A música do Led Zeppelin que Jimmy Page disse ter escrito sozinho, mas talvez não
Por Bruce William
Postado em 17 de junho de 2026
"Tangerine" é uma das faixas mais delicadas do Led Zeppelin III. Em meio ao violão, à guitarra pedal steel e à atmosfera rural que marcou parte do disco, a música parece quase uma lembrança guardada por tempo demais. Jimmy Page dizia que ela havia surgido de uma experiência pessoal bastante antiga.
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"Eu a escrevi depois de uma velha turbulência emocional e apenas mudei algumas palavras para a nova versão", contou o guitarrista na biografia oficial do Led Zeppelin, em fala replicada na Far Out. O crédito de composição ficou exclusivamente em seu nome, algo raro dentro do catálogo da banda, normalmente dividido entre Page, Robert Plant, John Paul Jones e John Bonham em combinações diferentes.
A história de "Tangerine", porém, começou antes da formação do Zeppelin. No período final dos Yardbirds, Page participou da gravação de uma canção chamada "Knowing That I'm Losing You". A progressão de acordes e a estrutura instrumental já antecipavam claramente o que apareceria alguns anos depois no terceiro álbum de sua nova banda.
Naquela gravação dos Yardbirds, Keith Relf cantava uma letra própria. Quando Page retomou a música para o Led Zeppelin, substituiu boa parte do texto e a apresentou sob outro título. O guitarrista sustentava que as palavras de "Tangerine" eram suas e que apenas havia ajustado uma composição antiga para o novo contexto.
Ex-integrantes dos Yardbirds ofereceram outra versão. Segundo eles, alguns trechos escritos por Relf teriam sobrevivido na letra gravada pelo Zeppelin, o que levantaria a possibilidade de que o vocalista também merecesse crédito. A discussão ganhou novo combustível em 2017, quando Page preparou a coletânea Yardbirds '68.
"Knowing That I'm Losing You" entrou no lançamento, mas sem os vocais de Relf. A decisão impediu que o público ouvisse oficialmente a letra daquela versão e comparasse as duas gravações com facilidade. Para os desconfiados, a ausência parecia conveniente. Page não reconheceu que tivesse removido a voz para esconder qualquer semelhança.
O caso lembra outras disputas associadas ao repertório do Led Zeppelin, embora cada uma tenha circunstâncias próprias. "Dazed and Confused", outra composição originalmente creditada apenas a Page, já existia como música de Jake Holmes antes de ganhar novos arranjos nos Yardbirds e depois no Zeppelin. Holmes processou o guitarrista, e lançamentos posteriores passaram a mencionar que a faixa havia sido inspirada em sua obra.
Em "Tangerine", não houve uma conclusão jurídica semelhante. O que existe é uma gravação anterior, depoimentos conflitantes e uma versão sem voz que tornou a apuração ainda mais nebulosa. A música permaneceu assinada somente por Page e continuou ocupando um lugar especial no catálogo do Led Zeppelin.
Talvez a "velha turbulência emocional" mencionada por ele fosse inteiramente pessoal. Talvez parte dela também tenha passado pela caneta de Keith Relf. Mais de meio século depois, "Tangerine" ainda soa cristalina; sua autoria é que permanece coberta por uma névoa difícil de dissipar.
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