A música nua e crua dos anos sessenta que mudou a vida de Jack White
Por Bruce William
Postado em 12 de junho de 2026
Jack White sempre tratou influência como parte natural da criação. Para ele, nenhum músico nasce num vácuo, inventando tudo sozinho. O trabalho começa quando alguém escuta quem veio antes, entende aquela tradição e encontra uma forma própria de continuar a conversa. No caso do White Stripes, essa mistura de passado e presente era visível desde o começo.
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Blues, garage rock, country, punk e folk apareciam juntos nas músicas da dupla, mas sem a sensação de simples cópia. Jack White parecia interessado em usar essas referências como matéria-prima, não como fantasia de época. Foi assim que ele conseguiu soar antigo e novo ao mesmo tempo, puxando elementos de décadas anteriores para uma banda que acabou se tornando uma das mais importantes do início dos anos 2000.
Essa preocupação com tradição apareceu quando o White Stripes foi incluído no Rock and Roll Hall of Fame. Durante o discurso, relembra a Far Out, Jack citou uma longa lista de artistas e bandas que ajudaram a formar seu gosto, passando por Loretta Lynn, Fugazi, Misfits, Jethro Tull, The Troggs, Emerson, Lake & Palmer, Merle Haggard, The Hives, Them, The Damned e Captain Beefheart. Para ele, reconhecer essas ligações era quase uma obrigação.
"É importante que qualquer pessoa que se chame de músico saiba quem veio antes", explicou. "Como compositor, eu queria entrar para essa família, entrar para essa tradição, e não fingir que sou tão bom e original que existo num vácuo e aquelas pessoas não significam nada para mim."
A relação de Jack White com a música também foi construída pelo sentimento de estar meio fora do lugar. Ele cresceu em um bairro de Detroit onde o hip-hop tinha presença forte, enquanto seu interesse seguia para o blues e o rock. Não gostar das mesmas coisas que os outros podia gerar isolamento, mas também acabou ajudando a formar a independência que mais tarde viraria uma das características de sua carreira.
Outro passo importante aconteceu quando começou a trabalhar na oficina de estofamento de um vizinho chamado Brian. Enquanto os dois trabalhavam, Brian colocava discos de artistas como Cramps e Velvet Underground. O ambiente funcionou como uma extensão de sua formação musical, apresentando sons que dificilmente chegariam até ele pelos caminhos mais comuns.
Jack já havia ouvido Robert Johnson e gostava do que encontrava no blues, mas a descoberta decisiva veio com "Grinnin' in Your Face", gravada por Son House em 1965 ((youtube). A música é praticamente desarmada: voz, palmas e uma interpretação que não depende de arranjo elaborado para causar impacto. Para White, aquele registro foi um momento transformador.
"Foi aquilo para mim", disse ele. A canção, segundo Jack, representava tudo que havia de essencial no rock and roll. A mensagem também atingiu uma questão que o acompanhava havia muito tempo: "Não se importe com o que as outras pessoas estão dizendo sobre você, com o que elas pensam. Era aquilo contra o que eu havia lutado durante toda a minha vida. Eu nunca gostei da mesma música que os outros gostavam."
"Grinnin' in Your Face" não transformou Jack White apenas por sua sonoridade. A música também lhe deu uma espécie de confirmação. Ser estranho, seguir outro gosto e não procurar aprovação poderiam deixar de ser obstáculos e virar uma forma de força. A simplicidade de Son House mostrava que uma gravação não precisava de acabamento, excesso ou tecnologia para carregar autoridade.
Anos depois, essa lição continuaria aparecendo no White Stripes. O duo podia soar enorme com poucos elementos, usando guitarra, bateria, voz e espaço como se não faltasse nada. A descoberta de Son House ajudou Jack White a perceber que personalidade pesa mais do que polimento - e que uma música capaz de dizer algo verdadeiro pode atravessar décadas sem pedir licença a ninguém.
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