Imagem não é nada, a música é tudo

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Por Raphael Crespo
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Ele tinha apenas 10 anos de idade quando começou a perceber que o som de uma guitarra distorcida agia de forma diferente em seu cérebro. Não demorou muito para que cabeludos vestidos com roupas pretas e fazendo "chifrinho de diabo" se transformassem em heróis de sua iniciante adolescência.

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Aos 14, passado tempo suficiente para o crescimento do cabelo até um pouco abaixo do ombro, a constante cara de mau, os trajes rasgados e acessórios como correntes e tachinhas já faziam parte de sua personalidade. Era um headbanger, como ele próprio se classificava, ou um "metaleiro" - termo odiado por ele -, como a sociedade o via.

A necessidade de ir contra as regras da sociedade, intrínseca em qualquer adolescente, fez dele uma pessoa reclusa, incluída num gueto recheado de uma meia-dúzia de seus semelhantes. Na escola, tinha dificuldades de se relacionar com os mais "normais", pois seu gosto musical e a atitude não permitiam que ele se misturasse com "playboys" que freqüentavam boates da moda, viviam bronzeados de praia e gostavam de funk, pagode ou dance music.

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Tinha esse estilo de vida próprio do fã de heavy metal, pregado por suas bandas favoritas. A simpatia por músicas que falavam de Satanás começou a fazer com que todo o background religioso que sua família tanto se esforçou para que ele tivesse ficasse esquecido. A necessidade de chocar, típica da adolescência, o levou a começar a tocar guitarra, montar uma banda, tocar alto e, pela falta de habilidade inicial, de forma incompreensível. As letras com impropérios contra Deus e adoração ao Diabo eram mostradas com prazer nos almoços de domingo para sua avó, que dizia: "Meu netinho! Como ele foi ficar assim, meu Deus!".

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A essa altura, tinha apenas 15 anos e achava tudo o máximo, inclusive sair na rua acompanhado de seus colegas, numa época em que estava começando a beber escondido, para virar latas de lixo, tocar campainhas de madrugada e chutar gatos para parecer "do mal".

Rebelde sem causa, revoltado contra tudo e todos, mas ainda assim gastando toda a mesada que ganhava do papai em discos de suas bandas favoritas, chegou aos 18 com uma invejável coleção, além de muitos shows nas costas e com os ouvidos um tanto quanto prejudicados pelos decibéis acumulados. Nada demais, heavy metal é para ser ouvido no talo mesmo. Como presente de aniversário, assim que alcançou a maioridade, ganhou dos pais uma tatuagem, depois de muito encher o saco. Aproveitou a falsa sensação de independência da maioridade - falsa porque ainda dependia dos pais - e fez logo outra, com uma grana que havia juntado durante anos.

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Aos 19, entrou para a faculdade. Como tinha muito talento para desenhar, foi fazer arquitetura. Começou a perceber a realidade diferente da vida. O heavy metal já estava encravado em sua alma, ele nunca deixaria de curtir o som, mas a maturidade começou a chegar, junto com a percepção de que não era necessário ter cabelo comprido e andar de preto para ter a "permissão" de gostar de som pesado. Começou a perceber que tudo, na verdade, gira em torno da música, que o visual é apenas um atrativo e a atitude, pregando união dos "brothers of metal", é muito bonita mas não bota comida em cima da mesa.

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Cortou o cabelo, comprou roupas mais sociais, chegou até a começar a abrir sua cabeça para outros estilos de boa música, apesar de ainda odiar, e ter a certeza de que sempre odiará, os pagodes, sertanejos, funks e dances da vida. Arrumou um bom estágio, com boas possibilidades de contratação após a formatura na faculdade. Começou a namorar uma menina um pouco diferente, daquelas que passaram a adolescência nas boates da moda, como uma das mais bonitas e cobiçadas do colégio, com uma família boa, religiosa, porém não fanática. Normal, enfim.

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Passadas tantas mudanças, começou a dar mais importância para a própria família, que nunca deixou de amar, mas da qual se afastou um pouco, pois vivia em casas de amigos, bares, shows, ou trancado em seu próprio quarto, com um aparelho de som potente - presente dado com carinho pelos pais - e o som sempre nas alturas.

