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Metallica: A histórica entrevista para a Playboy

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Por Nacho Belgrande, Fonte: Playa Del Nacho
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Entrevista publicada originalmente na edição de 2001 da Playboy estadunidense

Tradução de Nacho Belgrande

Mesmo quando o Metallica está em silêncio, eles dão conta de fazer barulho.

Em uma manhã no meio de Janeiro, no meio da maior pausa entre uma turnê e sessões de gravação que a banda jamais teve, o Metallica emitiu um comunicado à imprensa direto, mas emocionado, no qual o baixista Jason Newsted anunciava sua saída do grupo devido à ‘razões particulares e pessoais e aos danos físicos que eu impus a mim mesmo ao longo dos anos’. Algumas horas depois, uma fonte próxima ao Metallica disse a Playboy que a decisão de Newsted resultara de uma reunião de nove horas e meia com a banda no dia anterior no Ritz Carlton Hotel em São Francisco, que por sua vez seguiu uma longa conferência uma semana antes. A baixa de Newsted, disse a fonte, tinha sido ‘muito bem discutida’ pela banda.

Sob alguns aspectos, foi apenas a costumeira celeuma em torno do Metallica, que passou boa parte do ultimo ano [2000] em procedimento de ataque – ou como eles dizem, uma contraofensiva – ao Napster. O site atraiu, estima-se, 38 milhões de usuários em seus primeiros 18 meses permitindo aos fãs que fizessem escambo de arquivos musicais sem pagar qualquer tarifa; resumindo, eles forneciam música grátis. O Metallica entrou com um processo por suposta quebra de direito autoral e extorsão, e no dia 11 de julho, o baterista Lars Ulrich – cuja campanha pública contra o Napster foi repleta de bravatas típicas – testemunhou contra o site no Senado Federal dos EUA.

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Entre politicagem e coletivas de imprensa, o Metallica também tocou música. ‘I Disappear’, uma nova faixa para a trilha Sonora do filme ‘Missão Impossível 2’, foi nomeada para o MTV Video Music Awards. A banda lançou ‘S&M’ um álbum duplo gravado com a Orquestra Sinfônica de São Francisco. Eles excursionaram durante o verão com Kid Rock, que emprestou seus vocais quando o vocalista James Hetfield perdeu três shows por causa de um acidente de Jet Ski. Até [canal televisivo] VH1 abraçou os outrora párias, homenageando a banda em um particularmente sangrento episódio da séria ‘Behind The Music’. O ano 2000, diz o baixista Jason Newsted, ‘foi possivelmente o ano em que o Metallica mais ficou em evidência em sua história. ’

Como consegui viver de Rock e Heavy Metal

Nós enviamos o jornalista free lancer Rob Tannenbaum entrevistar a última das grandes bandas de rock. Ele descobriu que apesar dos membros da banda não estarem em contato uns com os outros durante o hiato, um não saiu da cabeça do outro. O relatório dele:

"Eu não fiquei surpreso por Jason Newsted ter saído do Metallica. Apenas dois meses antes, eu tinha passado um dia com cada um dos quarto, e eu nunca havia visto uma banda tão conflituosa e fissurada. A maioria das alfinetadas era coberta com humor – Newsted gozava das habilidades vocais de Hetfield, Hetfield zombara de Ulrich à bateria, e Ulrich, que eu entrevistei por ultimo, respondeu a várias das frases de Hetfield com escrutínio."

"Mas uma tensão genuína estava evidente nessas entrevistas – a última a ser conduzida com essa formação do Metallica – porque todos eles tinham uma característica em comum: todos falaram de sua necessidade de solidão. Paradoxalmente, essa é uma banda de solitários, e o conflito entre unidade e individualidade estava bem aparente."

PLAYBOY: Além de sua eloquência natural, por que Lars se tornou o porta-voz da banda contra o Napster?

HETFIELD: Minha esposa e eu estávamos tendo nosso segundo filho [Castor, nascido em Maio de 2000]. E a família vem em primeiro lugar. Então Lars teve que correr com a tocha, e fizemos algumas manobras erradas. Você sabe como é, Lars pode ser meio falastrão e um moleque arrogante por vezes. Eu me senti mal em certas entrevistas: "Ah cara, não fala isso."

