Os deslizes que Jimi Hendrix cometia nos show, segundo seu roadie Lemmy Kilmister
Por Gustavo Maiato
Postado em 14 de dezembro de 2025
No texto em que revisita a relação entre Lemmy Kilmister e Jimi Hendrix, o jornalista Tim Coffman, da Far Out Magazine, lembra que 1967 foi um ano de transição para o futuro líder do Motörhead - um momento em que ele ainda estava "começando a alcançar sua forma final". Antes de se tornar sinônimo de velocidade, barulho e atitude, Lemmy era um jovem que ganhava a vida como roadie, atravessando a cena psicodélica britânica e observando de perto um dos músicos mais revolucionários da história. Coffman destaca que, para alguém que viria a influenciar incontáveis guitarristas, Lemmy também precisou "seguir os passos de outros ícones musicais", e nenhum deles pesou tanto quanto Hendrix.

O repórter enfatiza que Lemmy sempre reconheceu a genialidade do guitarrista. Hendrix era, como Coffman descreve, "um caso único que o mundo nunca tinha visto", alguém que transformava o instrumento em algo transcendental. Mas, fiel à franqueza brutal que o acompanhou por toda a carreira, Lemmy não romantizava o passado. Coffman recorda que ele via o público reagir com êxtase antes mesmo de Hendrix tocar qualquer nota, e ainda assim testemunhava momentos em que a execução não acompanhava a euforia. "Hendrix tinha suas noites ruins, e Lemmy lembrava que certos públicos 'estavam se empolgando com lixo absoluto'", escreve o jornalista, citando uma das declarações mais duras do vocalista do Motörhead: "Muitas vezes, Hendrix era lixo, a pior coisa que você já ouviu na vida. Ele desafinava, pisava no fuzz box… estava terrível, mas seguia no comando."
Lemmy Kilmister e Jimi Hendrix
Coffman ressalta que essa crítica não pretendia diminuir Hendrix, mas sim mostrar como o carisma do guitarrista transcendia qualquer falha técnica. Mesmo nos dias em que os solos saíam tortos, o fuzz explodia sem controle e a afinação escapava completamente, Hendrix continuava magnetizando plateias. Para Lemmy - e, segundo Coffman, para qualquer músico que o tenha visto de perto - isso era a prova de algo maior: alguns artistas possuem uma presença tão avassaladora que nem o erro mais evidente os abala. "Algumas pessoas simplesmente carregam isso consigo", dizia Lemmy, e Coffman concorda que a frase sintetiza o segredo do guitarrista que incendiou Woodstock e redefiniu o rock.
A matéria também mostra como essa convivência moldou o próprio Lemmy. Coffman observa que, ao notar como Hendrix comandava o palco mesmo em noites improváveis, o jovem roadie absorveu lições que, anos depois, se tornariam marcas registradas de sua persona - do microfone colocado no alto ao modo quase ritualístico de encarar o público. A admiração era real, mas o reconhecimento das fragilidades também. Para Coffman, isso torna a história "quase reconfortante", porque humaniza alguém que frequentemente é tratado como entidade mítica. Se até Hendrix tinha dias péssimos, talvez a grandeza não esteja na perfeição, mas na forma como se enfrenta a imperfeição.
No fim, Coffman conclui que o relato de Lemmy serve mais como homenagem que como crítica. Ele mostra Hendrix não como um deus inalcançável, mas como um artista extraordinário cuja força não dependia apenas da técnica - e sim daquilo que nenhum treino substitui: magnetismo, intensidade e uma relação quase espiritual com a guitarra. E, como Lemmy aprendeu assistindo de poucos metros de distância, nem mesmo "a pior coisa que você já ouviu na vida" era capaz de apagar esse brilho.
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