Geezer Butler sobre Ozzy: "o maior frontman, cantor e personalidade da música"
Por João Renato Alves
Postado em 24 de julho de 2026
Na semana em que a morte de Ozzy Osbourne completou um ano, Geezer Butler publicou um texto em homenagem ao colega e amigo na edição digital da revista britânica Kerrang! O baixista do Black Sabbath traçou uma linha do tempo desde que os dois se conheceram, além de exaltar as qualidades do vocalista, tanto no profissional quanto no pessoal, como diria Fausto Silva.
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"Meu primeiro encontro de verdade com o Ozzy foi quando ele apareceu na minha porta, depois de eu ter respondido a um bilhete dele - 'Ozzy Zig precisa de um trabalho' - que estava afixado em uma loja de música local. Isso foi há 57 anos, em 1968. Ele estava vestindo o macacão de trabalho marrom do pai, carregava uma escova de limpar chaminé no ombro, um sapato preso a uma guia de cachorro e estava descalço. Depois que parei de rir, perguntei o que queria e ele disse que tinha vindo para entrar na minha banda. Expliquei que tipo de música fazíamos, ele disse 'Vamos nessa' e foi só isso. Ele me fez morrer de rir desde então. Tínhamos o mesmo senso de humor peculiar, o que parecia nos aproximar tanto como amigos quanto como colegas de trabalho.
Eu o via por Aston de vez em quando, mas nunca imaginei que acabaríamos sendo amigos, já que ele era o que nós, da turma dos cabelos compridos, chamávamos de 'mohair' - ou seja, um cara de cabeça quase raspada, que usava ternos e curtia soul music. Já eu curtia Cream, Hendrix, Mayall e hard rock, e tinha cabelo que passava dos ombros. Mas nos tornamos tão próximos quanto dois caras heterossexuais poderiam ser.
Quando nos juntamos aos também moradores de Aston, Tony Iommi e Bill Ward, o círculo se fechou. Todos nós vínhamos de origens parecidas e conhecíamos o lado mais duro da vida, o que ajudou a moldar nossa música. Ozzy era único na forma como vocalizava os riffs pesados do Sabbath e fazia minhas letras soarem como se viessem da própria alma. Um talento incrível. Ele também era um mestre nas músicas mais lentas, tipo balada, como 'Changes' e 'Planet Caravan'. Ninguém mais conseguia soar tão ameaçador nas músicas pesadas e, ao mesmo tempo, tão suave nas mais lentas.
Em meio a todo o sucesso, tanto com o Sabbath quanto na carreira solo, ele sempre manteve os pés no chão. Nunca esqueceu sua origem operária, nunca desenvolveu o ego comum a muitos músicos bem-sucedidos e, nos anos 70, sempre guardava um bom dinheiro em espécie, para o caso de tudo dar errado. Ele não tinha noção de quão grandioso era e de quanto as pessoas o amavam. A síndrome do impostor pesava muito sobre ele, apesar de sua imagem de 'homem selvagem' - Ozzy era uma pessoa muito frágil na fase final do Sabbath nos anos 70. Mas isso mudou quando ele conheceu e se casou com Sharon, que sabia exatamente do que ele precisava para sua autoestima e o fez acreditar em si mesmo, guiando-o rumo a um enorme sucesso em carreira solo.
Quando fui convidado para participar do show 'Back To The Beginning' no Villa Park, é claro que aceitei. Eu sabia que Ozzy estava enfrentando problemas, mas não estava preparado para ver o quanto sua saúde havia se deteriorado quando nos reunimos para os ensaios. Ele estava determinado a terminar onde tudo começou: de volta a Aston. Os ensaios foram bastante exaustivos para ele, mas ele não reclamou nenhuma vez. Ele estava feliz por estar de volta com seus velhos amigos e colegas: Tony, Bill e eu.
O show final foi excelente. A resposta incrível das maiores bandas e músicos de rock e metal foi emocionante - eles vieram para apoiar Ozzy e suas causas beneficentes, para prestar uma última homenagem à voz do metal. Ozzy deu o melhor de si; foi preciso muita coragem e garra para realizar sua última apresentação, sentado em seu trono. Quando ele tentou se levantar, meus olhos se encheram de lágrimas, mas ele se entregou totalmente. Ele amava seus fãs, e eles certamente o amavam. Após o show, o camarim estava absolutamente lotado de admiradores, parentes, amigos e outros músicos. Não consegui me despedir de Ozzy nem de Bill, pois o ambiente estava caótico. Mal sabia eu que a próxima vez que veria Ozzy seria em sua casa em Buckinghamshire, dentro do caixão.
A imensa demonstração de pesar, amor e homenagens a Ozzy foi incrível - uma verdadeira despedida para o maior frontman, cantor e personalidade da música. O banco do Sabbath em Birmingham tornou-se um local de peregrinação, milhares de pessoas lotaram a Broad Street para prestar suas homenagens durante o cortejo fúnebre. É claro que Ozzy pode ter partido fisicamente, mas seu legado viverá para sempre. Ele trouxe tanta felicidade aos seus fãs, levou esperança a muitos e tornou nossas vidas um pouco mais alegres. O Príncipe das Trevas, mas, para mim, o Príncipe do Riso e da Amizade. Vida longa a Ozzy!"
Além da parceria no Black Sabbath, Geezer também integrou a banda solo de Ozzy em duas ocasiões, no final dos anos 1980 e meados dos 1990. Na segunda vez, os dois passaram pelo Brasil juntos, durante o Monsters of Rock 1995.
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