Ürütaü - Trabalho de estreia, qualidade de veteranos
Resenha - Transmutação - Ürütaü
Por Marcelo R.
Postado em 19 de agosto de 2026
Retornar ao espaço dedicado ao heavy metal nacional é como um aconchegante regresso ao lar. Afinal, voltar os olhos à cena tupiniquim em busca de tesouros injustamente recônditos, soterrados nos poros do submundo do underground, é tarefa à qual devoto acentuada paixão. A música pesada desta terra de pindorama é fonte de pessoal inspiração, cuja seiva regozija, a um só tempo, dois dos meus maiores prazeres: música e escrita.
E é nesse contexto que, debruçando-me novamente sobre o cenário brasileiro, decidi reservar um pouco de tinta para projetar este achado, que emergiu de recente escavação: Ürütaü – Transmutação.

Ürütaü – do tupi, ave fantasma – é um pássaro com hábitos noturnos típico da América do Sul. Os contornos reverberados de seu fantasmagórico canto renderam-lhe, inclusive, os justos apelidos de mãe-da-lua e ave-fantasma.
Sob essa influência poderosamente imagética, o power trio paulista – formado por Ale Gilliard (vocal, baixo e maracás), Lari Death (guitarra, backing vocal e maracás) e J. L. Índio (bateria, flautas e maracás) – batizou sua empreitada musical. E, logo na linha de largada, o conjunto fez bonito: o material de estreia, intitulado Transmutação, entregou qualidade de veteranos.
Os elementos místicos, enigmáticos e obscuros do halo que circunda a "ave talismã" da banda dão pistas de sua proposta musical e lírica.
A viga mestra de Ürütaü, como já se antevê, finca raízes no doom metal tradicional, ao qual, porém, o conjunto incorporou elementos de cultura nacional.
Transmutação resultou de fértil instrumentação, fruto da agregação de recursos como flautas e maracás, inusuais ao heavy metal, mas que saudavelmente amplificaram o dinamismo do debut. E esses elementos também atenderam satisfatoriamente à proposta lírica da banda, evocativa da cultura dos povos originários e da cultura nacional.
Com vocais limpos femininos e letras em português, Ürütaü performou, em Transmutação, uma sonoridade cadenciada, obscura e densa.
Calcada em ritmos predominantemente lentos e riffs de guitarra marcantemente pesados – à la Black Sabbath antigo e Candlemass –, a atmosfera tétrica do trabalho de estreia potencializou-se com os paralisantes vocais fantasmagóricos de Ale Gilliard... daqueles de gelar a espinha.
E, nos ingredientes desse caldeirão, notabilizaram-se ainda os abundantes solos de guitarra, que permearam toda a audição (a exemplo de Psicose Sabática, apogeu de Transmutação e minha faixa favorita desse trabalho debutante).
Para referenciar, em síntese ao que foi exposto até aqui: Ürütaü soa como uma espécie de prima-irmã muito mais pesada de Coven e de Lucifer. Um encontro, talvez, desses conjuntos com Black Sabbath antigo e Candlemass (aparentemente, a principal fonte de inspiração de Ürütaü), mas com uma identidade marcantemente própria, fruto de ponderada experimentação. Nada aqui, portanto, soa remotamente genérico, clichê ou lugar-comum.
E é nessa tremeluzente aclimatação de cores frio-acinzentadas que a audição se desenvolve, irrompida com a certeira abertura de Canto da Morte, um compilado de toda a paisagem sonora até aqui pincelada em sobrevoo panorâmico: riffs pesados, andamento cadenciado e atmosfera fantasmagórica (inclusive com certas nuances esotéricas).
Nessa mesma linha, destacam-se outras composições com idênticas virtudes, a exemplo de Ticê, Canibais do Tempo e Psicose Sabática.
Necrochorume entrega, por sua vez, um particular momento de vigorosa aceleração rítmica, proporcionando ao ouvinte enérgico deleite, em passadas mais frenéticas. Essa é a canção que mais se afeiçoa à linha tradicional de heavy metal, marcando um sadio contraponto numa audição compassada, no geral, ao deleite de um sabor mais lento/cadenciado.
As letras, baseadas na cultura e no folclore nacionais, bem como em contundentes críticas sociais, merecem atenção especial e, assim, ênfase individual. Pindorama, que encerra Transmutação, é exemplo especialmente ilustrativo dessa faceta: ponto de inflexão na audição – com seu clima recitativo desenvolvido sob a narração de Vagner Fiist –, a faixa é um potente manifesto em defesa dos povos originários.
