Os falastrões do metal e o "futuro da música"

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Por Thiago El Cid Cardim, Fonte: Observatório Nerd
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“As gravadoras estão morrendo e a situação está piorando. (...) Em primeiro lugar a música está se tornando chata e previsível e em segundo lugar, está morrendo”

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A frase acima é de autoria do guitarrista finlandês Timo Tolkki (foto), ex-Stratovarius, que em entrevista recente se viu tentado a explicar os motivos do tal anúncio de sua aposentadoria do mundo da música e o consequente encerramento das atividades do Symfonia (supergrupo que conta com a participação do vocalista brasileiro André Matos) como uma banda – do tipo que sai em turnês regulares e afins. Desde que saiu do Stratovarius e rompeu completamente relações com os outros integrantes do grupo que ajudou a conceber, Tolkki se tornou a rainha do #mimimi. Depois que suas tentativas à frente do Symfonia e do igualmente finado Revolution Renaissance deram com os burros n’água, o homem se dedica particularmente a uma série de previsões catastróficas sobre o mundo da música. Na boa? Perdi a paciência com sujeitos como o Tolkki – que repararam que o seu mundinho mudou, que está mais do que na hora de tirarem seus traseiros gordos de sua zona de conforto mas que, ao invés de seguir em frente com dignidade e criatividade, ficam espalhando aos quatro ventos que o céu está vermelho e os quatro cavaleiros do apocalipse estão se aproximando. Preguiça total deste tipo de postura.

Tolkki, meu querido. Saiba você que, diferente de grande parte dos críticos especializados, não acredito que se convencionou chamar de “a morte do metal melódico” – este gênero de guitarras gêmeas em alta velocidade e baterias repicando com seus bumbos duplos que você ajudou a tornar tão popular com o Stratovarius. Aliás, acho uma bobagem quando vem alguém e resolve inventar que este ou aquele gênero musical morreu. Já aconteceu tantas vezes com o heavy metal, com o punk, com o rock como um todo. O fato é que o metal melódico não morreu. O que foi para as cucuias foi, isso sim, a criatividade de alguns dos principais expoentes deste tipo de música (Tolkki mais do que incluído) e o saco dos fãs para aturar determinadas sucessões de obviedades. Com as mesmas bandas de sempre lançando os mesmos discos de sempre, com a mesma sonoridade de sempre, parece fácil dizer que “o metal melódico morreu”. Afinal, o fã de música se tornou ainda mais exigente. Ele quer mais. Não adianta gravar aquele disquinho meia-boca uma vez por ano. Outrora este expediente era o bastante. Hoje não mais. Faça isso, querido músico, e o seu destino certo será o fracasso comercial. Do fracasso comercial para as entrevistas decretando o fim do mundo como o conhecemos é um pulo.

É bom que se dedique, aliás, um espaço um pouco maior a esta afirmação de que o “fã de música mudou”. Mudou mesmo, mudou muito, mudou de maneira sem volta – isso porque todo o comportamento da música como produto mudou, cortesia dos avanços tecnológicos e, claro, do aumento do poder de consumo em determinados mercados. Não mudaram só os fãs de música, por sinal, mas de tudo que tem a ver com entretenimento. Os fãs de cinema, de séries de TV, de histórias em quadrinhos também mudaram demais. E para acompanhar esta mudança de comportamento de consumo, o mercado (esta imensa estrutura jurássica sempre bastante resistente) vai ter que mover seu paquidérmico traseiro e repensar uma série de conceitos. No caso de um mercado tradicionalista e pouco afeito a correções de rumo como é o caso de toda a indústria fonográfica, a mudança está chegando causando abalos sísmicos de proporções colossais. Se você, como Timo Tolkki, acha que basta reunir um grupo de medalhões do metal melódico para alcançar o sucesso apoiado em suas reputações – quando o disco é apenas e tão somente um apanhado requentado de clichês – é melhor repensar sua carreira mesmo.

Isso me traz à memória o polêmico e já lendário desabafo, em vídeo, proferido por Edu Falaschi (vocalista das bandas brasileiras Angra e Almah), nos bastidores de um festival dedicado ao metal nacional. Se não viu ainda, faça o favor de ver AGORA.

Resumidamente, ele se diz decepcionado com a pouca adesão do público aos shows de bandas nacionais de metal – e acusa os ouvintes de serem “paga-pau” de grupos gringos. “Não adianta ficar na internet elogiando”, diz ele. “Foda-se isso. Você tem que comprar o CD e ir no show”. E ele ainda decreta: “estamos vendo a morte do metal nacional”. Tsc, tsc. Se outrora elogiei uma determinada postura do Edu no meu blog, me sinto plenamente confortável para dizer que fazia tempo que eu não ouvia um compilado tão grande de baboseiras, todas proferidas ao mesmo tempo por alguém que, ao usar este discurso, parece ser apenas um músico mediano desesperado com os rumos do seu ganha-pão.

