Jim Lindberg: Impressões sobre o livro Punk Rock Dad
Por Homero Pivotto Jr.
Fonte: O Ben para todo mal
Postado em 27 de maio de 2018
Eu não sei de outros pais, mas no momento em que meu filho viu a luz do dia — daqueles potentes refletores na sala de parto, na real — uma revisão da própria trajetória que tive até ali rapidamente se montou na minha cabeça desmiolada. Parte dela tinha a ver com (mal) comportamentos que deixam os coroas da gente putassos (pra não dizer decepcionados). Então, como um presságio sobre futuras incomodações inerentes à parentalidade, lembrei da minha mãe praquejando ‘aqui se faz, aqui se paga’. Isso ecoou tão forte na minha mente quanto retumbava nas paredes de madeira do quarto cheio de pôsteres de bandas em que vive meus conturbados anos juvenis. Partindo desse princípio, acredito que outros caras tiveram experiência parecida. E é por isso que, quero quer eu, Jim Lindberg (vocalista do Pennywise) deve ter se perguntado quando a primeira filha botou a fuça pra fora do útero: por que raios fui fazer uma música chamada ‘Fuck Authority (foda-se a autoridade, em tradução livre). Afinal, o jogo virou, não é mesmo? E, naquele momento, o hoje cinquentão passava a ser quem, a partir dali, teria de dar as regras — e bons exemplos. Parte dessa dicotomia ele próprio narra no livro Papai Punk: Sem Regras, Só A Vida Real, que ganhou edição nacional em 2018, uma década depois de a versão original, entitulada Punk Rock Dad: No Rules, Just Real Life, chegar ao mercado editorial. O lançamento é da Editora Belas Letras, e o prefácio é assinado por um pai hardcore melódico, só que versão brasileira. No caso, Rodrigo Lima, vocal do Dead Fish.
Nas cerca de 250 páginas da obra que inspirou o documentário The Other F Word (focado na paternidade de punk rockers dos EUA), Jim faz um paralelo entre a versão suburbana nem tão mal de vida porém rebelde de si mesmo, e a de pai que deu certo como roqueiro. Porque né, como diz o Ira!: ‘se meu filho não nasceu, eu ainda sou o filho’. E estar nessa posição torna muito mais fácil continuar sendo tão hedonista e niilista quanto nossos corpos permitirem, e ainda sem a preocupação de precisar acordar n’outro dia para alimentar um ser vivo, seja de comida ou de ensinamentos. Mas quando a paternidade chega quem assume o lugar de filho é o pequeno ser que você ajudou a gerar. E sua vida, inevitavelmente, vai demandar um pouco mais de responsabilidade.
A narrativa, apesar de fluente, não é das mais cativantes. Ainda assim, pra quem tem o hábito de ler, é o tipo de obra que dá pra finalizar em meia dúzia de visitas ao banheiro — se bem que, atualmente, parece que o povo trocou o hábito da leitura, tão comum nesses momentos, pelo do assistir vídeos mais longos no YouTube. Tá, foco… De início, o músico californiano conta como o punk catalisou suas inconformidades e o ajudou a lidar com elas, fala de como conheceu sua esposa e mãe das pimpolhas (Brighton, Emma e Kate) e faz algumas relativizações do tipo "justo quando tínhamos tido êxito em se rebelar contra nossos pais, nós nos tornamos eles."
A grande sacada do livro é ser carregada de referências para quem curte som, principalmente o hardcore punk oitentista produzido na terra do Tio Sam. Fora títulos e subtítulos dos capítulos, pensados para homenagear bandas do nicho, há outras citações divertidas. Entre elas:
Só ouvir Ramones, The Clash e Descendents enquanto leva às filhas pra escola;
Achar que, durante o processo de nascimento da primogênita, Jim e a mulher não estavam sendo tratados como deveriam porque ele estava vestindo camiseta do Dead Kennedys;
Se isolar no porão para ouvir/tocar Black Flag quando a paciência está se esgotando;
Contar que, antes das filhas, sua única preocupação era saber quando haveria shows do Circle Jerks e do T.S.O.L, ou arrumar a coleção de discos por anos pré e pós Minor Threat;
Comparar o insistente papo sobre dividir os brinquedos que pais e mães ensinam às crianças com o pedido de empréstimo daquele vinil raro do Misfits que, óbvio, a gente não quer deixar sair da nossa tutela — tal qual a gurizadinha com seus instrumentos de diversão quando os amiguinos estão por perto.
Também chama atenção algumas alfinetadas no colega Fletcher (guitarrista do Pennywise). Vide esta descrição sobre passagens de som: "... ser torturado ouvindo Fletcher tocar versões mal tocadas de ‘Crazy Train’ e ‘Enter Sandman’ em um volume de estourar os tímpanos enquanto timbra a guitarra, experimentando todas as variações concebíveis de distorção só pra acabar usando exatamente a mesma regulagem que ele usa todas as noites". Outra questão perceptível, ainda que nas entrelinhas, é a de que um novo membro na família acarreta mais gastos. Afinal, é mais alguém exigindo cuidados com higiene, alimentação, saúde e bem-estar. Jim mostra isso em trechos nos quais relata idas a farmácias e a mercados para garantir suprimentos que as pequenas possam precisar. Ou quando escreve sobre mimos (guloseimas e presentinhos para compensar possíveis faltas), que parecem ter cota garantida no orçamento da família Lindberg. Pedir para a filha escolher entre o Vans que o papai curti ou o Doc Martens de preferência da mamãe ilustra a questão. O protagonista também se permite alguns caprichos consigo mesmo, como comprar produtos de beleza para se manter tio jovem.
De resto, o texto conta situações vividas por todas as famílias: a carga de adrenalina que é ver a prole nascer, as dúvidas de como agir em determinadas situações durante os primeiros meses, a agonia de tentar fazer as crianças pararem quietas, as noites sem dormir, os compromissos em que é preciso levar as pestinhas e você está de ressaca, a socialização com pais caretões e o tempo longe das nossas coisinhas incomodativas em razão de atividades laborais (que, no caso de Jim, inclui bradar letras de protesto, tomar um goró e viajar com a banda).
Das reflexões que se faz com a leitura está a de que não se pode deixar de ser quem a gente é. Abandonar as próprias essência e crenças só vai trazer frustração, não te fazer um bom pai. O negócio é se reinventar. Quem sabe, dexiar pra trás hábitos/comportamentos/posturas que nos eram caras, mas que na verdade não agregam nada à nossa tosca existência. Porque só largando de mão necessidades desnecessárias vamos segurar com força as possibilidades que surgem com a chegada de uma criança.
A parentalidade não tem raça, cor, gênero nem gosto musical. Só muda o endereço, mas os dramas e alegrias são bem parecidos. Same old story, parafraseando o título de uma música do Pennywise.
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