Como o Tenacious D fez uma música sobre a maior canção do mundo
Por Bruce William
Postado em 09 de junho de 2026
"Tribute" parte de uma ideia idiota no melhor sentido possível: Jack Black e Kyle Gass não lembram mais como era a melhor música do mundo, então cantam apenas uma homenagem a ela. A graça está justamente aí. O Tenacious D não tenta escrever a canção suprema; transforma a impossibilidade dessa missão em uma balada épica, acústica, demoníaca e completamente exagerada, do jeito que só a dupla poderia entregar.
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Antes disso Black e Gass vinham do teatro. Os dois se conheceram no coletivo The Actor's Gang, em Los Angeles, e começaram a se aproximar musicalmente em uma viagem ao festival de Edimburgo, ainda antes de o Tenacious D virar uma banda de fato. A primeira composição deles, segundo a história contada pela Louder, foi uma canção séria sobre um término de relacionamento de Jack Black. Os dois acharam constrangedora demais e jogaram fora. A segunda tentativa deu bem mais certo.
Kyle Gass contou que a faísca veio tarde da noite, dentro do carro de Jack Black, enquanto os dois ouviam "One", do Metallica. Black teria dito algo como "cara, ouve essa música, é a melhor música do mundo". Gass respondeu: "Acho que deveríamos escrever a melhor música do mundo." A resposta de Jack já trazia o absurdo da coisa: "Você não pode fazer isso, não pode simplesmente escrever a melhor música do mundo!" Foi daí que veio a saída: se não dava para escrever a maior canção de todas, dava para escrever um tributo a ela.
No começo, a música ainda carregava mais explicitamente a sombra de "Stairway to Heaven". Gass admitiu que havia partes da faixa do Led Zeppelin nas primeiras versões e que aquilo era um "épico maluco" mais longo. O próprio conceito já brincava com essa pretensão de colocar o Tenacious D em diálogo com gigantes do rock, como se dois sujeitos com violões e cara de comédia pudessem encarar Metallica, Zeppelin e qualquer outro monumento do gênero.
A primeira apresentação aconteceu em uma noite de comédia organizada por David Cross, com apenas 12 pessoas na plateia. A dupla ainda nem usava oficialmente o nome Tenacious D e só tinha "Tribute" para tocar. Mesmo assim, a música funcionou. Depois, a banda começou a circular entre comediantes e músicos de Los Angeles, abrindo caminho com a ajuda de gente como Cross, Bob Odenkirk e Maynard James Keenan, que gostou da dupla e ajudou a colocá-la diante do público do Tool.
A gravação em estúdio só viria depois. O álbum de estreia do Tenacious D saiu em 2001, produzido pelos Dust Brothers, e contou com Dave Grohl na bateria em várias faixas. Gass lembrou a sensação de ver Grohl entrando para tocar nas músicas deles: "Era como seu herói atravessando a porta. Lá vai meu herói - e ele está tocando bateria na sua faixa!" Além dele, a gravação de "Tribute" teve participações como Warren Fitzgerald, dos Vandals, Page McConnell, do Phish, e Alfredo Ortiz, dos Beastie Boys.
O clipe ajudou a transformar a música em cartão de visitas. Dirigido por Liam Lynch, o vídeo mostra Black e Gass entrando em uma cabine de karaokê para gravar a canção, enquanto a história do encontro com o demônio aparece em flashback. Dave Grohl interpreta o próprio demônio, ainda toca o solo de guitarra no vídeo, e Ben Stiller aparece rapidamente em uma participação discreta. Era tudo ridículo, mas ridículo com timing, energia e uma compreensão muito boa dos códigos do rock.
Lançada como single em 2002, "Tribute" não explodiu nos Estados Unidos, mas se tornou enorme em outros lugares: chegou ao quarto lugar na Austrália, ao nono na Nova Zelândia e depois recebeu certificações de platina em mercados como Austrália e Reino Unido. O álbum de estreia do Tenacious D também acabou certificado como platina nos EUA, com a música virando uma das marcas definitivas da dupla.
Talvez a grande sacada de "Tribute" seja que ela não zomba do rock olhando de fora. Jack Black e Kyle Gass conhecem a linguagem, amam o exagero, entendem a pose e sabem que parte da beleza do estilo está justamente em tratar uma bobagem como se fosse a batalha final entre o bem e o mal. A música não é a melhor do mundo, como ela mesma faz questão de avisar. Mas, como homenagem a essa ideia absurda, acabou ficando mais duradoura do que muita canção que tentou ser grandiosa sem rir de si mesma.
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