Pitty: do regresso do Aeon de Osíris à sistematização do homem em Admirável Chip Novo
Por Patrícia Pereira da Silva
Fonte: UNIR
Postado em 06 de fevereiro de 2019
PITTY, natural de Salvador-Bahia, é uma das maiores cantoras de rock nacional, além de compositora e escritora. Iniciou sua carreira ainda na pré-adolescência em outras bandas, hoje, PITTY não é apenas um nome artístico, mas sim uma das bandas de rock mais influentes na América Latina.
O objetivo deste ensaio é analisar as canções-título dos álbuns "Admirável Chip Novo" (2003) e "Anacrônico" (2005), bem como as músicas "Me adora", "Fracasso" e "Só Agora", lançadas no terceiro álbum da banda, "Chiaroscuro" (2009). A cantora passa um tempo afastada e só retorna em 2014, com o álbum, "Setevidas". Gravou com outras artistas de outros gêneros musicais, como: Negra Li, Emicida e Elza Soares. As músicas dos primeiros discos estão mais perto de um estilo Hard Rock ou Metal Alternativo, e pensando a racionalidade humana, a condição da mulher e manipulação das massas. O último, de 2014, tem os mesmos elementos dos outros, porém perdemos as batidas fortes e gritos guturais, e as letras de algumas músicas ficaram muito próximo dos problemas pessoais pelo qual a cantora passou.
As músicas brevemente analisadas passam pela individualização, racionalização e mecanização de uma sociedade que ainda não conseguiu alcançar a Sociedade Alternativa, estando no Aeon de Osíris. Em "Admirável Chip Novo" (2003), análoga ao romance "Admirável Mundo Novo" (1932), de Aldous Huxley, e também a música de Zé Ramalho, "Admirável Gado Novo" (1979), trata de um eu-lírico funcionando a partir de um sistema. Na primeira há um questionamento sobre o sistema do qual o eu-lírico faz parte, percebendo assim. 1. "Pane no sistema, alguém me desconfigurou/ Aonde estão meus olhos de robô?/ Eu não sabia, eu não tinha percebido/ Eu sempre achei que era vivo". Seria o eu-lírico um robô ou ser vivo? Observa-se a continuação desse questionamento na segunda estrofe. 2. "Parafuso e fluido em lugar de articulação/ Até achava que aqui batia um coração/ Nada é orgânico, é tudo programado/ E eu achando que tinha me libertado/ Mas lá vêm eles novamente, eu sei o que vão fazer/ Reinstalar o sistema". Com isso, o conceito de liberdade vem à tona ao entender que nada está se desenvolvendo de modo natural, então o eu-lírico confirma o que ele já esperava. A mecanização e racionalização aparece na terceira estrofe. 3. "Pense, fale, compre, beba/ Leia, vote, não se esqueça/ Use, seja, ouça, diga/ Tenha, more, gaste, viva". O eu-lírico faz parte de um sistema programado e quando ele sai dessa sistematização imposta, não há percepção de que ele é o próprio sistema. Na última estrofe temos a confirmação de uma sociedade pautada na racionalização e na obediência. 4. "Não, senhor, sim, senhor/ Não, senhor, sim, senhor".

Segundo Vitor Cei, No livro "Novo Aeon: Raul Seixas no torvelinho de seu tempo" (2010, p. 20), o Aeon de Osíris perpassa, ao qual podemos observar:
A doutrina osiriana – de modo semelhante à moderna ideologia burguesa do progresso – apregoa que os males do presente (subdesenvolvimento, infortúnios, sacrifícios, privações e violências de todo tipo) serão recompensados por bens futuros (desenvolvimento, dinheiro, liberdade, prazer e poder). Todavia, o que acontece no Aeon de Osíris é uma cumplicidade entre progresso e regresso, associados ao mesmo projeto: o do ímpeto desenfreado de extração e acumulação de riquezas, demolindo quase todas as barreiras naturais e morais. No Velho Aeon, privilegiados e excluídos são as duas faces da mesma moeda.
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