Deep Purple: de volta ao lago fatídico
Por Tiago Faria
Fonte: NZZ Online
Postado em 17 de julho de 2006
O 40º Festival de Jazz de Montreux terminou Sábado com um show do DEEP PURPLE. O vocalista Ian Gillan comentou à Swissinfo como foi voltar à beira do lago. A banda, que compôs sua influente música "Smoke on the Water" em Montreux em 1971, acendeu a noite final do festival que foi rico em performances memoráveis.
Swissinfo: Este ano girou em torno do retorno do Deep Purple a Montreux. Vocês figuram no pôster oficial e tocaram na noite final, o que geralmente é reservado aos gigantes do jazz...
Ian Gillan: Sim, isso é inacreditável. Desde o início, os laços entre a carreira do Deep Purple, Montreux e Claude Nobs [presidente do festival] realmente fizeram uma grande história. Quando éramos jovens, na Inglaterra, costumávamos tocar uma vez por semana em um pequeno clube onde conhecíamos todos. E hoje, tocando em Montreux, é um pouco assim. E nenhum festival se compara ao Montreux.
Ian Gillan: Várias pessoas nesse ramo têm uma má reputação: pessoas que somente pensam em melhorar suas carreiras. Mas também têm aqueles que amam música, e mesmo sem serem músicos, se comprometem de suas próprias maneiras. Claude é uma dessas pessoas que são apaixonadas e correm grandes riscos ao colocar seu nome, reputação e dinheiro na linha.
Swissinfo: Seu último álbum de estúdio, "Rapture of the Deep", tinha uma pegada elegante, poética, que parecia a mundos de distância dos clichês de rock pesado. Você está se sentindo cansado de sua imagem?
Ian Gillan: Quando se é jovem, você tem sua cor favorita, seu animal favorito, sua coisa favorita... o mundo é preto ou branco, você tem uma resposta para tudo, você vê o mundo de uma maneira bastante rígida. Enquanto vai envelhecendo, você desenvolve uma filosofia mais ampla. Então você deixa para trás essa visão do mundo que você precisa como um adolescente para compensar sua própria falta de experiência.
Swissinfo: o designer do pôster oficial de Montreux desse ano, Julian Opie, falou em um artigo sobre o estilo "selvagem" de tocar do Deep Purple...
Ian Gillan: A palavra "selvagem" não parece muito longe de mim. Tudo está sob controle. Eu penso que "aventureiro" seria uma escolha melhor. Diante de um show, eu sempre me sinto animado, mas também gasto tempo todos os dias meditando. Me concentro em ser o mais calmo possível, porque eu realmente preciso manter o controle sobre minha adrenalina até subir no palco. E aí, é como abrir uma jaula e deixar escapar um tigre... Então, sim, eu imagino que sou um pouco selvagem (risos)!
Ian Gillan: Mas, independente da forma que olhar, o desafio é que não existe uma rotina com o Deep Purple. Nós costumamos tocar as mesmas músicas, mas nunca sabemos o que acontecerá... e isso é extremamente difícil.
Swissinfo: Há alguns anos você me disse que "Smoke on the Water" era a única música que você havia cantado em todos os seus shows, com todas suas bandas, desde 1972. Você continua gostando de fazer isso?
Ian Gillan: Absolutamente! Porque não é só sobre a banda, também temos que considerar o público. É quase uma experiência espiritual. A música não nos pertence mais... nós só acompanhamos a multidão.
Swissinfo: 1971 foi o ano do fogo no cassino de Montreux e a gravação do seu álbum "Machine Head". Que memórias tem daquele tempo?
Ian Gillan: De fato, com o passar do tempo, elementos visuais como fumaça, fogo, medo, ainda continuam, mas o que eu lembro mais é o dia final da gravação no Grand Hotel.
Ian Gillan: Martin Birch, nosso empresário, nos disse: "Eu tenho uma má notícia, perdemos sete minutos de material. E somente temos 24 horas sobrando para recuperar isto." Ele sugeriu que ouvíssemos às tomadas feitas no primeiro dia para uma checagem de som. E foi aí que encontramos as raízes do que veio a se tornar "Smoke on the Water". Roger Glover, o baixista, sugeriu que escrevêssemos a letra baseado no que acabávamos de experienciar... Foi aí que a gravação mais dramática existente apareceu...
Swissinfo: Vocês tocaram no 40º Montreux, tocaram no 30º Montreux (um CD e DVD "Ao vivo em Montreux" acabou de ser lançado)... Vocês estarão de volta para o 50º?
Ian Gillan: Isso seria fantástico!
Entrevista da swissinfo por Bernard Léchot, em Montreux.
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