O vocalista de heavy metal que Jack Black comparou a Pavarotti
Por Bruce William
Postado em 29 de maio de 2026
Jack Black sempre tratou o rock pesado com humor, mas não como piada vazia. O Tenacious D funciona justamente porque ele entende os códigos do gênero: a pose, o exagero, os riffs, a mitologia, os demônios, os vocalistas cantando como se estivessem narrando uma batalha medieval em cima de um vulcão. Por isso, quando ele fala de Ronnie James Dio, o elogio vem carregado de brincadeira, mas também de reverência real.
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Para Black, Dio não era apenas mais um grande cantor do heavy metal. Era alguém de outro patamar. "Dio era o mestre. Ele era o Pavarotti dos vocalistas de heavy metal. [Tinha] melodias altíssimas e um rugido de leão para combinar. Ele também foi um dos caras mais legais que eu já tive a honra de conhecer. Ninguém podia tocar o brilho dele... dentro ou fora do palco", disse, em fala resgatada pela Far Out.
A comparação com Pavarotti pode parecer exagerada para quem olha o metal de fora, mas ajuda a explicar o impacto de Dio. Ele não cantava apenas no grito, nem dependia só de atitude. Sua voz tinha controle, alcance, dramaticidade e uma clareza que atravessava guitarras muito pesadas sem perder o desenho melódico. Em uma área onde muitos vocalistas resolviam tudo na força, Dio conseguia soar poderoso e preciso ao mesmo tempo.
Isso ficou claro já no Rainbow. Ao lado de Ritchie Blackmore, Dio levou o hard rock para um terreno mais épico, com músicas como "Man on the Silver Mountain", "Stargazer" e "Gates of Babylon". O blues ainda estava por perto em muitos cantores da época, mas Dio parecia cantar vindo de outro lugar: menos bar enfumaçado, mais castelo, montanha, magia, queda, profecia e coisa grandiosa demais para caber em letra comum.
Quando entrou no Black Sabbath, a mudança ficou ainda mais evidente. Ozzy Osbourne era parte inseparável da identidade original da banda, com uma voz estranha, hipnótica e quase fantasmagórica, perfeita para aqueles riffs de Tony Iommi. Dio trouxe outra linguagem. Em "Heaven and Hell" e "Mob Rules", o Sabbath ganhou um vocalista capaz de cantar sobre o peso sem apenas acompanhar o riff. Ele criava arcos, levantava refrões e dava às músicas uma sensação mais heroica, sem tirar o lado sombrio.
Jack Black também levou essa admiração para sua própria história. Dio aparece no filme Tenacious D in The Pick of Destiny, de 2006, como uma espécie de entidade tutelar do rock, incentivando o jovem personagem de Black a deixar a vida comum e seguir para Hollywood. Era uma escolha perfeita. Se o filme precisava de alguém para abençoar uma jornada absurda em busca da grandeza roqueira, ninguém combinava mais do que Dio cantando como se estivesse entregando uma missão sagrada.
A graça é que Dio participava desse universo sem parecer deslocado. Sua carreira inteira já tinha algo de fantasia levada a sério o bastante para funcionar. "Stargazer" poderia mesmo abrir uma campanha de RPG; "Holy Diver" parece nascer de uma capa pintada para adolescente metaleiro encarar por horas; "Heaven and Hell" tem aquela frase que todo fã de Sabbath sabe cantar com a mão levantada. O exagero fazia parte do idioma, mas a voz impedia que tudo virasse caricatura.
Poucos cantores deixaram uma assinatura tão fácil de reconhecer. Dio passou por Rainbow, Black Sabbath e carreira solo sem perder o centro da própria voz, sempre com aquele jeito de transformar uma frase em cena. Jack Black, que construiu boa parte de sua comédia em cima do amor pelo rock, percebeu isso com clareza: por trás dos chifrinhos, das capas fantásticas e dos refrões gigantes, havia um cantor de verdade, daqueles que fazem até a fantasia parecer coisa séria.
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