ULRICH: Eu disse algumas coisas que eram quase estúpidas. Quando o Limp Bizkit abraçou o Napster e levou U$ 2 milhões para tocar nessa ‘turnê gratuita’ – é possível tocar shows gratuitos sem dinheiro de patrocinadores, porque nós fazemos isso – eu disse que aquilo era um engodo total. Eu sei que muitas pessoas odeiam Fred Durst, mas eu acho que ele é de fato muito talentoso. Eu e Fred fizemos as pazes. Quando eu abro a boca, na maioria das vezes, algo meio eloquente escapa, e de vez em quando eu falo muita merda. Eu sei disso.

PLAYBOY: Que tipo de coisas os fãs disseram na sua cara?

HETFIELD: Alguns fãs disseram, ‘Deixem o Napster em paz, cara’ – no caso dos suicidas [risos]. Mas isso vinha depois do ‘Metallica é demais, mano’. Então você transformava seu ‘obrigado’ em ‘vai se foder’. Eu entrei em várias discussões com fãs que só queriam ‘discutir’ o assunto. Essa pobre garota de Atlanta, eu a fiz chorar. Ela achava que dinheiro era maligno. Por que você não vai morar no Canadá ou em algum país socialista?

ULRICH: Se você deixa de ser um fã do Metallica porque eu não te dou minha música de graça, então vai se foder. Eu não quero que você seja um fã do Metallica.

HAMMETT: Eu ainda fico chocado com a reação que as pessoas têm. Eu achava que era tão óbvio: as pessoas estão pegando nossa música quando não deveriam, e nós queremos detê-las. Os computadores fazem com que isso pareça algo que não é roubo, porque tudo o que você está fazendo é apertar um botão. No fim da contas, roubar não é direito.

PLAYBOY: Vocês emputeceram muitas pessoas. No grupo de Usenet do Metallica, há um tópico ativo nomeado ‘Kirk e Lars são gays’.

HAMMETT: Isso só mostra uma completa falta de criatividade. É como chamar alguém de ‘gorducho’.

PLAYBOY: Talvez vocês tenham agido pelos princípios certos. Mas é difícil pras pessoas simpatizar com os ricos.

ULRICH: Sim, é. Então tudo é ‘aqueles astros de rock gananciosos’. Mas entenda, 80 milhões de discos depois, eu não sei o que caralho fazer com todo o dinheiro que eu tenho. Então agora podemos falar sobre qual é a real questão aqui? A verdadeira questão pra mim, é poder de escolha. Eu quero escolher o que acontece com minha música. Fica bem claro que o future é vender sua música online. Mas a lógica lhe diz que você não pode fazer isso se o cara ao lado está dando-a de graça.

PLAYBOY: Quando vocês começaram a campanha contra o Napster, vocês achavam que ela se arrastaria por tanto tempo?

ULRICH: Não tínhamos a menor ideia, não. Todo esse lance de ‘Lars Ulrich, garoto propaganda da propriedade intelectual’ não é algo que eu buscava.

PLAYBOY: Vocês ficaram surpresos quando foram vaiados no palco em setembro passado no MTV Video Music Awards?

ULRICH: Eu não percebi enquanto estava lá. Eu saí do palco, e as pessoas vieram me dizer, ‘wow, vocês lidaram bem com as vaias’. E eu tipo, ‘que vaias?’

PLAYBOY: Isso é surpreendente. Porque vocês pareciam realmente desconfortáveis.

ULRICH: Eu estava meio bêbado. Foi a pior entrega de prêmio, disparado, à qual eu jamais estive. Eu saí, e fui jantar com alguns amigos e tomei uns coquetéis.

PLAYBOY: Quando o criador do Napster, Shawn Fanning apareceu com uma camiseta do Metallica, eles cortaram pra você na plateia, e vocês pareciam horrorizados.

ULRICH: Você tem que entender, a coisa toda fora planejada. Eles me pediram para entregar um prêmio a Shawn Fanning. No dia anterior ao evento, os advogados do Napster o tiraram do lance. Eles achavam que eu faria algo rude ou inapropriado com ele. A MTV perguntou, ‘Você teria algum problema com ele aparecer usando uma camiseta do Metallica?’. Eu disse, ‘Manda ver’. Eu sabia de tudo aquilo – eu só estava fingindo que dormia. Eu pus a mão sobre meu rosto, balançando a cabeça. Foi tudo meio que armado.

PLAYBOY: O que seria necessário para que vocês desistissem da ação contra o Napster?

