O cantor que, para Bono do U2, conseguiu superar até "o maior cantor da Terra"
Por Bruce William
Postado em 01 de dezembro de 2025
Morre Phil Campbell, guitarrista que integrou o Motörhead por mais de 30 anos
Quando surge o nome de Bono, muita gente lembra primeiro dos discursos em shows, das causas políticas e da aura quase religiosa que ele tenta colocar nas apresentações do U2. Mas, por trás disso tudo, sempre existiu uma obsessão antiga com a ideia de que uma voz, sozinha, pode mudar a forma como alguém enxerga a própria vida em poucos minutos. Ele cresceu ouvindo cantores muito diferentes entre si e, com o tempo, passou a comparar essas vozes não só pela técnica, mas pelo impacto que causavam.
Um dos nomes que mais o impressionaram foi Luciano Pavarotti. Bono já o apresentou em público chamando-o de "o maior cantor da Terra", encantado com a extensão vocal e a intensidade que o tenor italiano despejava em cada frase. Para ele, Pavarotti conseguia contar uma história apenas com a força do timbre, mesmo quando o público não entendia uma palavra do que estava sendo cantado. Era um tipo de poder que ia além da letra.

Ao mesmo tempo, Bono sempre citou Bob Dylan como um exemplo oposto: um cantor que não se apoia em notas longas ou em um grave poderoso, mas que faz a voz funcionar quase como uma extensão do texto. Dylan, na visão dele, não está preocupado em soar bonito; o foco é fazer com que cada sílaba carregue um peso emocional. São caminhos bem diferentes: de um lado, a potência quase operística de Pavarotti; do outro, a voz falha e cheia de arestas de Dylan, que marcou o rock de outra forma.
Dentro desse cenário, Frank Sinatra ocupa um lugar particular na cabeça de Bono. Ele já contou que ouviu versões diferentes de "My Way" e prestou atenção especial em uma gravação tardia, feita anos depois da original. Nessa leitura mais velha da música, o cantor norte-americano não soa como alguém comemorando as próprias escolhas, e sim como quem está prestando contas. A base musical é praticamente a mesma, mas o peso da interpretação muda tudo.
Comentando essa gravação, Bono foi bem claro sobre o que ouviu ali. Ele disse, conforme reproduzido na Far Out "A original é uma fanfarronice. Pavarotti é o maior cantor da Terra, mas não deveria cantar em inglês. Eu tenho uma versão sem o maior cantor da história do mundo, e é só o Frank cantando, anos depois. Mesma tonalidade, mesmo texto, mesmo arranjo, e ela é feita como um pedido de desculpas."
Na leitura de Bono, Sinatra transforma uma canção conhecida por exaltar a própria trajetória em algo bem mais exposto e vulnerável. Essa visão aproxima "My Way" de outras reinterpretações tardias que mudaram o sentido de músicas famosas, como a gravação de "Hurt" por Johnny Cash, que Bono também conhece bem. No caso do cantor de country, a letra escrita pelo Nine Inch Nails ganhou contornos de balanço de vida, quase um acerto de contas pessoal. Já no caso de Sinatra, o que chama atenção é justamente a oposição entre a fama da música como hino de autoafirmação e a forma contida com que ele a revisita anos depois, carregando na voz um cansaço que não existia na primeira versão.
Para Bono, é aí que Frank Sinatra vai além até mesmo de um gigante como Pavarotti. O tenor impressiona pela força e pela limpeza do som; o crooner norte-americano, por outro lado, pega uma letra que muita gente conhece de cor e a transforma em confissão, apenas mudando a maneira de cantar as mesmas frases. Na leitura do vocalista do U2, essa capacidade de virar a chave de uma canção com pequenos ajustes de interpretação faz de Sinatra um ponto de referência que nem mesmo "o maior cantor da Terra" conseguiu superar.
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