A música que o Joy Division não levou a sério, mas virou um de seus maiores clássicos
Por Bruce William
Postado em 26 de abril de 2025
Em abril de 1980, poucos dias antes da morte de Ian Curtis, o Joy Division finalizava uma música que não representava exatamente o espírito habitual da banda. Era mais leve e acessível, características que não estavam entre as favoritas dos músicos. Faixas como "Shadowplay" ou "Transmission" eram consideradas mais autênticas, densas e agressivas, permitindo ao grupo "se esconder atrás da música", como lembrou certa vez o baixista Peter Hook.
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A banda não fazia ideia do que estava nascendo ali. Se dependesse dos próprios integrantes, provavelmente a faixa teria ficado como uma obra menor dentro do catálogo. O vocalista Ian Curtis gostava de sua melodia, mas também não enxergava nela um potencial diferente das outras músicas que criaram juntos. "Para nós, era só mais uma música boa, não ótima", resumiu Hook, em fala resgatada pela Far Out.
Mas havia alguém no estúdio que tinha uma visão completamente diferente: Martin Hannett, produtor do Joy Division. Obcecado pela sonoridade daquela faixa em particular, Hannett repetia mixagens exaustivamente. Chegou a trabalhar em até cinco versões diferentes em diversos estúdios, sempre em horários incomuns, insistindo na presença dos músicos a qualquer hora. Aquela dedicação surpreendia a banda, que não compreendia tanto esforço para algo que não considerava tão especial.
Essa fixação de Hannett, no entanto, acabou alertando os integrantes sobre a importância daquela gravação. O produtor acreditava profundamente no potencial de "Love Will Tear Us Apart" e confessou a Hook que aquela música "duraria para sempre". O tempo mostrou que ele estava certo, e seu trabalho minucioso ajudou a criar uma das gravações mais emblemáticas do pós-punk.
Após a morte trágica de Curtis, o single ganhou uma repercussão que nem o Joy Division imaginava. A faixa rapidamente deixou de ser apenas mais uma música do grupo e se tornou um símbolo cultural de uma geração. Ao longo das décadas, conquistou espaço nos clubes underground, tornou-se trilha sonora obrigatória nas pistas indie, e até foi apropriada por torcidas em estádios de futebol, provando que sua melodia tinha força suficiente para transcender o nicho onde nasceu.
Curiosamente, o próprio Curtis, responsável por destacar a melodia enquanto improvisavam no estúdio, não chegou a saber do impacto histórico que sua ideia geraria. Faleceu antes de ver o lançamento oficial, pensando que aquilo era só mais uma música comum na trajetória da banda.
O tempo provou que Hannett tinha razão em suas madrugadas obsessivas no estúdio. "Love Will Tear Us Apart" se consolidou não apenas como a música mais famosa do Joy Division, mas como um clássico atemporal do rock alternativo. Aquilo que a banda não percebeu de imediato acabou se tornando seu maior legado—uma faixa eterna, exatamente como o produtor havia previsto.
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