ULRICH: Eles já nos perguntaram sobre tentar entrar em acordo. A única coisa que queríamos era pagar nossos advogados e as custas do processo. E nós acreditamos que temos a habilidade de bloquear acesso em nome de qualquer banda que queira o serviço bloqueado.

HAMMETT: Críticas são algo com que lidamos desde o primeiro dia. Quando ‘Kill’em All’ foi lançado, não havia nada parecido com ele. Quando o Segundo disco saiu, nós tínhamos baladas, pelo amor de deus! Mesmos a porra dos nossos fãs nos critica. Nós temos coletes à prova de balas quando se trata de críticas. Para dizer a verdade, nos alimentamos delas.

HETFIELD: O Metallica ama ser odiado.

HAMMETT: Ama ser odiado, com certeza. Mesmo antes de estarmos na banda, éramos desajustados – então essa mentalidade nos cai muito bem. […]

PLAYBOY: Agora que vocês são superastros – não somente na MTV, mas também no VH1 – é fácil esquecer o quão inglórios vocês eram no começo.

HETFIELD: Quando Lars e eu nos conhecemos, nós gostávamos de um tipo de música que não era aceito, especialmente em Los Angeles. Nós éramos rápidos e pesados. Tudo em Los Angeles girava acerca de músicas curtas e ganchudas: Mötley Crüe, Ratt, Van Halen. E você tinha que ter visual. O único visual que tínhamos era feio.

PLAYBOY: Hey, mas vocês não eram imunes ao modo de se vestir de Los Angeles.

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HETFIELD: Tivemos nossas batalhas com a lycra, é verdade. Você podia exibir seu volume escrotal. ‘Vista lycra, cara. Isso te arruma garotas!’. Na primeira turnê pelos EUA, minha calça de lycra – eu odeio dizer, ‘minha calça de lycra’. É uma fase bem maligna. Elas estavam molhadas da noite anterior, e eu estava secando-as perto do aquecedor. Um baita buraco abriu derretido bem na virilha. Eu pensei, ‘Ficaram igual meia calça’. Daí optei por ficar de jeans, e foi a melhor coisa que já aconteceu. Lars vestia lycra até a turnê do ‘Black Album’, apesar dele poder te dizer outra coisa.

ULRICH: Éramos bem os desajustados de Los Angeles. No primeiro ano, por aí, era bem solitário.

HETFIELD: Fizemos alguns shows onde, caso nossas namoradas não estivessem lá, não haveria ninguém na plateia além do barman. Daí alguns fãs ferrenhos nos seguiam pra todo canto, e tornaram-se membros da equipe. ‘Talvez aquele cara queira carregar uns equipamentos, daí eu não precisaria mais fazê-lo’.

PLAYBOY: De onde saiu a temática ‘Caverna do Dragão’ dos primeiros discos?

HETFIELD: O Judas Priest era uma banda da qual todos nós gostávamos. ‘Ah, ele escreve sobre isso. OK, então. É isso que você faz pra ser Metal’. Daí ficou mais pra, ‘Vamos escrever sobre o que fazemos’: ‘Whiplash’, ‘Hit The Lights’, ‘Seek and Destroy’, que eram sobre quebrar as coisas. Nós tínhamos empregos diurnos. Depois disso, nós dávamos festas, tirávamos a mobília pra for a da casa e depredávamos o lugar. Nós vandalizávamos camarins só porque era a coisa a se fazer. Daí chegava a conta e pensávamos, ‘Hey! Eu não sabia que Pete Townshend tinha pago por esse abajur!’. Voltávamos da turnê e não havíamos feito nenhum dinheiro. Você comprava mobília pra um bando de organizadores de shows.

HAMMETT: Bebíamos um dia e o outro também e mal botávamos a cara pra fora. As pessoas apagavam a nosso redor, mas nossa tolerância havia sido forjada. Nossa reputação começou a nos anteceder. Eu não me lembro da turnê de ‘Kill’em All’ – nós começávamos a beber as três ou quatro da tarde.

HETFIELD: Quebrar camarins tinha a ver com bebida. A pior vez foi no [festival] A Day On The Green. Um amigo e eu, completamente chapados de Jagermeister, enfiamos na cabeça que enfiaríamos duas bandejas de frios e frutas do bufett em um tubo de ventilação. ‘O tubo não é grande o suficiente, vamos fazer um buraco!’. O trailer ficou arruinado. Bill Graham – que descanse em paz - era o organizador. Eu fui intimado ao escritório dele. Tipo, ‘eu tenho que ir à sala do diretor agora’. Ele disse, ‘Essa postura que você tem, eu tive a mesma conversa com Sid Vicious e Keith Moon’. Eu pensei, ‘Legal! Ah, peraí – eles estão mortos. Não tão legal. Talvez eu devesse tomar jeito’. Eu me dei conta naquela altura que havia mais em estar em um abanda do que emputecer as pessoas e quebrar coisas.

