Sérgio Serra teve carreira quase destruida pelo álcool: "Ninguém mais queria tocar comigo"
Por Gustavo Maiato
Postado em 22 de maio de 2026
Sérgio Serra, guitarrista que passou pelo Ultraje a Rigor e trabalhou com nomes importantes do rock nacional, falou de forma direta sobre como o alcoolismo afetou sua carreira. Em entrevista ao Corredor 5, o músico relembrou um episódio marcante ao lado de Cássia Eller e admitiu que, depois daquilo, ficou queimado no meio musical. "Ninguém mais queria trabalhar comigo", afirmou logo no início do relato.
Segundo Serginho, o problema se agravou durante um trabalho com Cássia Eller, em uma fase importante da cantora. Ele havia sido chamado para participar de uma proposta mais acústica, depois de ter feito uma versão de "Malandragem" em voz e violão que acabou indo para o rádio e se tornando um sucesso. A parceria cresceu, ele passou a ensaiar com Cássia e ajudou a montar o show, sugerindo músicas e trocando referências com a artista.
O ponto de ruptura aconteceu em uma apresentação na Alemanha. Serginho contou que estava misturando bebida com remédio e vivendo também um problema sentimental. "Eu acabei tomando um porre no dia do show", disse. A intenção, segundo ele, era beber apenas uma cerveja, mas a situação saiu do controle: "Depois do um, eu falei: 'Ah, não, só dois'. Aí depois do dois, o terceiro, depois do terceiro, um vinho".
O guitarrista afirmou que só se lembra de tentar permanecer acordado durante a apresentação. Para ele, a história precisava ser contada justamente por mostrar a lógica do alcoolismo. "Você percebeu que não tem o primeiro, que se tiver o primeiro vai ter o segundo?", refletiu. Em seguida, definiu a dependência como "a doença da negação", explicando que demorou muito para admitir que tinha um problema.
Serginho também falou sobre a dificuldade de se reconhecer como alcoólico. Ele contou que se enganava por não beber todos os dias e por atribuir parte do problema ao uso de remédios. "Eu queria conseguir beber normalmente", disse. "A minha mente foi fazendo de tudo." O músico ainda relacionou o processo à autossabotagem: "Você está detonando a tua vida, mas você não está vendo".
O episódio com Cássia Eller teve consequências imediatas. Depois do show problemático, ele se desculpou e fez uma boa apresentação no dia seguinte, mas a situação já estava definida. Ao voltar ao Rio, tentou conversar com Cássia no free shop e ouviu uma resposta que, só depois, entendeu como sinal de despedida. "O que eu vou fazer, Serginho? Vou chorar a noite inteira", disse ela. Dois dias depois, ele recebeu o telefonema comunicando seu desligamento.
O impacto foi profundo. Serginho disse que ficou tomado pela vergonha e passou a perceber que muitos músicos passaram a enxergá-lo como alguém pouco confiável. "Serginho maluco, não dá para confiar, é um bêbado", resumiu, ao falar da imagem que acabou deixando para parte do meio musical. Apesar disso, afirmou que hoje já se perdoou e não é mais aquela pessoa, embora reconheça que a memória do passado ainda permaneça para alguns.
Mesmo em meio a essa fase difícil, o guitarrista citou Lobão como uma figura importante em sua trajetória. Ele lembrou que, quando poucos queriam trabalhar com ele, voltou a gravar com o cantor, depois de já ter participado do disco "Cuidado", em 1988. "Foi uma das maiores alegrias da minha vida", afirmou, dizendo que era apaixonado pelo trabalho de Lobão desde o início.
Confira a entrevista completa abaixo.
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