A música dos anos sessenta em que Ozzy Osbourne ouviu o começo do metal
Por Bruce William
Postado em 23 de junho de 2026
Ozzy Osbourne passou boa parte da vida tentando se livrar de uma coroa que o mundo insistia em recolocar em sua cabeça. Para muita gente, o heavy metal começa no Black Sabbath, com aquela combinação de riffs sombrios, clima opressivo e uma Birmingham industrial que parecia perfeita para transformar blues em pesadelo elétrico. Ozzy, porém, nem sempre comprou essa explicação do jeito mais simples.
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Ele argumentava que o Sabbath não era exatamente uma banda de heavy metal no molde que o gênero ganharia depois. Havia peso, claro, e havia uma atmosfera que ninguém mais fazia daquele jeito. Mas também havia blues, jazz, psicodelia, passagens acústicas, letras sociais e até canções que fugiam completamente da caricatura satânica colada ao grupo. "Planet Caravan", por exemplo, está bem longe da imagem de uma bigorna caindo no palco.
Mesmo assim, é difícil negar que o primeiro disco do Black Sabbath, lançado em 1970, reuniu ingredientes que virariam fundamentais para o metal. A guitarra de Tony Iommi tinha uma aspereza própria, Geezer Butler escrevia letras sombrias e Ozzy cantava como se estivesse narrando algo que ninguém queria ver de perto. O curioso é que, quando ele falou sobre a origem daquela sensação, não voltou ao próprio catálogo.
Para Ozzy, uma das faíscas estava em "You Really Got Me", single lançado pelos Kinks em 1964. A música não nasceu como heavy metal, e Ray Davies certamente não parecia interessado em fundar uma escola de riffs pesados. Mas a guitarra de Dave Davies, com aquele som rasgado e nervoso, abriu uma porta que muita gente atravessaria depois.
Ozzy explicou essa reação ao lembrar o impacto físico que a faixa teve nele. "O heavy metal nunca foi realmente aceito, mas tem um público enorme. A única coisa de que consigo me lembrar foi quando os Kinks lançaram 'You Really Got Me'. Eu senti uma coisinha engraçada e arrepiante na espinha. E aquilo foi o começo para mim. Eu queria fazer parte de algo que criasse aquele arrepio. É ótimo."
A lembrança de Ozzy tira o nascimento do metal de uma certidão oficial e coloca no lugar certo: o corpo. Antes de existir nome, movimento, estética, jaqueta, subgênero e discussão infinita de fórum, havia um som de guitarra provocando uma reação. Aquele riff dos Kinks não precisava anunciar "agora começa o metal". Bastava causar o arrepio.
"You Really Got Me" ainda era uma canção curta, direta, com estrutura pop e cara de single dos anos 1960, bem lembra a Far Out. Mas o riff tinha uma agressividade diferente para a época. Não era virtuosismo, nem peso calculado; era urgência. Por isso a música acabou servindo de modelo para bandas de garagem, roqueiros mais pesados e, anos depois, para o Van Halen apresentar a faixa a outra geração com ainda mais músculo.
Ray Davies seguiria por caminhos bem mais sofisticados, especialmente em discos como "The Kinks Are the Village Green Preservation Society". Os Kinks não ficaram presos à função de "proto-metal" e nunca couberam nessa caixinha. Ainda assim, aquele momento de 1964 já tinha algo que futuros músicos pesados reconheceriam de longe: uma guitarra que parecia rosnar antes mesmo de o rock saber o que faria com esse rosnado.
A percepção de Ozzy faz sentido justamente por não depender de uma classificação rígida. "You Really Got Me" não é metal como o Sabbath seria alguns anos depois. Mas contém uma semente importante: o riff como força central, o impacto imediato, a sensação de perigo entrando numa música pop. Para um garoto que queria participar de algo capaz de dar arrepio, aquilo bastou.
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