O que é que acontece nos dias de hoje? Eu explico. Você PRECISA ser criativo – e, por favor, entenda de uma vez por todas o que esta palavra quer dizer...e o que ela NÃO quer dizer. Entenda a sua banda como uma marca. Caia de cabeça nas redes sociais e abra (abra não, escancare) as portas para a comunicação com seus fãs. Incentive a criação de fã-clubes. Crie brindes exclusivos para eles – podem ser coisas simples, como adesivos ou camisetas, ou mesmo uma faixa inédita exclusiva ou até, quem sabe, um pocket show surpresa. Que tal registrar os bastidores da gravação do CD, reunir todos os erros e editá-los como num grande vídeo engraçado – e que poderia, por exemplo, ser apresentado aos seus fãs mais fiéis? Prense cópias limitadas de seu disco em vinil, apenas para colecionadores. Fale não apenas com a imprensa óbvia e genérica, mas dê a cara para bater nos blogs, que são importantes formadores de opinião. Ofereça a sua música não apenas para as rádios de outrora, mas para todas as rádios online que vir pela frente. Coloque a si mesmo para tocar no MySpace, no Soundcloud. Ofereça suas canções para que elas sejam trilhas de reportagens na TV (em emissoras comuns, analógicas, ou naquelas que estão apenas na web) ou mesmo de filmes nacionais. Tente, dê a cara a bater, não diga apenas que é “muito difícil”. Vais ver, inclusive, que não é.

Invista em um site oficial de qualidade, com recursos multimídia e que permita a interatividade, a comunicação dos seus fãs com você e entre eles. Esteja cada vez mais próximo de quem notadamente é apaixonado por seu trabalho, por mais que eles sejam poucos. Transforme-os em embaixadores da sua marca/banda, faça com que eles se sintam parte dela. Entre os brasileiros, dois grupos andam mostrando que sabem fazer a nova máquina andar a seu favor: Mindflow e os meus conterrâneos santistas do Shadowside. E goste você ou não, o fato é que bandas de moleques coloridos como o Restart fazem isso com maestria, deixando os velhos marmanjos reclamões para trás, comendo a poeira de um tempo que já passou.

Este negócio de colocar uma bandeira num produto cultural e apelar para a culpa das pessoas, obrigando-as a apoiar o seu projeto apenas porque ele é brasileiro, não dá mais certo. Eu compro um CD porque eu acho bom, não porque ele é brasileiro e quero que o mercado brasileiro cresça. Eu vou a um show porque acho uma banda boa, e não porque ela é brasileira. É hora dos medianos aprenderem que terão que ser bons de fato. Não basta ser apenas brasileiro e ficar esperando aquela mobilização nacional de oportunidade típica das Copas do Mundo. Grave aquele mesmo disquinho de sempre, que parece um clone dos anteriores, e você vai ver seus relatórios de vendas numa curva cada vez mais descendente – enquanto seus fãs de eras passadas vão lá, baixam o seu disco, ouvem e simplesmente deletam os arquivos em MP3, já que é tudo tão chato e repetitivo que nem vale a pena ficar ocupando espaço no HD. É hora de ser criativo, provocativo, de se arriscar, de pensar fora da caixinha do CD, deixar de ficar preso ao formato.

Mas não. É muito mais fácil colocar a culpa no fã, dizer que eles não apoiam, que não compram os CDs, que não vão aos shows, do que assumir as suas próprias incapacidades. No mundo como está hoje, quem é você para me dizer como devo consumir a minha música? Isso sou eu quem decide. Antes, minha única opção era ir lá e comprar o vinil. O controle estava nas suas mãos, senhor músico. Hoje, o controle está nas minhas mãos, como bom ouvinte que sou.

E quanto aos fã das antigas, aqueles arraigados e dedicados colecionadores de discos? Bem, adivinhe só? Eles TAMBÉM mudaram. Não pensem, Srs.Tolkki e Falaschi, que eles são a salvação da sua lavoura. Estes colecionadores não engolem mais apenas e tão somente CDs puros e secos, sem novidades. Não aceitam mais aquelas coletâneas safadas e caça-níqueis. Assim como um colecionador de DVDs e dos novíssimos blu-ray, este colecionador de CDs quer embalagens diferenciadas, quer faixas raras, quer entrevistas em áudio, atrações multimídia, participações especiais, faixas-bônus. Quer novidades, quer conteúdo exclusivo, quer algo que faça valer o dinheiro investido para ter aquele produto na sua prateleira. O cara está em busca de extras. Porque relançar um disco rigorosamente da mesma forma apenas e tão somente porque ele completou 25 anos desde a sua gravação é dar um tiro no pé. É praticar um imenso suicídio comercial.

O fã mudou. A música mudou. O mercado mudou. O consumo mudou. O mundo mudou. Se você não mudar também, camarada, prepare-se para virar peça de museu.

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Sobre Thiago El Cid Cardim

Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema, séries de TV e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração, marvete de carteirinha. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Iron Maiden, Judas Priest, Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Kamelot, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no www.observatorionerd.com.br e no www.twitter.com/thiagocardim.

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