O guitarrista brasileiro que estava anos-luz à frente dos outros, segundo Liminha
Por Gustavo Maiato
Postado em 07 de agosto de 2026
Muito antes de equipamentos sofisticados se tornarem facilmente acessíveis no Brasil, músicos precisavam recorrer à criatividade para conseguir sons que ouviam nos discos estrangeiros. Dentro desse cenário surgiu um guitarrista que, na avaliação de Liminha, estava em outro nível em relação aos demais instrumentistas de sua geração. Trata-se de Sérgio Dias, dos Mutantes.
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Liminha foi enfático ao recordar a habilidade do antigo companheiro durante entrevista ao Roland Talks, podcast apresentado por Charles Gavin. "O Sérgio era anos-luz na frente de todos os guitarristas", afirmou. Questionado se a diferença realmente era tão grande, não amenizou a avaliação: "Anos-luz, cara. Todo mundo era perna de pau perto dele".
A admiração começou antes mesmo de Liminha entrar para os Mutantes. Os dois se conheceram ainda muito jovens, quando Sérgio apareceu para tocar com uma banda da qual Liminha participava. O futuro produtor lembra especialmente do impacto causado pelo equipamento do guitarrista. Sérgio chegou carregando um estojo de Fender e revelou uma Jaguar azul metálica, instrumento praticamente inacessível no Brasil daquela época.
O equipamento impressionava, mas a maneira de tocar ainda mais. Liminha recordou que Sérgio chegou a executar passagens apenas com a mão esquerda enquanto usava a outra para coçar a cabeça, numa demonstração descontraída de domínio do instrumento. "Exibindo, humilhando mesmo", brincou. Naquela época, segundo ele, Sérgio já conseguia tocar trechos tecnicamente complicados, incluindo a "Marcha Turca", de Mozart.
Curiosamente, foi naquele encontro que Sérgio deu ao futuro baixista dos Mutantes um conselho aparentemente simples que transformaria sua maneira de tocar guitarra. Ele percebeu que Liminha palhetava todas as notas na mesma direção. "Você toca tudo para baixo. Você tem que tocar uma para baixo e uma para cima que você vai dobrar sua velocidade", recordou Liminha sobre a orientação recebida.
O resultado, segundo ele, foi imediato. Com uma guitarra melhor regulada e utilizando a técnica ensinada por Sérgio, Liminha afirma que evoluiu rapidamente. "Esses toques que o Sérgio me deu fizeram com que eu começasse a tocar muito bem da noite pro dia", contou. A relação entre os dois posteriormente seria fundamental para sua aproximação com os Mutantes, banda que Liminha integraria a partir do final dos anos 1960.
Para Liminha, entretanto, a genialidade ligada aos instrumentos dos Mutantes não terminava em Sérgio. Ele também destacou Cláudio César Dias Baptista, irmão do guitarrista e responsável pela criação de equipamentos utilizados pelo grupo. Uma das guitarras construídas para Sérgio possuía a própria distorção incorporada, evitando a necessidade de montar pedais durante rápidas apresentações em programas de televisão.
O projeto teria chegado a um nível ainda mais incomum. Segundo Liminha, Cláudio César instalou seis circuitos de distorção no instrumento, um dedicado a cada corda, buscando conseguir um som contínuo. "É um negócio, só coisa de louco. Eu não sei como é que ele chegava nessas coisas naquela época, imagina sem internet", afirmou. Ao falar sobre o responsável pelas invenções, Liminha resumiu sua avaliação em poucas palavras: "Cláudio César é gênio".
Confira a entrevista completa abaixo.
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