O álbum dos anos setenta que tornou possível surgir o Rage Against The Machine
Por Bruce William
Postado em 19 de junho de 2026
Tom Morello amava rock antes de imaginar que poderia fazer parte dele. Quando criança, viu o Kiss em Chicago e saiu impressionado com aquele espetáculo enorme, cheio de personagens e luzes. Também tinha pôsteres do Led Zeppelin no quarto. O problema era que tudo aquilo parecia pertencer a outro planeta.
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Para um garoto de Illinois, Jimmy Page morando num castelo e Paul Stanley comandando multidões não pareciam modelos acessíveis. Eram ídolos, não um convite. Morello podia admirar aquela grandeza, mas não se via naturalmente dentro dela. Faltava uma porta de entrada menos distante.
Essa porta apareceu com "Never Mind the Bollocks, Here's the Sex Pistols", lançado em 1977. Morello só ouviria o disco alguns anos depois, já em 1981, dentro do Honda Accord de sua mãe, parado na casa de um amigo. Colocou a fita no toca-cassete e não saiu do carro até o álbum terminar.
O impacto foi imediato. "Foi minha revelação punk rock, o momento em que os céus se abrem e você pensa: 'Ah, muita daquela música de que gostei até agora já não é tão importante assim'", disse ele, em fala replicada na Far Out. "E aquilo também tornava tudo acessível. Eu não conseguia tocar como Jimmy Page e não tinha esperança de morar num castelo num lago escocês, mas eu podia fazer isso ainda hoje... e fiz."
A diferença estava menos na técnica do Sex Pistols e mais na permissão que o disco parecia conceder. A guitarra de Steve Jones não soava como um exercício de virtuosismo. Johnny Rotten não cantava para agradar. As músicas vinham curtas, agressivas e cheias de desprezo por qualquer ideia de bom comportamento musical.
Morello levou a mensagem ao pé da letra. Pouco depois de ouvir o álbum, apareceu no clube de teatro da escola e anunciou que uma banda estava sendo formada. Ele seria o guitarrista. Havia um detalhe quase cômico: a guitarra existia, mas estava guardada havia anos no armário, praticamente sem uso.
A banda se chamaria Electric Sheep e teria também Adam Jones, futuro guitarrista do Tool. Morello lembraria que eles faziam músicas próprias não por alguma superioridade artística, mas porque não eram bons o bastante para tocar covers. O som, segundo ele, ficava entre Devo, The Clash e Sex Pistols.
O Rage Against the Machine ainda demoraria anos para surgir, e musicalmente ficaria longe de uma cópia punk britânica. Havia funk, rap, metal, riffs pesados e uma arquitetura muito particular. Mas a semente estava naquele choque: a percepção de que música podia ser arma, postura e urgência, mesmo sem parecer inalcançável.
Sem "Never Mind the Bollocks", talvez Morello continuasse apenas admirando o rock de longe por mais tempo. Depois daquela fita, ele entendeu que não precisava esperar virar Jimmy Page para começar. Bastava abrir o armário, tirar a guitarra de lá e fazer barulho antes que a coragem esfriasse.
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