Neil Young: Celebrando a arte e a vida em autobiografia
Por Fabrício Luíz Vidal
Postado em 23 de outubro de 2018
Sentado à penumbra do palco, dedilhando um velho Martin e tocando gaita. Ora sussurra sobre abandono, ora canta sobre amores. Cena típica de uma apresentação de Neil Percival Young, músico canadense que no auge dos seus 72 anos continua produtivo e visionário, envolvendo-se em projetos e causas que extrapolam a campo da música e não muito raro adentram no viés socioambiental. Embora haja algumas rugas e cabelos brancos, a assiduidade de Neil continua tanta que o seu sobrenome acabou se tornando uma combinação perfeita de seu estado de espírito.
Os 58 anos de carreira do músico certamente renderam além de canções atemporais, boas histórias, protagonizadas por paixões, desilusões, conquistas, bons amigos e alguns arrependimentos. E tudo está escrito agora em um livro de 408 páginas, escrito pelo próprio Neil e publicado em português pela editora Globo Livros.
Embora de fato trate-se de uma autobiografia, a narrativa escolhida por Young não é tradicional. Não espere linearidade cronológica durante a leitura do texto. Com a proposta de ser mais intimista, o livro é dotado de aspectos da vida cotidiana de Young, servindo de gatilho para as histórias do passado; desde sua infância em Winnipeg (região central do Canadá), suas lembranças com os pais, os problemas com a poliomelite quando criança, as primeiras bandas (The Squires e The Mynah Birds), o sucesso com a Buffalo Springfield e Crosby, Stills & Nash até a sua trajetória com a Crazy Horse e como artista solo.
O modo como a leitura flui no livro se assemelha à música de Young através dos anos: simples e sincera e isto é percebido em alguns momentos. Na época, escrito em 2011, Neil julgou estar sem inspiração para escrever canções. Segundo ele até aquele momento a "musa" (termo usado para se referir à inspiração) ainda não lhe havia abençoado e entre as pausas das turnês e gravações, escrever um livro seria uma boa alternativa para gerar receita. -Sincero, não?!
Recusando-se a aceitar a ajuda de ghostwritters, Neil decidiu escrever sozinho todo conteúdo do livro, e levando em conta a sua inexperiência, foi bem-sucedido nesta empreitada, talvez por influência do seu pai Scott Young, um conhecido colunista e escritor canadense.
Infelizmente a tradução do livro não é das melhores e acaba sendo um destaque negativo em meio a um conteúdo tão convidativo. Não são poucos os momentos em que deslizes como "harpa elétrica" e "pedal de baixo de bateria" podem incomodar até mesmo o leitor menos exigente.
É interessante notar o respeito com que o músico aborda o passado, reconhecendo os eventos ligados a ele como uma base sólida de constante aprendizado e mudanças, evitando fomentar antigas desavenças conhecidas (ou não) pelo público. Aqui somente há espaço para as memórias e recordações de uma vida, no que o Los Angels Times destacou como "uma meditação de fluxo de consciência" em que as páginas ainda são poucas para celebrar a sua arte, a vida, família e os bons companheiros que vivos ou não, são sempre lembrados com afeto ao final de cada menção.
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