O erro cometido pela gravadora dos Beatles que repetiu o que havia acontecido com eles
Por Bruce William
Postado em 28 de maio de 2026
Em 1962, os Beatles fizeram um teste para a Decca e saíram de lá sem contrato. A decisão virou uma das recusas mais famosas da história da música, principalmente porque, pouco depois, o grupo assinaria com a EMI e mudaria o tamanho do rock britânico. Seis anos mais tarde, a história ganhou uma ironia curiosa: os Beatles já tinham sua própria empresa, a Apple, e a gravadora ligada ao grupo também deixou passar um futuro gigante.
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O nome recusado era David Bowie. Em 1968, ele ainda estava longe de ser Ziggy Stardust, o artista camaleônico dos anos 70 ou uma referência inevitável da música pop. Tinha 21 anos, já havia lançado singles desde a adolescência e vinha de um primeiro álbum pela Deram, selo ligado à Decca, que não havia funcionado comercialmente. Aquele Bowie ainda parecia procurar uma identidade, misturando music hall, humor britânico, pequenas histórias estranhas e um tipo de composição que não indicava, de forma óbvia, o que viria depois.
A Apple Records parecia uma saída sedutora, destaca a Far Out. Não era apenas uma gravadora nova; era a gravadora dos Beatles, fundada em 1968 dentro da Apple Corps. Para qualquer jovem músico britânico da época, entrar naquele círculo significava se aproximar da marca mais poderosa da música popular. Mesmo que a estrutura da empresa fosse confusa, o brilho do nome bastava para transformar uma chance ali em promessa de futuro.
Kenneth Pitt, empresário de Bowie, tentou abrir essa porta. A experiência, segundo ele, não foi nada agradável. Em suas memórias, chamou a Apple de uma organização deplorável e reclamou do amadorismo e da grosseria que enfrentou durante os três meses em que esperou uma resposta. A chegada de Peter Asher ao cargo de A&R também irritou Pitt, que via sua contratação como fruto mais da proximidade familiar com Paul McCartney - por causa de Jane Asher - do que de uma grande credencial executiva.
A resposta veio em 15 de julho de 1968, sem muita cerimônia: "Como dissemos a você por telefone, a Apple Records não está interessada em assinar com David Bowie. A razão é que não sentimos que ele seja o que estamos procurando no momento. Obrigado pelo seu tempo." Pitt ainda ficou incomodado pelo fato de Asher nem ter assinado pessoalmente a carta, um detalhe pequeno, mas perfeito para aumentar a sensação de desprezo.
O paralelo com a Decca não significa que a Apple tivesse como prever o futuro. Assim como os executivos que recusaram os Beatles em 1962 não estavam diante da Beatlemania pronta, a Apple não recebeu em 1968 o Bowie de "Hunky Dory", "The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars" ou "Heroes". Recebeu um artista promissor, mas irregular, ainda tentando escapar da própria fase inicial. Mesmo assim, a ironia permanece: quem havia sido rejeitado antes virou dono de uma porta que também se fechou para outro nome histórico.
Bowie não precisou esperar muito para começar a mudar essa percepção. Em 1969, "Space Oddity" lhe deu o primeiro grande impacto público, e nos anos seguintes ele encontrou a sequência de personagens, sons e reinvenções que transformaria sua carreira. A Apple, por sua vez, nunca se tornou exatamente a fábrica de novos talentos que muita gente imaginava. Teve nomes importantes, sim, mas também carregou a fama de empresa meio caótica, mais brilhante no conceito do que na administração.
Talvez a recusa tenha sido melhor para Bowie do que parecia naquele momento. Um contrato com a Apple poderia ter dado prestígio imediato, mas não necessariamente a paciência e a estrutura de que ele precisava para se transformar. Ainda assim, a cena é boa demais para ignorar: os Beatles, que um dia foram considerados dispensáveis por uma gravadora, acabaram vendo sua própria gravadora dispensar David Bowie. A história do rock adora esse tipo de volta torta.
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