Aliás, a título de curiosidade: Pindorama é o nome atribuído por povos indígenas falantes de línguas tupi-guarani ao território que hoje corresponde ao Brasil. Essa alusão é um reforço ao cunho fortemente cultural e social dessa faixa, o que, aliás, reverbera pelos versos de todo o álbum.
A arte gráfica é outro ponto de destaque, combinando, pictoricamente, obscuros e agressivos elementos de natureza desenvolvidos a partir da figura central da ave que tematiza o conjunto.
A produção, excelentemente equalizada e com um quê setentista, captou as nuances pesado-espectrais da proposta musical do trio, denotando capricho e profissionalismo raramente testemunhados em álbuns de estreia. Outro ponto de destaque, portanto.
Em síntese, Transmutação reflete estreia madura, que estende tapetes a um power trio com enorme potencial. Com vocais fantasmagóricos, riffs hipnóticos, baixo pulsante, bases pesadas, compassos moderadamente lentos e abundantes solos de guitarra, a audição ornamenta-se com arranjos cujas dimensões resgatam amplamente a memória cultural, histórica e mítica dos povos originários.
Apadrinhado por consistentes influências, mas com uma identidade acentuadamente particular, Ürütaü apresentou-se ao mundo, já na largada, com um trabalho sólido, coeso e dinâmico.
Transmutação é, portanto, prova autoexplicativa do meu argumento, já desgastado por tão insistente repetição: o metal nacional é o melhor do mundo.
Subjetivismos à parte, Ürütaü integra-se ao mosaico que solidifica, com robustez e dignidade, o valor da cena underground desta terra de Pindorama. Um tesouro que merece brilhar – dessa vez, não apenas com luz tremeluzente – para além de cercanias recônditas.
Que Ürütaü, ave-fantasma, mãe-da-lua, alce-se a voos cada vez maiores...
Faixas:
Canto da morte
Ticê
Necrochorume
Canibais do Tempo
Psicose Sabática
Mapinguari
Pindorama
Formação:
Ale Gilliard: vocal, baixo e maracás
Lari Death: guitarra, vocal (backing) e maracás
J. L. Índio: bateria, flautas e maracás
Participação especial:
Vagner Fiist: narrativa na faixa Pindorama
Matéria originalmente publicada em Rock Show.
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Tony Iommi é condecorado membro da Ordem do Império Britânico
Fernanda Lira explica por que Crypta escolheu Victoria Villarreal e não Helena Nagagata
Baterista do Raven é chamado às pressas para substituir Charlie Benante em show do Anthrax
A lenda nordestina que é o Van Halen brasileiro, segundo Rafael Bittencourt
Os bastidores da saída de Fabio Lione do Angra, segundo Marcelo Barbosa
Após sair do I Am Morbid, Pete Sandoval anuncia que David Vincent deixa o Terrorizer
De Megadeth a Bruce Springsteen, as 10 músicas mais sombrias da história do rock
Rudy Sarzo acredita que morte de Randy Rhoads não foi acidente: "Piloto sabia que ia fazer"
Sonata Arctica cancela show no Uruguai em cima da hora
Organizadores do The Town falam sobre vinda de Marilyn Manson em 2027
Por que Tony Iommi acha que grandes músicos não conseguiam tocar Black Sabbath direito
A banda idolatrada por Eddie Vedder que nunca tocou no Brasil: "Ele era fanático"
Livro que retrata o Big Four do thrash metal será lançado em novembro
O impagável apelido do novo penteado de James Hetfield: "Alex Skolnick invertido"

O Julgamento do Metal Clássico: Rock Justice impressiona na estreia com "You've Been Served"
Carach Angren - O horror dentro da caixa em "Dance and Laugh Amongst the Rotten"
Animals (1977) - quando o Pink FLoyd resolveu chamar todo mundo de bicho
Moonspell - A grandiosidade do Heavy Metal e da música erudita em "Opus Diabolicum"
Resenha: "Hard-Fi" - Rosa Tattooada (2026)
Depois da ressurreição, Marilyn Manson declara vingança em novo álbum
O álbum pesado e melancólico do Soilwork que ajudou a salvar a minha vida
Iron Maiden: Grata surpresa e despedida perfeita do gigante
Death: Responsáveis por elevar a música pesada a novo nível


