O rock nacional que fez Regis perceber que letra pode ser mais importante que instrumental
Por Bruce William
Postado em 14 de agosto de 2023
Bob Dylan lançou "Subterranean Homesick Blues" no seu álbum de 1965, "Bringing It All Back Home". A música entrou para a história por sua combinação única de folk, rock e letras líricas que misturam crítica social e reflexões sobre a sociedade da época, tendo se tornado uma das mais famosas de Dylan, sendo uma espécie de canção de protesto onde Dylan adora uma postura anti-establishment que conclama todos a lutar para viver de forma livre, independentemente do que digam as autoridades.
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Embora a letra contenha elementos um tanto quanto surrealistas, ela é relativamente linear quando a gíria é decifrada. Os dois primeiros versos da música retratam uma cena de traficantes de drogas de baixo nível resistindo à polícia nas ruas com subornos até que eles sejam inevitavelmente detidos por ordens superiores. Ele encerra esta parte com uma frase emblemática que diz: "Você não precisa de um meteorologista para saber de que direção vem o vento".
Na segunda metade, Dylan relaciona tudo a um comentário mais amplo sobre as opções de alguém na sociedade, explicando que você pode seguir as regras e talvez, após "20 anos de educação", acabar "encaixado dentro de um sistema", e se você se encontrar em apuros, sempre há a opção militar para sair. Mas, independentemente do caminho que você escolha, você sempre acabará sendo um alvo, então Dylan oferece uma outra alternativa que é "pular para dentro de um bueiro" e se juntar a outros que vivem nos subterrâneos.
Muitos músicos que vieram depois foram inspirados e citaram ou usaram esta canção ao longo dos anos, o que fez com que ela se tornasse uma das mais importantes de Bob Dylan. Até hoje ecoa a mensagem que ela passa sobre não estar contente com a sociedade e querer ser autêntico, e é por isso que ela continua sendo relevante até os dias atuais.
Como "Sentado à Beira do Caminho" marca uma importante mudança na carreira de Roberto e Erasmo Carlos
A canção "Sentado à Beira do Caminho" foi composta por Roberto Carlos e Erasmo Carlos e lançada em maio de 1969 por Erasmo Carlos. Ela se tornou um marco na vida de Erasmo, sendo considerada por ele mesmo como a música mais importante de sua carreira. A composição levou quase cinco meses para ser concluída, pois eles estavam com dificuldades em criar o refrão, até que durante uma noite de trabalho Roberto teve um insight enquanto cochilava e acordou com a frase que se tornaria o refrão. "Eu acho que ele sonhou com o refrão, só pode ser isso. E se demorasse mais um pouco para anotar ele ia esquecer, porque ao acordar ainda estava recente o elo entre sonho e realidade", disse Erasmo.
A música foi produzida por Roberto Carlos e contou com a contribuição musical de Aristeu Alves dos Reis, que trouxe uma variação harmônica com acordes dissonantes, dando um novo elemento à composição. Músico de formação eclética, Aristeu começou tocando rock, jazz e, principalmente, bossa nova. "Eu me entusiasmei pelo violão depois de ouvir João Gilberto. E tirava de ouvido todas as músicas dele. Até hoje toco as músicas de João no tom e nos acordes que ele gravou. Aquilo foi uma escola para mim", contou Aristeu. E aquela sequência harmônica acabou sendo usada em várias outras composições de Roberto e Erasmo, dentre elas a famosa "Detalhes".
Conforme destacado por Nelson Motta em sua obra "Noites Tropicais", enquanto a canção "Quero Que Vá Tudo Pro Inferno" desempenhou um papel simbólico crucial no começo do movimento da Jovem Guarda, "Sentado à Beira do Caminho" marcou o declínio e a despedida dos momentos marcantes do movimento, conhecido como Iê-Iê-Iê, que cativou os jovens na década de 1960, e abriu o caminho para os trabalhos mais marcantes de Roberto Carlos.
A incrível canção de Raul Seixas que explodiu a cabeça de Regis Tadeu
No vídeo em que fala sobre o "Krig-ha, Bandolo!", primeiro disco solo de Raul Seixas, o jornalista e crítico musical Regis Tadeu explica que o álbum se tornou "um manifesto de vida para milhares de pessoas desde o seu lançamento em 1973".
Mais adiante, Regis faz um emocionante relato sobre uma das canções mais marcantes do álbum, "Metamorfose Ambulante", descrita por ele como "inacreditável": "Quando eu terminei de ouvir essa música, eu percebi que meu radicalismo roqueiro tinha escorrido pra barra da minha calça. Porque não dava pra ignorar que aquilo ali era uma ode à liberdade de pensamento, era um soco no estômago da sociedade conformista da época, e que não havia nada de errado em você reconsiderar uma opinião, se os argumentos fossem válidos e consistentes. Essa música até hoje retrata a inconstância da vida e as mudanças que todos nós enfrentamos".
Mas a coisa não parava ali; Regis ainda se surpreenderia ainda mais com outra fantástica canção do álbum: "Quando eu ouvi 'Ouro de Tolo' então, minha cabeça explodiu! Foi quando eu percebi que uma letra, que era um corrosivo e sutil esporro na sociedade consumista daqueles tempos, poderia ter uma importância maior do que a parte instrumental dentro de uma canção. Coisa absolutamente incrível. Até hoje eu sinto um frio na espinha toda vez que eu ouço e visualizo versos como 'eu que não me sento no trono dum apartamento, com a boca escancarada cheio de dentes, esperando a morte chegar'. De arrepiar isso!"
"Na época eu percebi que esta canção era, finalmente, o Roberto Carlos de 'Sentado à Beira do Caminho' encontrando o Bob Dylan de 'Subterranean Homesick Blues'! Os dois haviam se encontrado! E até hoje esta música é um hino de rebeldia e questionamento contra o sistema e a hipocrisia da sociedade. Que inclusive nos faz pensar a respeito da enorme desilusão com conquistas materiais", finaliza Regis.
Com informações do Ultimate Classic Rock, The Guardian, Eternas Músicas e do livro "Roberto Carlos Em Detalhes" de Paulo Cesar Araujo.
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