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Alice Cooper conta como compôs no hospício seu álbum mais pessoal

Por André Garcia
Postado em 13 de outubro de 2022

Alice Cooper surgiu com a banda de mesmo nome nos anos 60, fazendo um estranho rock de garage psicodélico. No começo da década seguinte, com um excêntrico e teatral rock matador, ele se tornou astro com uma excelente sequência de álbuns: apenas entre março de 1971 e junho de 72 foram lançados "Love It to Death", "Killer" e "School's Out"! Saindo em carreira solo, ele fez ainda mais sucesso com "Welcome to My Nightmare" (1975).

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Foto: Divulgação - Ear Music - Jenny Risher
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Conforme se tornava um dos rockstars mais famosos do planeta, com o sucesso crescia também seu problema com bebidas, que em meados da década já havia saído do controle. Em 1977, a situação chegou ao limite, obrigando Alice a dar um tempo na carreira para se tratar. No entanto, como na época não existia clínica de reabilitação, ele foi parar em um hospício.

Em entrevista para a Classic Rock, Cooper falou de sua internação, e também relembrou como acabou escrevendo lá um de seus trabalhos mais íntimos. Em sua segunda semana, ele já havia recebido alta, mas mesmo assim decidiu ficar.

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"Dr Bacharach matou a charada. Ele perguntou 'O quanto você bebe no palco?', e eu respondi: 'Eu nunca bebo no palco'. Aí então ele disse: 'Bem, você culpa esse personagem Alice Cooper por tudo, mas não é ele que é alcoólatra — é você! Eu já tinha passado pela parte mais difícil, então decidi completar o tratamento."

Outro motivo que o levou a permanecer naquele lugar foi ter percebido que aquilo era bizarramente inspirador para ele.

"Eu pensava naquilo como um diário do que rola em um hospital psiquiátrico. Como letrista, você está sempre em busca de um assunto. Não dá para evitar. Então eu sempre carregava papel e caneta. Quando alguém dizia algo muito louco ou que soava bem, eu anotava. Sabe, eu era só um cara com problemas com bebida, mas naquele lugar estava sob o mesmo teto que todo tipo de psicóticos. Tinha um cara que estava lá porque tinha esquartejado o tio e colocado no porta-malas!"

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"Além dos médicos, tinha uns dois caras que te davam um jeito se você ficasse violento. Eu via pacientes serem agarrados e jogados no quarto deles. E se você surtasse — poucos ficavam realmente fora de si — eles davam um injeção de Thorazine e te metiam na Sala do Silêncio, que era basicamente uma cela acolchoada. Eu fui para aquela sala algumas vezes. Não porque foi necessário! Era só um lugar tranquilo para escrever letras."

"Me ocorreu enquanto eu estava lá que eu casei com Sheryl quando eu bebia. Eu sabia o que estava fazendo — eu não bebi um belo dia e casei. Mas bebia. Quando eu estava saindo do hospital, eu pensei 'E se ela não gostar de mim sóbrio?' Que pensamento esquisito. Nós casamos e nos amamos, mas e se minha versão sóbria não for o que ela esperava? Aquilo era paranoia minha."

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Ao deixar o hospital em novembro de 1977, uma das primeiras ligações que o vocalista recebeu foi de seu antigo amigo de bebedeira Bernie Taupin, mais conhecido como o letrista de Elton John. "Eu fiz umas anotações", contou a ele um empolgado Alice Cooper. "Aquela gente toda... alguém tinha que escrever sobre eles!"

Os dois começaram a trabalhar juntos em transformar aquelas anotações bizarras em letras para um novo álbum. A parceria se deu no estilo ping-pong: "Eu mandava um verso e Bernie respondia com outro. E, no final das contas, nós realmente surgimos com um grande álbum, composto pelos personagens que estavam pelo pátio. Eu embelezei algumas coisas para deixar as músicas ainda mais teatrais."

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Todas aquelas experiências renderam o "From the Inside", lançado em novembro do ano seguinte, contando com mais dois colaboradores de Elton John além de Bernie Taupin: o guitarrista Davey Johnstone e o baixista Dee Murray. Ainda na mesma entrevista, ele comentou a inspiração por trás de alguns dos personagens que povoam o álbum:

"Os personagens do álbum são todos pessoas reais. O cara de "For Veronica's Sake" só falava de seu cachorro. 'Por Veronica, eu tenho que sair daqui!' O nome do cachorro não era Veronica, mas eu achei um nome legal. A garota de 'I Wish I Were Born In Beverly Hills' era o ser humano mais mimado da face da Terra. Ela tinha tudo que queria, mas ainda assim deu um jeito de destruir completamente sua vida, mesmo tão jovem."

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"E Jackknife Johnny [Joãozinho Canivete] era um veterano do Vietnã que estava destruído — ele tinha trauma pós-guerra. Ele voltou para os Estados Unidos com uma esposa do Vietnã numa época em que todo mundo odiava os vietnamitas. Mas a história do cara era uma história de amor. Johnny se odiava por ter matado um monte de gente no Vietnã, mas lá ele encontrou o amor. De alguma forma, havia algo de bom na vida dele, e aquilo era tocante."

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Sobre André Garcia

Sou redator e tradutor freelancer e escritor, autor do livro de contos Liber IMP. Ouço rock desde pequeno, leio coisas sobre bandas desde sempre e escrevo sobre ela já tem anos. Cresci como fã de Iron Maiden e paladino do rock, mas já me tratei. Hoje sou fã de nomes como Beatles, David Bowie, The Cure, Kraftwerk e Velvet Underground, e de cenas como a Londres psicodélica, a Nova Iorque proto-punk e a Manchester pós-punk. Escrevo notas e notícias rápidas para o Whiplash.Net visando compartilhar conteúdo relevante sobre música e cultura pop.
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