Com 25 anos, sem nunca ter deixado de ir em shows de heavy metal, apesar do cabelo curto, não usava mais camisas de bandas e limitava-se apenas a botar uma calça jeans surrada e uma camiseta preta, algo confortável para entrar nas rodas de mosh, algo que sempre gostou e sempre achou divertido. Um dia, nessa nova fase, teve que sair direto do escritório onde trabalhava para um show de uma de suas bandas favoritas, que nunca havia tocado no Brasil. Não teve tempo para trocar de roupa e acabou indo de calça de linho e camisa social, preferiu deixar a gravata no carro. O show era de thrash metal e a roda estava animal. Ele chegou perto e deu a entender que entraria, mas sentiu um certo clima de hostilidade por parte dos demais, com xingamentos, feitos por adolescentes dez anos mais novos que ele. Para evitar problemas, não entrou na roda e ficou assistindo ao show um pouco mais de trás. Decepcionou-se com a atitude dos moleques, mas parou para pensar, pela primeira vez, apesar de todas as mudanças, que ele também fora assim. Percebeu que o mesmo preconceito que sofria quando era mais jovem, voltou-se contra ele, às avessas.

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Hoje, tem 31 anos, é casado com sua namorada de faculdade e tem dois filhos. Continua frequentando os shows de heavy metal, mas o matrimônio e os excessos da juventude acabaram com o fôlego para as rodas, mesmo quando ele vai vestido com a velha calça jeans surrada e a camiseta preta. Assiste às bandas de longe, admirado com a música que, no final das contas, é o que sempre o atraiu. Tem uma coleção ainda mais invejável de discos e CDs de heavy metal, acompanhados de outros de jazz, blues e MPB. Ainda ouve metal com fervor, num volume não tão alto como antigamente, e sempre ouvirá. Promete sempre que seus filhos, atualmente pequenos, também gostarão do estilo, apesar de saber que eles têm o direito de fazer suas próprias escolhas. Um conselho, no entanto, ele certamente não deixará de dar: "Heavy metal é música boa, mas você não precisa virar uma caricatura."

FIM

O texto acima é apenas uma crônica, com um personagem fictício, mas que reflete bem o meu pensamento em relação à chamada "atitude metal". Será que ela é tão importante assim? Hoje, aos 26 anos, mesmo ainda solteiro, sem filhos, mais novo que o personagem e sem nunca ter sofrido um tipo de preconceito em shows como na história, vejo que não.

Quando moleque, não cheguei a ser anti-social no colégio, não fazia besteiras na rua, ou virei um pretenso satanista, mas tinha cabelo grande, só andava de preto e fazia cara de mau. Tive um background religioso por parte de minha família, que foi abandonado não pelo heavy metal, mas por causa da cultura geral que fui acumulando em minha formação pessoal. Posso dizer, portanto, que algumas coisas da crônica são auto-biográficas.

E, assim como aconteceu na crônica, a vida me traçou caminhos e a maturidade me fez perceber que, no final das contas, o que importa é a música. O que importa é o som da guitarra distorcida, que me chamou a atenção, assim como a do personagem, ainda aos 10 anos de idade.

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Sobre Raphael Crespo

Raphael Crespo é jornalista, carioca, tem 25 anos, e sempre trabalhou na área esportiva, com passagens pelo jornal LANCE! e pelo LANCENET!. Atualmente, é editor de esportes do JB Online, mas seu gosto por heavy metal o levou a colaborar com a seção de musicalidade do site do Jornal do Brasil, com críticas de CDs e algumas matérias especiais, que também estão reunidas em seu blog (http://www.reviews.blogger.com.br). Sua preferência é pelo thrash metal oitentista, mas qualquer coisa em termos de som pesado é só levantar na área que ele mata no peito e chuta. Gosta também de outros tipos de som, como MPB, jazz e blues, mas só se atreve a escrever sobre o que conhece melhor: o metal.

Mais matérias de Raphael Crespo no Whiplash.Net.

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