A adorada canção da Legião Urbana que tem uma mãozinha do autor de "Ainda Estou Aqui"
Por Bruce William
Postado em 07 de março de 2025
A Legião Urbana é uma das bandas mais queridas do Brasil, e sua música "Tempo Perdido" se destaca como uma das mais amadas por fãs e críticos. A canção, presente no segundo álbum da banda, "Dois" (1986), mistura a profundidade das letras de Renato Russo com a melodia inconfundível da banda, mas o que muitos não sabem é que ela tem uma participação indireta de um nome importante da literatura brasileira: Marcelo Rubens Paiva.
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Marcelo, conhecido principalmente pelo sucesso de "Feliz Ano Velho" (1982), que narra sua experiência como tetraplégico após um acidente, foi amigo próximo dos integrantes da Legião Urbana, especialmente de Dado Villa-Lobos e Renato Russo. E ele também é o autor de "Ainda Estou Aqui", livro que tem grande importância tanto para sua carreira quanto para a memória da história recente do Brasil.
O livro trata da história de sua família, do assassinato de seu pai durante a ditadura militar, e da trajetória de sua mãe, Eunice Paiva, que lutou pela verdade e pela justiça durante décadas. Em 2024, o livro ganhou adaptação cinematográfica dirigida por Walter Salles Jr., e a performance de Fernanda Montenegro, junto com Selton Mello, no papel de seus pais, culminou em um prêmio Oscar, primeiro a ser conquistado por um filme brasileiro.
Em 1985, durante o carnaval, Marcelo estava hospedado na casa de Dado, em Brasília, quando o processo de composição da música começou. Dado recorda que, naquele período, a banda ensaiava pela manhã enquanto Marcelo tomava seu café e acompanhava o trabalho da banda com o olhar atento. Foi nesse ambiente descontraído que Renato Russo, em busca de inspiração para a letra de "Tempo Perdido", se aproximou de Marcelo com uma proposta inusitada: "Cara, eu estou com uma música aqui, você está a fim de escrever a letra comigo?", disse o vocalista, oferecendo-lhe um rascunho para continuar a composição. Porém, como relatado por Marcelo em uma participação no Programa do Bial, ele prontamente recusou, dizendo: "Não, Renato, para, eu não sei fazer isso."
Apesar da recusa, a conexão entre Marcelo e a banda foi essencial para o clima que inspirou a música. Renato Russo, com sua característica disposição criativa, seguiu escrevendo os versos sozinho, criando a letra que se tornaria um clássico. Marcelo contou para Bial como a música sempre o emocionou, reconhecendo que a experiência de estar ali, no momento de criação, foi algo marcante em sua vida.
"Os caras ensaiavam o segundo disco às sete da manhã, às oito da manhã, só que a gente ficava a noite toda papeando, conversando, bebendo, e às sete da manhã começavam a tocar esse solinho. E eu tentando dormir. Mas eu acordava, ia pro café da manhã, e o Renato todo animadão, 'ô Marcelinho, estou fazendo uma letra aqui', e essa essa letra (de "Tempo Perdido"). E ele vinha com um guardanapo, dizendo 'vamos fazer uma letra juntos'. Eu disse 'acabei de acordar, todos os dias quando acordo...' E acabou ficando uma participação completamente indireta em uma música que até hoje quando eu escuto eu arrepio, porque eu acho que é uma das músicas mais lindas da Legião", admitiu o escritor.
O episódio de colaboração indireta de Marcelo na composição de "Tempo Perdido" reflete não apenas a relação próxima entre os músicos e o escritor, mas também como o contexto e a amizade entre os membros da Legião Urbana e o autor influenciaram a criação dessa obra. Em um depoimento de Dado Villa-Lobos, publicado no livro "Memórias de um Legionário" (Amazon), ele lembra que, apesar de ter sido sugerida a colaboração, a letra final de "Tempo Perdido" foi escrita apenas por Renato Russo. No entanto, o momento ficou marcado na história, não apenas pela amizade entre os envolvidos, mas pela forma como a composição foi construída, com a troca de ideias e experiências.
"'Tempo perdido' já vinha sendo composta, pelo menos, desde o carnaval de 1985. Mas os seus primeiros versos foram aproveitados da '1977', escrita nos tempos do Brasília Radio Center", conta Dado, que em seguida comenta a presença do escritor: "Eu me recordo bem do processo de composição de 'Tempo perdido', porque, em fevereiro de 1985, estava hospedado lá em casa, no Lago Sul, o Marcelo Rubens Paiva - autor do livro Feliz ano velho, lançado em 1982, e adaptado para o teatro no fim do ano seguinte"(...)"Um dia, o Renato, com dificuldades para escrever a letra de 'Tempo perdido', ofereceu parceria ao Marcelo: 'Cara, eu estou com uma música aqui, você está a fim de escrever a letra comigo? Se quiser, eu tenho esse começo aqui'. Mas o escritor respondeu: 'Não, Renato, para, eu não sei fazer isso' - e recusou a proposta. O nosso vocalista, então, escreveu todos os versos sozinho, e o resultado nós conhecemos" finaliza.
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