. Mas, sei lá, aquilo não me parecia rigoroso o suficiente ou demais; o teatro que os caras faziam não me atraía nem convencia; e as tramas meio rocambolescas de seus CDs não me atingiam, realmente. Eu via tudo aquilo sabendo que com essas bandas novas gerações estavam vindo e dominando; eu via tudo aquilo não me admirando com aqueles instrumentistas - porque sentia que havia visto e experimentado muitos melhores; não me agradava tanta seriedade por detrás daquilo que estava virando cada vez mais simplesmente rock para mim. Pois nessa época eu me metia com teatro, com trupes mambembes, com gente da noite, com caras que caíam de duros com uísques sem conta, com mulheres que apareciam no teatro apenas em busca de sexo, com gente dura, que eu aprendi a conhecer tarde, e que também contribuiu para que eu me tornasse duro e não ligasse muito para certas coisas - porque afinal meu relacionamento estava indo para a cucuia e eu precisava segurar as pontas. E era assim, com a vida da noite, atuando em peças como ator amador mas com dedicação profissional, em papéis que faziam com que encontrasse muitos novos amigos, admiradores e transas, que eu aprendia a me reaproximar do rock - e com ele, do heavy metal. Porque vida de noite é também vida de compreensão, de saber que as pessoas estão aí ou não, sem que precisemos nos acostumar com amizades falsas ou pela metade. Na vida da noite a gente descobre quando a verdade começa a sair de quem se prontifica a beber e a falar o que pensa. É na noite que a gente descobre muitas coisas. Coisas que me fazem, hoje, descobrir verdades tão logo a pessoa começa a falar - com o tom de fala.

Mas aí, tendo me separado, e quase degringolado - por motivos financeiros -, eis que comecei a escrever aqui, no Whiplash. E me metido a tentar decifrar momentos em que quase capotei, bandas com que ainda fecho, outras que batem cada vez mais em meu coração, e outras bandas, que eu jamais imaginaria poder conhecer. E eis que me meti novamente com religião (pois é), e com relacionamentos que quase me fazem perder o prumo, com a recuperação de minha doença (sou esquizofrênico paranoide), e com verdades que eu jamais imaginaria poder enfrentar. Pois aconteceu que passei a ouvir tudo de novo. E passei a reconhecer em mim as marcas daquele garoto que fui e do homem em que me tornei. E passei também a reconhecer meus erros, alguns de décadas, e a me arrepender, e eis que me reconverti. Não vou chateá-los ao comentar isso. Só lhes digo que é forte, e que não tem nada a ver com o meu gosto por heavy metal nem nada. Simplesmente aconteceu e me faz encarar todos os exemplos de música, de rock, de heavy metal, e de vertentes bastante fortes e descrentes, de outra forma. Vejo tudo com muito prazer, lhes digo. Gosto de várias bandas novas. Chego a me aproximar de outros experimentos como Myrkur e Rancid. Ouço do mais extremo aos mais recentes novos clássicos dos clássicos dos 70, 80 e 90. Vejo até graça em Guns e Aerosmith, embora ainda permaneça um cara de coração bastante peludo. Mas, como me reconverti, me emociono muito e até demais com tudo o que vejo. E encaro com seriedade absurda bandas que aprecio demais como Ghost, que são sincera e claramente satânicas. Porque virei um cara do teatro e não consigo deixar de sentir o peso do que esses caras sem nome fazem, e os ouço com um certo pavor ao mesmo tempo que com admiração. É estranho demais para mim, me reconverter e ao mesmo tempo ouvir um He is sabendo que eles falam de um demônio que eu percebo claramente, e que claramente eu sinto que quase me desencaminhou para valer. Não que eu veja hoje que naquilo que fiz e como fiz houvesse um demônio em carne e osso, ou que com essas minhas posturas eu realmente estivesse fazendo algo que me condenasse à perdição, ao Inferno, com I maiúsculo. Ocorre que voltando a acreditar, e a rezar, e a pensar em valores que realmente quero para mim não posso agora deixar de pensar que realmente eu quase, por minutos, por segundos, me PERDI. Mas não levo isso tão a ferro e fogo de forma a ter-me tornado fanático. Simplesmente sinto a seriedade com que tudo o que envolve o heavy metal realmente me envolve, de cabo a rabo, e não sinto a menor vontade de deixar de gostar. É realmente estranho.

Tendo passado por tudo isso, sinto vontade de cair na estrada. De falar o que penso, claramente, como um Lemmy, e ainda mais de encenar a peça da qual tenho os direitos - passados pelo filho dele. Porque, quanto mais passa o tempo, e quanto mais eu me encontro, religiosamente ou não, mais eu sinto que o rock faz a minha vida. Para vocês terem uma ideia, acabo de, pela primeira vez, entender o que o AC/DC diz em For those about to rock e percebo por que eu traduzia, nas cordas do meu baixo, a faixa-título do Poderoso Chefão. Porque eu havia ido bastante longe, talvez até demais. E agora, em que me encontro, percebo o quanto o rock embala minhas noites e meus dias, sabendo bem o rumo que pretendo tomar (e no qual eu estou apenas no começo). É uma viagem, talvez uma das maiores que enfrentei. E olha que nem contei tudo.

Acredito que vocês tenham viagens similares. A minha continua, mas por enquanto pára por aqui. Ouvindo Nino Rota, que eu traduzia no Fender Jazz Bass distorcido - que vendi.

Espero que tenham gostado.
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Sobre Rodrigo Contrera

Rodrigo Contrera, 48 anos, separado, é jornalista, estudioso de política, Filosofia, rock e religião, sendo formado em Jornalismo, Filosofia e com pós (sem defesa de tese) em Ciência Política. Nasceu no Chile, viu o golpe de 1973, começou a gostar realmente de rock e de heavy metal com o Iron Maiden, e hoje tem um gosto bastante eclético e mutante. Gosta mais de ouvir do que de falar, mas escreve muito - para se comunicar. A maioria dos seus textos no Whiplash são convites disfarçados para ler as histórias de outros fãs, assim como para ter acesso a viagens internas nesse universo chamado rock. Gosta muito ainda do Iron Maiden, mas suas preferências são o rock instrumental, o Motörhead, e coisas velhas-novas. Tem autorização do filho do Lemmy para "tocar" uma peça com base em sua autobiografia, e está aos poucos levando o projeto adiante.

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