Porque Guilherme Arantes não concorda com rótulo de "Elton John Brasileiro"
Por Gustavo Maiato
Postado em 11 de março de 2023
Em entrevista concedida ao jornalista musical Gustavo Maiato, Guilherme Arantes falou sobre como conseguiu evitar o rótulo de "Elton John Brasileiro".
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"Eu fiquei como sendo uma figura única entre os pianistas e tecladistas de sucesso no Brasil. Isso me ajudou bastante. Agora, quando me chamam de ‘Elton John Brasileiro’, acho uma redução. Acho que é lisonjeiro. Acho bacana demais o Elton John. Principalmente o Elton John angustiado do começo. Esse é imbatível! Ele ainda sofrido por várias questões da própria pessoa dele. Ele tinha uma persona angustiada, nostálgica e profunda. Só que o Elton John, por força do showbiz, se tornou um grande entertainer e performer. Era um compositor de mão cheia e um puta cantor. Mas ele coloca ternos cintilantes, coisas que jamais pus. Na década de 1980, cheguei a usar umas roupas diferentes na fase do desbunde. Eram de marcas como Fiorucci, Yes Brasil e Company. São da nossa geração.
O fato é que nunca me enfeitei para o showbiz. Sou daquele jeito da capa do meu primeiro disco até hoje. Não consegui criar um personagem que fosse um signo visual. Quando entrei na Warner, o André Midani tentou fazer isso comigo. No meu primeiro disco, quiseram falar que eu era o ‘Elton John Brasileiro’. Por isso, na capa o meu nome está escrito em cor de rosa. Tinha todo um figurino preparado para combinar com esse nome cor de rosa. Tinha um óculos de borboleta, um terno todo rosa choque, com sapatos de plataforma. Quando olhei aquilo que a Som Livre tinha preparado para mim, falei que não queria me fantasiar de Elton John. Expliquei que eu não era aquilo.
Minha sorte é que quando eles me lançaram, fui buscar outra referência para apresentar para eles. Mostrei a dupla Simon & Garfunkel. Peguei a capa do ‘Greatest Hits’ deles. Eles estão no Central Park com aquela cara de judeus universitários novaiorquinos. Eram estudantes intelectuais, com uma jaqueta de camurça. É assim que o Guilherme Arantes saiu na capa. Ficou com o nome rosa, mas consegui negociar com a gravadora. Apresentar outro ícone fortíssimo do showbiz, que era o Simon & Garfunkel, isso foi uma escolha muito esperta para um menino de 22 anos! Eu tinha feito USP e FAU. Malandramente, escapei dessa busca de um signo visual que era andrógeno. Era o Elton John;
Quando hoje me chamam de Elton John, é um elogio, claro, mas não é bem isso. O Guilherme é letrista de todas as músicas praticamente. Coisa que o Elton John não chega nem perto. Ele tem um letrista parceiro, que é o Bernie Taupin. Mas eu sou uma soma deles dois! Logo do começo, já fiz boas letras, como ‘Amanhã será um lindo dia / Da mais louca alegria / Que se possa imaginar’. Ou ‘Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto / À meia-noite, à meia luz’. Isso era nato em mim. Em um país como o Brasil, provocou uma inveja terrível. Eu era bonito para caralho. Era um menino. Me lancei com 22 anos em 1976. Um cara de 22 anos tem um frescor na imagem. Ainda tinha restos da adolescência, com espinhas no rosto", disse.
Acho que dei muita sorte, porque tive boas pessoas que respeitaram, como nesse caso do primeiro disco. Os caras entenderam que fazia mais sentido fazer da forma que eu estava propondo. A foto que saiu no encarte é belíssima. Posso ser ali um estudante da FAU andando no centro do Rio de Janeiro, com as ruas vazias.
Depois, caí no pop dos anos 1980. Alguns erros de estratégia foram cometidos. Em 1983, estava sem caminho em termos de gravadora. O pop nacional já tinha se multiplicado com outros nomes, como Biafra e Dalto. Seria um ‘New Romantic’. O Ritchie surgiu como uma bomba! Era um performer. Eu tinha um jeito desenxabido no palco. Fui para a gravadora CBS, que era líder de vendas, mas era bastante brega em suas escolhas. Tinha muito do romântico brega".
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