Como a mais autêntica banda de rock da América gravou o pior álbum feito por uma grande banda
Por Bruce William
Postado em 26 de março de 2026
Poucas bandas americanas tiveram uma arrancada tão forte quanto o Creedence Clearwater Revival. Em um espaço curtíssimo de tempo, o grupo empilhou discos e singles de impacto, virou presença constante nas paradas e construiu uma sonoridade que parecia simples, direta e quase imune a enfeites. Bruce Springsteen resumiu isso do jeito mais elogioso possível ao falar da banda no Rock and Roll Hall of Fame de 1993: para ele, o CCR era "a maior banda autêntica de rock and roll da América", além de um grupo cuja música ainda despertava inveja pelo "poder" e pela "simplicidade".
Creedence C. Revival - + Novidades

Os números ajudavam a sustentar esse tamanho. "Cosmo's Factory", lançado em 1970, passou nove semanas no topo da Billboard 200 (wikipedia) e gerou uma sequência de singles que mantiveram o Creedence no centro do rock americano. O grupo parecia funcionar como uma máquina muito rara: produtiva, popular e sem dar a impressão de estar calculando cada passo. Justamente por isso, o tombo que viria logo depois soou ainda mais espantoso.
O problema é que, por trás daquela imagem de banda coesa, a engrenagem já estava desgastada. John Fogerty era o principal compositor, cantor e líder criativo do grupo, e essa concentração de poder virou motivo de ressentimento. Quando Tom Fogerty saiu, em 1971, o Creedence já não era mais o mesmo. Para tentar manter a banda funcionando, John acabou cedendo espaço para que Stu Cook e Doug Clifford também escrevessem e cantassem no disco seguinte. Em tese, parecia um gesto de abertura. Na prática, seria o começo do fim (Far Out).
O resultado dessa fase foi "Mardi Gras", lançado em 1972. Em vez da unidade que o público estava acostumado a ouvir, o álbum soava como um grupo repartido em pedaços, sem o mesmo eixo e sem o mesmo padrão. A reação foi dura. Na resenha da Rolling Stone, Jon Landau escreveu que, "relativamente ao nível de desempenho estabelecido pelo grupo", aquele era "o pior álbum que já ouvi de uma grande banda de rock". A frase virou sentença histórica e grudou no disco para sempre.
O mais curioso é que o desastre de "Mardi Gras" não destruiu só a reputação daquele álbum específico. Ele virou símbolo daquilo que acontece quando uma banda fortíssima entra num ponto em que já não sabe mais como conviver com seu próprio sucesso. O Creedence não caiu porque perdeu talento de uma hora para outra. Caiu porque a tensão interna ficou maior que a química musical, e porque a tentativa de repartir funções chegou tarde demais para salvar o que já estava rachado.
Por isso há este contraste que continua tão chamativo até hoje. De um lado, a banda que Springsteen tratou como a mais autêntica do rock americano. Do outro, o disco que virou sinônimo de implosão artística e decepção. Entre uma coisa e outra, passaram-se poucos anos. E talvez seja isso que deixe a história ainda mais forte: o Creedence não foi uma banda que foi piorando devagar. Foi uma banda que parecia imbatível até o momento em que deixou de parecer.
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