Animals (1977): quando o Pink FLoyd resolveu chamar todo mundo de bicho
Resenha - Animals - Pink Floyd
Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
Postado em 27 de setembro de 2026
Janeiro de 1977. O punk estava mandando os "dinossauros" do rock pro asilo, e o PINK FLOYD respondeu com um disco de cinco faixas, três delas com mais de dez minutos, falando de cachorros, porcos e ovelhas. Deu segundo lugar na Inglaterra, em plena era punk. Bem feito pra quem duvidou. "Animals" é o décimo disco de estúdio da banda e o primeiro gravado no Britannia Row, o estúdio próprio deles em Islington, com produção do próprio grupo. Inspirado (de longe, mas inspirado) na "Revolução dos Bichos" do Orwell, é quase todo do ROGER WATERS. A exceção é "Dogs", que tem a mão do DAVID GILMOUR. E tem um detalhe curioso: "Dogs" e "Sheep" já rolavam nos shows desde 1974, com outros nomes ("You've Got to Be Crazy" e "Raving and Drooling"). O WATERS só precisou escrever o porco pra fechar a fazenda.

Comecemos pelo que menos importa, que são as duas "Pigs on the Wing". Abrem e fecham o disco, e são aquilo: necessárias, mas ninguém sente falta. Tirar seria como ver um filme sem os créditos (dá pra viver, mas fica esquisito). Só que elas poderiam ter mais alma, e aí vem a ironia: a versão original era uma música só, com as duas partes ligadas por um solo de guitarra do SNOWY WHITE. Cortaram o solo, racharam a música em duas e pronto, virou "filler". Que feio. Essa versão completa ficou décadas escondida na fita 8 tracks (e num CD obscuro do próprio SNOWY WHITE, o "Goldtop", de 1995), até chegar ao streaming em 2026, na coletânea "8-Tracks". Vale a pena ouvir, nem que seja pra confirmar que o problema nunca foi a música.
Relançado em 2018, após remixagem com material de ponta a partir das fitas originais, o disco de verdade são as três do meio, e cada uma cumpre o seu papel. "Dogs" é a hipocrisia. Dezessete minutos de gente que morde quem está embaixo e late pra quem está em cima, com GILMOUR e WATERS dividindo os vocais e o GILMOUR tocando como se a vida dependesse disso. "Pigs (Three Different Ones)" é a sujeira. Três porcos, três verses, e o terceiro cita nominalmente a Mary Whitehouse, a moralista britânica que vivia pedindo censura pra tudo. Tem a guitarra do GILMOUR passando por talk box pra imitar os bichos e um solo final que corta seco no auge. Aí "Sheep" fecha a trinca com a revolta: começa mansinha, com o piano elétrico do RICHARD WRIGHT, distorce o Salmo 23 (o Senhor me guia até virar costeleta de cordeiro) e termina com as ovelhas virando a mesa. Sistema político, sistema econômico, todo mundo levando a sua, cada um do seu jeito e na forma mais apropriada possível.
Sobre o som, é um disco mais cru e mais direto, menos cerimonioso que seus dois irmãos mais velhos. E aqui vem a heresia: pra mim, soa ainda melhor que "WYWH" e "TDSotM". Os três contam histórias muito particulares em forma de música, e o PINK FLOYD continuaria fazendo isso em "The Wall" e no famigerado "The Final Cut" (sim, sou o único que gosta, e tá tudo bem). Aliás, a semente de "The Wall" vem justamente da turnê deste disco: num show em Montreal, em julho de 1977, o WATERS, assoberbado pela falta de conexão entre banda/público/realidade, cuspiu num fã barulhento da primeira fila, depois sentiu nojo de si mesmo (pelo menos isso, né?) e a reflexão sobre o muro entre banda e público começou dali.
E tem o quesito repetição. Este é, sem exagero, um dos discos que mais ouvi na vida, e claro que é: são só três músicas (ignoramos as fillers, como combinado). Você aperta o play, cai numa fazenda de 40 minutos e só percebe que acabou quando o silêncio chega. É pra essa hora que talvez sirvam os porquinhos voadores. É o alarme pro trabalho na Battersea Power Station começar novamente.
Nota: 10/10. (Só não é 11 porque... ah, chega de dar atenção a quem não merece, aos porcos que voam.)
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