A traição do Pink Floyd que Roger Waters engoliu a seco e teve que aceitar
Por Bruce William
Postado em 12 de setembro de 2026
Roger Waters nunca engoliu completamente a decisão de David Gilmour e Nick Mason de continuar usando o nome Pink Floyd depois de sua saída. Mas havia uma coisa que o incomodava ainda mais do que os discos gravados sem ele: assistir à banda levar para gigantescos estádios justamente uma obra criada, em parte, como crítica àquele tipo de espetáculo.
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Em 1992, enquanto promovia "Amused to Death", Waters resumiu o sentimento de forma pesada. "Quando aquelas pessoas saíram por aí se chamando Pink Floyd, aquilo me deixou muito, muito deprimido", afirmou para a Classic Rock. "Eu escrevi 'The Wall' como um ataque ao rock de estádio, e lá estava 'Pink Floyd' ganhando dinheiro tocando aquilo em estádios."
A conclusão veio sem tentativa de conciliação: "Bem, isso é algo com que eles têm que viver. Eles têm que carregar a cruz dessa traição."
A irritação de Waters tinha uma lógica própria. Desde o fim dos anos 1970, ele vinha demonstrando forte desconforto com a transformação do rock em espetáculo gigantesco, impessoal e cada vez mais dependente de produção visual. "The Wall" nasceu também desse incômodo, levando ao extremo a ideia de isolamento entre artista e plateia.
Enquanto isso, o Pink Floyd pós-Waters fez justamente o caminho oposto. A turnê de "A Momentary Lapse of Reason" colocou Gilmour, Mason e Richard Wright novamente diante de multidões, com shows enormes e repertório que incluía clássicos da fase liderada por Waters. Para ele, aquilo transformava uma crítica ao espetáculo em parte do próprio espetáculo.
A ironia é que o sucesso dessa fase também ajudou Waters indiretamente. Andy Fairweather Low, que trabalhou com ele, observou anos depois que o Pink Floyd continuava apresentando ao público as músicas de Roger simplesmente por tocá-las. Waters não via consolo algum nisso.
Na mesma época, ele também dizia considerar o rock em estádio "genuinamente horrível", comparando aqueles eventos a enormes reuniões comerciais em que dezenas de milhares de pessoas compravam cachorro-quente e camisetas enquanto olhavam ocasionalmente para telões. Na visão dele, o Pink Floyd havia pegado uma obra construída contra determinada lógica do rock e usado essa mesma obra para alimentar exatamente aquilo que ela criticava.
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