O grande problema da versão da Marina para "Me Chama", segundo Lobão
Por Gustavo Maiato
Postado em 24 de abril de 2026
Lobão relembrou uma curiosidade sobre a versão que Marina Lima gravou para "Me Chama" e disse que, embora tenha participado da gravação como baterista, sempre enxergou um problema de interpretação na leitura da cantora para a música.
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Em entrevista ao Conexões JBFM, o artista afirmou: "A Marina gravou minhas músicas 'Me Chama' e 'Noite e Dia'. A dela é bem diferente da minha". Na sequência, explicou exatamente o que o incomodava: "O problema é que ela cantava de forma alegrinha na hora que era para ficar triste."
Segundo Lobão, o ponto central estava em um trecho específico da canção. "Na parte 'Nem sempre se vê'. Tinha que ser para trás, não para frente", observou, sugerindo que a interpretação pedia mais contenção e melancolia do que leveza.
O músico contou ainda que, naquele momento, seguiu o que era pedido em estúdio. "Mas eu era músico contratado e toquei do jeito que ela quis", disse. Depois, no entanto, registrou a música da forma como acreditava ser mais adequada: "Depois, gravei do jeito que achei que era pertinente."
A fala chama atenção porque "Me Chama" acabou se tornando um dos clássicos mais marcantes do rock brasileiro dos anos 1980, justamente por sua carga emocional. Como já havia sido resgatado em outro relato sobre a origem da faixa, a música nasceu de um período especialmente difícil da vida de Lobão, cercado por solidão, luto e sensação de abandono.
Apesar da crítica à forma como Marina conduziu a gravação, Lobão fez questão de deixar claro que a relação entre os dois permaneceu afetuosa. "A gente é muito amigo hoje. Eu a amo. Ela é minha madrinha eterna. Sou grato e amigo pelo resto da vida", declarou.
Ele foi além ao descrever a importância da cantora em sua trajetória. "Minha amiga, irmã e querida. Paixão platônica. Quase não platônica", brincou. Em seguida, reforçou o peso dela em sua formação profissional: "Ela foi fundamental na minha vida. Ela me ofereceu uma gig. Isso foi fundamental."
No mesmo depoimento, Lobão ainda recordou o convívio íntimo e bem-humorado entre os dois nos bastidores daquele período. "Ela ia lá me buscar e era meio taradinha, né? Viu que eu estava com uma mulher mais velha na época e perguntava: 'Como é que vocês transam?'", contou, em tom descontraído.
Como uma sequência de tragédias inspirou "Me Chama", clássico de Lobão
Segundo relato do jornalista Raul Ruffo, "Me Chama", um dos maiores clássicos da carreira de Lobão, nasceu de um acúmulo de dor, solidão e imagens que ficaram martelando na cabeça do músico. Ruffo contou que a faísca inicial veio de uma cena envolvendo uma "dança da chuva" frustrada, da qual Lobão teria extraído a ideia de que "nem sempre as mágicas funcionam". Essa percepção acabaria ecoando no clima melancólico da canção, especialmente na imagem de algo que deveria salvar, mas falha.
O contexto pessoal tornou tudo ainda mais pesado. Ainda de acordo com Ruffo, depois de conceber a ideia da música, Lobão enfrentou o suicídio da mãe, viu a namorada permanecer na Holanda após a morte do pai dela e voltou ao Brasil para encontrar uma vida em ruínas, sem dinheiro e com o telefone cortado. Isolado, no escuro e tomado pela saudade, ele teria transformado esse abandono em música. Foi desse cenário, nas palavras do jornalista, que surgiu o grito emocional de "Me Chama", com versos marcados por frio, distância e a sensação de que restava apenas esperar que alguém do outro lado resolvesse ligar.
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