Jeff Buckley e Led Zeppelin: As relações possíveis entre o cantor e a banda

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Por Diogo Araujo da Silva, Fonte: Medium
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Muitas são as relações possíveis entre o cantor famoso-obscuro da California e a mais conhecida banda da música pesada. A influência do Led sobre o artista Buckley e seu único álbum lançado em vida, Grace, é evidente após qualquer escuta ou pesquisa. A resposta, a reação dos líderes da banda inglesa, Robert Plant e Jimmy Page, à música de Jeff, é igualmente não-secreta: ambos, mestres, ficaram de queixo caído com o talento, do discípulo-mestre, descoberto. Esta relação, porém, pode ser desdobrada, indo além dos estereótipos da imprensa que quase sempre redundam em: relatar a ocorrência de emoção nos encontros entre eles; confirmar a mútua admiração; fofocar a vontade de trabalharem juntos (Jeff e Page); enaltecer a capacidade do jovem músico de mimetizar o som do Led, encarnando, já lendariamente, "Page e Plant em um só"; registrar simploriamente a presença de peso, sons acústicos, agudos de voz e arranjos de altíssimo bom gosto e claro tributo ao Zeppelin em Grace; etc Jeff, assim como o Led, procurou encarar o rock como arte, criando livremente e desenvolvendo uma capacidade incrível de horizontalizar as "divindades" (que o capeta não esteja lendo) da música. Como isso se deu?

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Bom, cabe a um texto que se pretenda crítico de verdade, ou seja, que queira ir além de desempenhar a função de entretenimento raso de emoções, elaborar perguntas diante da obviedade e a partir delas discorrer. Um exemplo: o que é ser Plant e Page em um só? Partamos dos fatos. Que eu conheça, Buckley visitou a música do Led nas seguintes ocasiões: na versão de Night Flight (música do álbum Physical Graffiti, desconhecida do gosto popular) presente nas sessões completas de Live at Sin-é e em outros lugares; no episódio de um show ao vivo na França com a paródia em alta-rotação de Kashmir;[1], na brilhante jam de estúdio de When the levee breaks; e em lendas, como a de um incrível momento de catarse coletiva com a versão de Buckley para The rain song, num show das vésperas da fama[2]. Não fosse a curta vida de Buckley, uma das conjecturas mais prováveis de ter se realizado seria a de novas e novas versões para músicas do Zeppelin terem surgido.

Com base nessa pequena lista, já podemos arriscar uma resposta à pergunta feita: ser Plant e Page em um só consiste em tocar guitarra e cantar com o nível de habilidade e com algumas das características dos cultuados músicos. Para interpretar Plant, agudos, agudos rasgados, uma bela pegada cênica andrógena, intensidade emocional e libidinal. No caso de Page, musicalidade que extravaze o aprisionamento ao rock; atenção a timbres, contrapontos e overdubs por parte de guitarras e violões; produção finesse; economia; e, único ponto pouco desenvolvido por Buckley, solos de guitarra épicos e matadores. (Em termos gerais, no que toca a Jeff como guitarrista, compare-se essa slide guitar na introdução de Last Goodbye, com a de Travelling riverside blues, se se quiser ter uma clara ideia do que se está falando.)

O Led não só criou um universo em sua música como, por exemplo, um Pink Floyd, mas este universo acabou sendo incrivelmente múltiplo e fagocitador de linguagens as mais díspares, parecendo poder visitar folk, Oriente, pop, jazz, reggae, blues, heavy metal, progressivo, erudito e tudo o mais que fosse concebível, figurando como a primeira banda de virtuosos da história do rock. Essa virtuosidade tem evidentíssimos limites, que fique claro, e tanto a graça quanto a desgraça no Led muitas vezes brotam justo daí.

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Isto posto, dizer que um único sujeito pode ser os dois frontmen da banda autora da proeza acima citada, é um enorme e pesado elogio, um dos maiores possíveis e imagináveis (almejados?) na música popular. Jeff merece, a meu ver, mas é justo como esse elogio se aplica ao caso que é a razão do texto aqui. Até porque existe uma hipótese importantíssima a ser considerada: é permitido a você, por liberdade da vida, achar Led uma porcaria e achar o que o Jeff fez em poucos anos algo muito mais promissor, sofisticado, quieto e até mesmo mais ousado. A razão do culto à banda inglesa seria, para os céticos, a de uma proeza mercadológica: no underground há coisas muito melhores. Um exemplo de diferença entre ambos: talvez a maior raridade desempenhada por Jeff é, pra mim, tomar espontaneamente músicas alta-classe do repertório de Nina Simone, Edith Piaf, Billie Holiday, Bob Dylan, Van Morrison, Leonard Cohen, Nusrat Fateh Ali Khan, Big Star, MC5, etc O apelido human jukebox beira o surreal; praticamente a Disneylandia pra fugir do apocalíptico mau gosto do rock. De sorte que o vincular ao Led pode ser, sim, limitador. E não que você não possa achar o contrário… Sutilezas.

O que esse cara tocava no Led mesmo?

