Slayer: O tributo a Jeff Hanneman escrito por Dave Lombardo
Por Alexandre Caetano
Fonte: Metal Hammer
Postado em 25 de setembro de 2018
Cinco anos atrás, nós perdemos o poderoso Jeff Hanneman. A Metal Hammer pediu ao companheiro de banda e formador do SLAYER, Dave Lombardo, um tributo ao amigo, ícone e um dos maiores guitarristas de metal que já existiu. Leia abaixo o texto de Lombardo.
A primeira vez que eu encontrei Jeff foi em 1981, depois que Kerry [King] e eu reunimos a banda, quando nós estávamos ensaiando na casa dos meus pais. Acho que o Kerry encontrou com ele em algum lugar e eles foram conversando, e o próximo passo você sabe, ele trouxe Jeff para casa. Para mim ele parecia um moleque surfista e quieto: cabelo comprido loiro, vivendo em Long Beach, poderia estar em uma prancha de surf. Eu fiquei, meio, "esse moleque é legal."
Jeff era uma grande influência no som do SLAYER. Nós íamos pelo metal típico da época – JUDAS PRIEST, IRON MAIDEN, RAINBOW, DEEP PURPLE, sabe? Daí um dia Jeff chega no ensaio com a cabeça raspada. Nós ficamos, meio, "Uau, Jeff, o que você fez?!" E ele: "Eu sou punk. Pronto." E ele trouxe todas essas músicas com ele: alguns vinis, algumas fitas – BLACK FLAG, TSOL, MINOR THREAT, DEAD KENNEDYS, CIRCLE JERKS. Eu estava, tipo, "Uau, que tipo de rock tem me influenciado? Isso é fantástico!" Essa foi uma grande base - nossas músicas ficaram mais rápidas, mais agressivas depois disso. Foi ele que trouxe esse elemento para o SLAYER.
Quando você encontra alguém pela primeira vez, principalmente naquela idade, todo mundo é meio quieto e fechado. Mas quando você começava a conhecer o Jeff, ele ia se abrindo. Ele tinha mesmo aquela coisa punk, a atitude "foda-se o mundo", principalmente depois de algumas cervejas.
Mas ele era um cara atencioso também. Eu lembro que uma vez nós fomos tocar em um bar no Canadá, na nossa primeira turnê. Chegamos lá e tinha uma banda tocando, então nós saímos e tomamos algumas bebidas. Eu fiquei tão detonado que fui para o banheiro, fechei a porta do box e desmaiei. Acho que o Jeff veio me procurar. Ele veio até o banheiro e estava tentando abrir a porta do box - estava puxando, quase quebrando as dobradiças da porta para abrir. E daí ele percebeu que tudo o que precisava era empurrar. Então ele abriu a porta e me pegou. Eu perguntei para ele depois "Jeff, minhas calças estavam abaixadas?" E ele riu e disse, "Não, cara, você estava sentado no banheiro vestindo as calças." Mas esse era o tipo de atitude do Jeff. Eu sei que se eu precisasse de alguma ajuda, ele se aproximaria. Ele era esse tipo de cara. Ele era um bom amigo. É isso que importa.
O que muita gente não sabe é que Jeff foi, musicalmente, o menos educado e o menos treinado da banda. Ele era um novato quando entrou. Eu tinha tocado em duas ou três bandas antes, mas o SLAYER foi a primeira dele. Ele não sabia muito, mas devagar foi desenvolvendo, tocando e aprendendo sozinho. Foi meio "Uau, cara, você trilhou esse caminho, você fez isso sozinho."
Era ele quem criava as próprias demos para as músicas que estava escrevendo. Programava a bateria eletrônica, tinha as partes compostas na cabeça, e era diferente da forma que Kerry mostrava as músicas. Eu lembro dele comentando minhas partes de bateria. Ele dizia, "Ooh, gostei disso, isso está saboroso - faça mais saboroso." Ou se eu viesse com uma batida de rock normal, ele classificaria como sendo "brega". Tinha que estar afiado para gravar. Tinha que estar "saboroso".
