A clássica música do Rainbow que nem Blackmore nem Dio sabiam o que significava
Por Bruce William
Postado em 24 de maio de 2026
Ritchie Blackmore não fala sobre o nascimento do Rainbow como se tivesse seguido um plano perfeitamente desenhado. Pelo contrário. Ao lembrar o período de "Rising", lançado em 17 de maio de 1976, ele descreveu a saída do Deep Purple como uma mistura de cansaço, incômodo consigo mesmo e vontade de tocar sem transformar cada decisão em reunião de comitê. O novo box "The Temple of the King: 1975-1976" revisita justamente essa passagem, cobrindo os dois primeiros álbuns do Rainbow e trazendo shows completos de Nuremberg, Colônia e Düsseldorf.
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Blackmore disse à Ultimate Classic Rock que não acredita muito nessa conversa de "evolução". Para ele, a questão era mais simples: havia ficado desconfortável no Deep Purple e precisava sair. "Eu estava no Purple, acho, havia sete anos. E tive a sensação de que tínhamos feito tudo o que podíamos fazer dentro do nosso tipo de música. Eu notei muitos egos indo e vindo, então aquilo era cansativo. Eu só queria tocar música e não ter nenhum ego." Depois, como é típico dele, virou a lâmina contra si mesmo: "O maior ego de todos era eu, e eu estava meio enojado comigo mesmo na época."
A primeira formação do Rainbow ainda nasceu de forma meio improvisada, com músicos do Elf acompanhando Blackmore e Ronnie James Dio. O disco "Ritchie Blackmore's Rainbow", de 1975, tinha momentos fortes, mas o próprio guitarrista admite que ainda não sabia exatamente que direção queria seguir. Para Rising, ele manteve Dio e refez a banda com Cozy Powell na bateria, Jimmy Bain no baixo e Tony Carey nos teclados, chegando à formação que muita gente considera a mais forte da história do grupo.
A diferença, segundo Blackmore, foi que no segundo álbum ele já entendia melhor o que queria: algo mais pesado, mas ainda com melodia. Ele citou "Stargazer" como exemplo dessa direção, e não por acaso a faixa virou uma das peças centrais da mitologia do Rainbow. A música combina a bateria monumental de Cozy Powell, a voz dramática de Dio e a guitarra de Blackmore em um formato que não era apenas hard rock direto; havia ali uma ambição épica, quase cinematográfica, que ajudaria a definir uma linhagem inteira do metal mais teatral.
O parceiro ideal para essa fase era Dio. Blackmore disse que escrever com ele era fácil porque o vocalista era muito musical, vinha de formação com trompete em orquestra e entendia rapidamente as ideias que surgiam nos ensaios. Às vezes, Blackmore apenas cantarolava ou sussurrava uma linha no ouvido dele enquanto a banda tocava, e Dio já captava o caminho. "Ele era muito rápido para escrever letras, embora eu nunca tenha entendido muito algumas delas", brincou o guitarrista, lembrando que chegou a perguntar o que significava "Man on the Silver Mountain". A resposta de Dio teria sido simples: ele também não sabia exatamente, era algo que havia surgido no momento.
Essa leveza criativa contrastava com o ambiente que Blackmore dizia sentir no fim de sua passagem pelo Deep Purple. No Rainbow, pelo menos naquela fase inicial, não parecia haver a mesma dificuldade para colocar todos na mesma sala ou decidir o próximo passo. Ele queria tocar, Dio respondia rápido, Cozy Powell batia pesado, e a banda seguia pela estrada do hard rock sem pedir licença ao rádio britânico, que segundo Blackmore preferia coisas mais adocicadas e evitava sons considerados altos, agressivos ou pesados demais.
Blackmore também ligou aqueles shows a um sentimento de raiva compartilhada. Disse que subia ao palco movido por essa energia e percebia algo parecido no público, formado por gente comum, de jaqueta jeans, vida de expediente e frustrações próprias. Para ele, a música do Rainbow funcionava como uma válvula de escape. "Cozy estava bem bravo. Eu estava bravo e Ronnie estava bravo. Com três caras bravos, estávamos meio que empurrando para expressar nossa música", contou.
Talvez por isso "Rising" continue soando tão concentrado. São apenas seis faixas, mas o disco parece maior do que sua duração. "Tarot Woman", "Starstruck", "Stargazer" e "A Light in the Black" mostram uma banda que ainda tinha ligação com o blues e o hard rock setentista, mas já apontava para um tipo de metal mais grandioso, cheio de castelos, montanhas, fúria e melodias que Dio levaria adiante no Black Sabbath e em sua carreira solo. Meio século depois, Blackmore pode até fazer piada com a própria história, mas aquele álbum registra um raro momento em que a fuga de uma banda virou ponto de partida para outra linguagem.
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