Como a última música gravada pelos Beatles apontou o ego que era uma das causas da ruptura
Por Bruce William
Postado em 02 de abril de 2025
Pouco antes do fim dos Beatles, quando os laços entre os integrantes já estavam desgastados, George Harrison compôs uma música que expunha exatamente o que ele via como a raiz de todo o problema: o ego. "I, Me, Mine", lançada no álbum "Let It Be", foi a última canção gravada pelo grupo e, curiosamente, um recado direto àquilo que eles próprios haviam se tornado.
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A composição nasceu em meio ao caos das sessões do projeto Get Back, quando Harrison, cansado da dinâmica com Lennon e McCartney, sentia que suas composições não eram levadas a sério. Inspirado por ensinamentos espirituais e também por experiências com LSD, ele passou a observar com incômodo a forma como tudo ao redor parecia girar em torno de vontades individuais: "Dá isso pra mim", "isso é meu", "eu sou isso". A letra refletia esse incômodo, uma crítica direta à dualidade entre o "eu pequeno" e o "Eu maior", conceito que Harrison absorveu do hinduísmo.
O título da música, repetido como um mantra, surgiu como uma forma de expor o individualismo que ele via se instalar entre os Beatles. Em sua autobiografia que leva o mesmo nome da canção, "I, Me, Mine" (Amazon), Harrison escreveu (via Far Out): "O LSD foi como se alguém me catapultasse para o espaço. [...] De repente eu olhava ao redor e tudo era relativo ao meu ego. Me enlouqueceu. Eu odiei tudo sobre meu ego. Foi um relance de tudo que é falso e impermanente, que eu não gostava."

Gravada em janeiro de 1970 apenas por Harrison, Paul McCartney e Ringo Starr - já que Lennon não participou da sessão oficial - a faixa teve um momento curioso capturado nas filmagens anteriores: ao anunciar a música, George disse algo como "É uma valsa pesada. Não me importo se vocês não quiserem." Mesmo assim, o trio tocou junto com leveza, enquanto Lennon e Yoko, presentes nos ensaios do projeto Get Back, dançavam no estúdio em clima quase surreal.
Mesmo sendo a última gravada pelos Beatles, "I, Me, Mine" representava uma ruptura. Ao contrário do que o título possa sugerir, ela não exalta o ego, ela o denuncia. E, simbolicamente, encerra a discografia da banda com uma reflexão amarga sobre o que havia acontecido entre eles. George explicou anos depois: "'I, Me, Mine' é o problema do ego. Há dois 'eus': o pequeno 'eu', quando as pessoas dizem 'eu sou isso'; e o grande 'Eu' - ou seja, a dualidade e o ego. Não há nada que não seja parte do todo. Quando o pequeno 'eu' se funde com o grande 'Eu', então você está realmente sorrindo."

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