Um dos clichês mais terríveis do rock está em criar mitos para crianças (feias) em forma de adulto acreditarem: Jimi Hendrix é deus; o Woodstock foi inigualável; ninguém pode superar os Beatles; "acho que havia algo de demoníaco no Black Sabbath mesmo"; etc, etc Tudo para elevar ao extremo do absurdo o valor do culto, como se o roqueiro fingisse não poder saber que, assim, ele apenas troca o catolicismo dos pais por uma pseudo-religião de adolescente rebelde — e burro, muito burro. Com isso chegamos a outro mote dessa crônica: acredito ser válido comparar Jeff ao Led, mas sem mistificações e discorrendo sobre essa metáfora que, vista com olhos descansados e conscientes, é linda. Acredito que a mitificação de estrelas do rock ajudou a colocar fim à vida de Jeff, morto afogado aos 30 anos. E acredito igualmente que algo de muito especial aconteceu entre aqueles 4 roqueiros ingleses para produzirem sons que, quase na mesma modalidade, podem se comparar às já assustadoras quantidades de música incríveis criadas pelos Beatles. Outras bandas o fizeram, mas poucas com essa surreal abundância.

Como nos vocais de Plant para o Led, os gritos em Grace são uma constante e com certeza a intensidade da música e a plasticidade dos berros são atrativos dos mais fortes em ambas as obras. Plant afirmou que Jeff "tinha muito melhores habilidades" [3] do que ele, o que é verdade. Os gritos acrobáticos do cantor norte-americano estão presentes em Mojo Pin, Grace, Last Goodbye, So real, Lover you should’ve come over e Eternal Life; 6 das 10 músicas de seu álbum. A plasticidade deles em si e a construção do momento para, nessa música de emoções abismais, serem emitidos, compõem uma das apropriações (mais evidentes) de Jeff à música do Led. Nas guitarras, eu pontualmente destacaria o veneno e a sutileza de riffs e execução, bem como os overdubs "demoníacos" que vez ou outra fazem aparições fantasma no meio das músicas: tudo, ou quase, é Page. O essencial são os movimentos minimais e pesados, afinal o minimal é que compõe o peso; não dá pra imaginar um mamute andando de patins. E podemos usar isso como definição para a diferença entre Led e roqueiros pubertários, AC/DC e Iron Maiden wannabes.

Faltam os solos para Buckley, mas a década de 90 é justo a terapia dos 80, fazendo seus excessos passarem por um radical e destruidor filtro. Outro dos palpites adivinhatórios, porém, é que Jeff teria feito bons trabalhos de guitarra solo também, afinal, o cara cursou um instituto de guitarra em Los Angeles, tocando Wheater Report na prova final e ganhando apertos de mãos entusiasmados de nada mais nada menos que Joe Pass, um dos monstros da guitarra jazz[4]. Se fosse perguntado, eu diria que minha versão preferida de uma música do Led feita por Jeff é a de When the levee breaks, onde dá pra sentir o sabor de solos buckleyanos. A versão é uma mera jam no estúdio. Mas o capricho com que o músico toca guitarra, emulando e interpretando timbres e intencionalidades é de cair o queixo. Jeff chega a imitar o mero barulho de guitarra feito no fim da gravação original. A voz é pura jam, mas dá a entender quão incrível poderia ficar uma versão em estúdio produzida com a qualidade de Grace.

A quem interessar possa: Orange County, cidade natal do artista, é vizinha à Disney.

A conclusão, de minha parte, já pode ter sido adivinhada: não sei se Jeff é Page e Plant em um só, ou se um mix superlativo-caricatural de Leonardo DiCaprio com Iggy Pop e Johnny Marr seria mais exato para o descrever. O que sei é de uma coisa: eu, que gosto de escrever tenho como escritor preferido (atualmente) James Joyce. Mas isso não quer dizer que queira ou não queira fazer uma metempsicose do genial escritor irlandês. Nem que eu deva admirar menos um contemporâneo, não consagrado, porque Joyce seria inigualável. De maneira nenhuma! E este é um dos graves problemas da humanidade: filhos que se tornam bastardos, àcusta de não terem espaço aberto para se assumirem como irmãos legítimos de um passado presente e um presente futuro. Sobretudo, a comparação de Buckley com o Zeppelin expõe um mito: muitos, praticamente todos roqueiros querem ser o Led ou atrair a mesma atenção ou a própria atenção de seus mestres. Com Jeff, o queixo de Plant e Page caiu, os velhinhos indo a shows do moleque. Os roqueiros são órfãos, e por isso procuram a si mesmos no caos barulhento de imagens passadas.

PS: Imperdoável não ter lembrado no texto do acidente que tirou a vida de Buckley: entrando num rio, de roupa e tudo, para nadar, Jeff sumiu e perdeu a vida. Amigos íntimos afirmam que um suicídio premeditado não seria jamais uma atitude coerente com a pessoa por trás do artista. Durante a entrada no rio, porém, um amigo testemunhava da margem, Jeff cantava Whole lotta love.

Playlist no Youtube:

[1] No album Live at Olympia.
[2] A pure drop de Jeff Apter, posição 2614.
[3] Entrevista de Plant para o Q TV, linkada no fim deste texto.
[4] A pure drop, posição 1315.




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