A música que fracassou em inglês e virou um hit nacional dos anos 1960
Por Gustavo Maiato
Postado em 25 de setembro de 2026
A trajetória de "O Calhambeque", versão de Roberto e Erasmo Carlos para uma canção country que não emplacou nem nos Estados Unidos, virou tema de vídeo publicado pelo canal do Júlio Ettore. Faixa sete do álbum "É Proibido Fumar", lançado pela CBS em agosto de 1964, a música se tornou o maior sucesso de Roberto naquele ano. Ela também ajudou a transformar o cantor, até então recusado por quase todas as gravadoras do País, em nome conhecido em todo o Brasil.

"O Roberto Carlos estava no lugar certo e na hora certa, tomou o lugar de outro cantor, entre aspas, e só assim conseguiu virar um cantor de sucesso, porque ninguém acreditava no cara. Mas ele também não seria absolutamente nada sem o Erasmo", resume o apresentador logo na abertura. Antes do estouro, o capixaba de Cachoeiro de Itapemirim passou três anos colecionando portas fechadas. Foi demitido da Polydor e rejeitado por Chantecler, Continental, RCA Victor, Odeon, RGE, Copacabana e Philips, até que o padrinho Carlos Imperial conseguiu um contrato com a CBS.
A vaga surgiu quando Sérgio Murilo, então o segundo nome do rock nacional, entrou em atrito com a direção da gravadora e foi deixado de lado. A CBS decidiu apostar no novato, e Erasmo, especialista em adaptar sucessos americanos, entregou a versão de "Splish Splash", de Bobby Darin. O compacto foi bem no Rio e no Nordeste, mas não pegou em São Paulo. Só com "Parei na Contramão", primeira composição própria da dupla a fazer sucesso, Roberto chegou ao mercado paulista, mesmo ainda trabalhando como funcionário público.
Roberto Carlos e o hit "O Calhambeque"
A origem de "O Calhambeque" está na garimpagem de Erasmo. Segundo a biografia "Roberto Carlos em Detalhes", ele passava tardes vasculhando o acervo de discos importados de uma editora musical carioca, onde encontrou "Road Hog", lançada em 1962 pelo cantor americano John D. Loudermilk. A letra original zombava dos policiais de Nashville, mas o compositor não tinha como saber disso. "O interessante, cara, é que o Erasmo não falava inglês. Ele ouvia as músicas e ficava tentando imaginar do que que elas falavam", conta o apresentador. Guiado pela buzina da introdução, Erasmo imaginou a história de um rapaz que troca seu Cadillac por um carro velho.
Roberto comprou a ideia na hora. "Tive a intuição de que aquele carro antigo poderia empolgar a juventude. Se a lambreta era motivo de sensação, por que o calhambeque não seria?", afirmou o cantor, em declaração reproduzida pela biografia. Nas sessões de junho de 1964, já respeitado na CBS, ele exigiu um arranjo fiel ao original, conduzido por violão, com introdução falada. Como a gravadora não tinha efeitos sonoros em catálogo, o técnico Eugênio de Carvalho precisou pedir o som da buzina a um sonoplasta da Rádio Nacional. O detalhe, porém, foi removido nos relançamentos disponíveis hoje no streaming.
O que mais deu trabalho foi a risada perto do fim da faixa. Perfeccionista, Roberto regravou o trecho uma vez após a outra, numa época em que corrigir erros exigia cortar a fita com gilete no ponto exato. Na 18ª tentativa, desistiu e mandou usar a segunda. O esforço compensou: a música só não chegou ao topo porque Giane dominava as paradas com "Dominique", mas o compacto liderou a lista dos mais vendidos em São Paulo em outubro de 1964, à frente de "Twist and Shout". Em Curitiba, fãs chegaram a quebrar a vitrine de uma loja para ver o cantor de perto.
Erasmo, por sua vez, seguia à sombra do parceiro. Também recusado por várias gravadoras, só em 1964 lançou o primeiro compacto, pela RGE, com duas parcerias com Roberto: "Jacaré" e "Terror dos Namorados". No ano seguinte, veio o primeiro LP, puxado por "Festa de Arromba", e a virada definitiva. Com a aposentadoria precoce de Celly Campello, Roberto, Erasmo e Wanderléa passaram a comandar o programa "Jovem Guarda" na TV Record, que daria nome a todo um movimento.
Confira o vídeo completo abaixo.
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