Ian Curtis: O vazio existencial preenchendo a arte musical

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Por Dostoievsky Andrade, Fonte: Blog Questão Musical
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A arte no âmago de sua expressão se manifesta em tons cinza com a presteza de quem goza o calvário para se libertar da dor pela via de qualquer exteriorização artística. Uma forma de mobilizar os fluxos do sofrimento e da tortura da auto piedade as vezes serve como uma trilha terapêutica e se sedimentou na estética melancólica de um movimento que se configurou logo após o niilismo colérico do punk.

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Neste contexto, quem ceva todo a plástica estética do novo modelo impresso pelo arcabouço antagonista ao movimento punk no final dos anos 70 foi a banda Joy Division. A banda ganha contornos míticos e lendário com a morte prematura de Ian Curtis, vocalista da banda que divide a estampa do pós punk flertando com menos beligerância e resistência o desprezo ao status quo, mantendo o cenário clandestino do punk , mas mudando o vetor para a introspecção, minimalismo e experimentalismos na arte musical. Maio completa-se 29 anos da morte do cantor.

Faz-se necessário analisar a personalidade de Ian Curtis como um protagonista revolucionário do movimento. Isso se dá menos pela intenção voluntária de construir uma nova estética absorta e fertilizada na infelicidade, e mais pelo o que Ian era realmente: um cara depressivo, com um viés patológico a ser considerado, não obstante ter transformado com sua música um novo padrão de cultura e estética.

Portanto vejamos, Ian era um cara extremamente culto, ouvia dos clássicos aos estilos mais surreais da música internacional e era viciado em leitura intrincada e complexa a exemplo de Dostoievski e Kafka. Sua busca incansável pelo regozijo da alma tinha na poesia, na música e na expressão corporal de suas apresentações a desordem interna que o tragava para a soturna e lúgubre solidão. Sinaliza-se em vários trechos de suas músicas um desconsolo asfixiante, mas que para aquele momento expressar os dilemas existenciais se conciliavam com a busca de uma característica literária de que para sondar a arte era necessária abrir as comportas do sofrimento para que sua essência pudesse conter e expressar as verdade sobre a subjetividade humana.

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Tudo isso sempre foi bônus e ingresso para ter o aval de estampa de artista de ponta. Mas para Ian, sugere-se que nada disso foi ponderado em sua música. Ele tinha uma enfermidade psiquiátrica muito notória pela forma como dançava no palco, como não conseguiu encarar com normalidade juvenil pressões da fama, tão desejada por muitos de sua idade, e que depois se soube com as biografia que nunca desejou ter sucesso em uma banda de rock; queria tentar mais uma experiência que o libertasse da prisão que o trancava no infortúnio da alma.

Porém, todo este contexto de dramas pessoais imbricados na arte da música, alimentou um culto à Ian Curtis muito pelo fato de construir os alicerces de uma obra paradigmática e morrer por suicídio nutrindo todo enquadramento do que ele expressava em suas letras. Esta brevidade existencial em um desfecho trágico de um jovem de promissor talento, teve no eco vazio de seu clamor sinalizado nas letras do Joy Division o desapreço de sua súplica por amor, como se a tradução da melancolia de suas letras seria uma forma de expressão artística tão bem vinda naquele cenário de auto afirmação pela dor de ser jovem incompreendido e cheio de hesitações e poucas perspectivas.

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O certo é que Ian Curtis convergiu a soma de mais um artista abatido pela sua própria perturbação mental, movida na sua busca pela libertação da doença e de se expressar da construção de um processo criativo que encontrou na poesia e na música uma via terapêutica e de fuga tergiversiva para blindar sua dor. Foi assim também com Jimi Hendrix, Nick Drake, Kurt Cobain, Jim Morrison e Chris Cornell.

A aura mítica envolvendo a historia de Ian e sua morte cedo demais, se coloca muitas vezes acima de sua obra o que de alguma forma se revela extremamente desarrazoada. A pequena amostra musical da banda representada por dois discos que se mostram além do espírito da contra-cultura punk, flertou com o experimentalismo alternativo e muita criatividade em letras poéticas e em uma música que incorporava uma sonoridade excêntrica e insólita, criando uma atmosfera fria construída com as bases de uma melodia mais triste e emotiva. A voz barítona de Ian embalava a comunhão perfeita de sua introspecção sombria com o âmago surreal dos elementos metafísicos de uma filosofia que confrontava com o eu real sem sentido, confuso e absurdo em seu plano concreto.

Joy Division ao vivo era uma contradição, pois sua energia pulsava com uma sonoridade mais solar e mais cristalina, sintetizadores mais encorpados com guitarra mais suja e franca que encontrava na excêntrica dança de Ian( uma forma de extravasar seus pequenos surtos epilépticos) sua configuração ao mesmo tempo caótica e catártica.

A tragédia envolvendo a vida e morte de Ian Curtis abarca a sintonia perfeita para que o pós-punk assumisse sua faceta mais fosca e triste diante das mudanças políticas empreendidas pelo Thatcherismo e a falta de perspectiva no inicio dos anos 80.

Neste panorama, a morte prematura de uma das maiores referencias do rock britânico tem no dissabor existencial sua maior fonte de criatividade, um parâmetro que orientou o rumo de muitos outros artistas a encarar o infortúnio como manancial de inspiração para fazer arte genuína, e talvez, a mais representativa seiva do que é o verdadeiro ser humano




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