Eu nunca vi uma competição negativa entre Jeff e Kerry. Ambos queriam o melhor para a banda. Tenho certeza de que Jeff foi inspirado por Kerry e tenho certeza de que Kerry foi inspirado por Jeff, principalmente na habilidade dele para improvisar, que era uma vantagem que o Jeff tinha sobre o Kerry e o Tom [Araya, frontman]. Mas o Jeff e o Kerry foram muito inspirados pelo KK Downing e Glenn Tipton, do JUDAS PRIEST. Se reparar, Hanneman ficava no palco à direita, exatamente como o KK Downing, e King à esquerda, como o Glenn Tipton.
Jeff e eu montamos uma banda paralela chamada PAP SMEAR, nos anos 90. Éramos nós sendo moleques punks. Ele queria tocar baixo, então chegamos no Rocky George do SUICIDAL [TENDENCIES], que Jeff amava - ele admirava muito a alma com que Rocky tocava. E o garoto com quem eu costumava surfar era o vocalista. O nome dele era Joey Fuchs, mas se autodenominava Joey Hanneman e fingia ser irmão de Jeff, porque ambos tinham cabelos loiros e eram meio parecidos. Nós escrevemos umas cinco ou seis músicas, mas nunca tocamos ao vivo, porque eu senti que o PAP SMEAR estava meio que tirando nosso foco do SLAYER.
Como todo mundo, você cresce e trilha seu próprio caminho. Quando eu voltei para o SLAYER no começo dos anos 2000, nós éramos um pouco mais maduros, mas o Jeff continuava aquela pessoa alegre e brincalhona que sempre foi. Eu consegui me reconectar mais com ele. Nós passávamos muito tempo no ônibus da turnê, conversando, tendo várias conversas - não coisas profundas, só coisas aleatórias.
Nas últimas apresentações dele no SLAYER, chegou um ponto em que as performances dele não estavam no nível do resto da banda. O álcool estava cobrando seu preço, assim como as cirurgias que ele teve que fazer. Era triste, mas tínhamos que tomar uma decisão e dar a notícia para ele. Eu sei que isso acabou com ele.
Antes de acontecer tudo isso, nós não sabíamos por quanto tempo Tom queria continuar, porque ele estava pensando em se aposentar já naquela época. Então Kerry e eu estávamos conversando sobre reunir a banda, e nós dissemos, "precisamos trazer o Gary Holt" porque já conhecíamos ele do EXODUS. Como se sabe, Gary se tornou o guitarrista que entrou no lugar de Jeff e isso foi aprovado pelo Jeff. Ele era grande fã do estilo de Gary - o Gary tinha a pegada e a alma que Jeff amava nos guitarristas.
Se Jeff ainda estivesse aqui e estivesse no SLAYER, ele não iria querer se aposentar. Ele lutaria para manter a banda. Ele pegaria a banda pelos chifres e seguiria em frente. Seu amor e paixão era a música e os palcos. Essa paixão foi entorpecida por toxinas, mas ainda estava lá.
Se tem uma única música do SLAYER que define o Jeff, é a Necrophobic, do Reign In Blood. É uma das músicas mais rápidas que nós fizemos: tem essa agressividade, brutalidade, um som quase monótono. Ele andava por aí, só imitando esse som. Eu lembro dele, 'Esta é rápida, é brutal, nós vamos levá-la ao limite, ao ponto que não poderemos tocar mais rápido.' E foi o que fizemos.
Eu penso muito no Jeff. Não só quando as pessoas me perguntam sobre ele em entrevistas, mas também quando estou sozinho. Quando você está crescendo tem aquela atitude 'vida intensa, morte jovem', mas no fundo você se sente imortal. Daí você para e pensa, "Oh, ele se foi" e isso deixa um espaço vazio no coração.
Nos últimos anos, talvez nos últimos seis meses ele estava em turnê com a banda, Jeff sentava no ônibus e pensava sobre os shows. Ele dizia "Porra, cara, Angel Of Death ficou ótima essa noite." E depois de algumas bebidas mandava: "Eu escrevi essa merda, Dave. Eu escrevi essa merda." Ele estava tão orgulhoso desses clássicos que escreveu. Ele estava tão orgulhoso de tudo o que fez.
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