PLAYBOY: James, o que você achou de Lars depois da primeira jam session?

HETFIELD: Lars tinha uma bateria bem vagabunda, com um prato. Ele ficava caindo, e tínhamos que parar, e ele pegava a porra do chão. Ele não era um baterista tão bom assim. Até hoje, ele não é o ‘Baterista do Ano’. Todos nós sabemos disso. Quando terminávamos os ensaios, era tipo, ‘Que caralho foi isso??’ Nós jogávamos a conta do estúdio pra cima dele também [risos]. Havia tanta coisa diferente nele. Seus modos, seu visual, seu sotaque, sua postura, seu cheiro. Ele tinha cheiro de Dinamarca, creio eu. Eles têm um conceito diferente de banho. Nós usamos sabão nos EUA.

ULRICH: Garotos estadunidenses, havia essa coisa meio compulsiva de quatro banhos em um dia.

PLAYBOY: Bem, você se lavava?

ULRICH: O suficiente pra mim. OK?

HETFIELD: Nós comíamos no McDonald’s – e ele comia arenque. Ele era de um mundo diferente. O pai dele era famoso. Ele era bem de vida. Um filho único, rico. Mimado – é por isso que ele é bocudo. Ele sabe o que quer, ele vai atrás e ele sempre conseguiu isso em toda sua vida.

ULRICH: Eu sou filho único. Eu venho de uma criação tão liberal quanto você consiga conceber. Eu viajei pelo mundo todo com meu pai. Então sim, James Hetfield e eu viemos de históricos incrivelmente diferentes. E à medida que crescemos, nós provavelmente só ficamos mais diferentes. (...)

HETFIELD: Ele me apresentou a muita música diferente. Eu passava muito de meu tempo na casa dele, ouvindo as coisas. Eu não botava uma fé no tamanho da coleção de discos dele – eu dava conta de comprar um disco por semana, e ele voltava da loja com 20. Ele comprava Styx e REO Speedwagon, bandas sobre as quais ele tinha ouvido na Dinamarca. Eu dizia, ‘Que caralho! Por que você comprou um disco do Styx?’

ULRICH: Eu tenho uma personalidade obsessiva. Quando eu me interesso por algo, eu tenho que aprender tudo sobre aquilo, seja sobre cadeiras dinamarquesas da era moderna entre 1950 e 1956, ou sobre Jean-Michel Basquiat, ou sobre o Oasis. Quando eu tinha nove anos, era tudo sobre o Deep Purple. Eu passava meu tempo todo sentado do lado de for a do hotel deles em Copenhague, esperando que Ritchie Blackmore saísse para que eu pudesse segui-lo pela rua.

PLAYBOY: Já que você ama tanto a Dinamarca, por que você estava em Los Angeles?

ULRICH: Eu terminei o colegial na Dinamarca e me mudei pros EUA pra tentar uma carreira no tênis. Acabamos em Newport Beach, que é o pico mais fresco de LA além de Beverly Hills. Tem todos aqueles moleques em suas camisas Lacoste rosas, e eu estou usando camisetas do Iron Maiden. Eu acho que havia um ódio generalizado por tudo aquilo, um tipo de alienação social. James Hetfield era o rei da alienação social. Então houve um sentimento de irmandade que nos aproximou.

PLAYBOY: O quão socialmente excluído era James quando você o conheceu?

ULRICH: Eu nunca tinha conhecido ninguém tão tímido. Ele era muito retraído, quase com medo de contato social. Ele tinha um problema sério de acne.

HETFIELD: Não havia muito pra dizer, creio eu. Quando eu conheci Lars, minha mãe tinha acabado de falecer. Todo mundo era um inimigo naquela época. Eu não era muito bom de conversa – isso tinha vindo de crescer no ambiente em que cresci, meio que alienado, eu estava cansado de explicar minha situação religiosa. Uma vez que a banda se formara, eu pensei, eu não tenho mais que falar. Lars pode dizer tudo. O que ninguém de fato entendia era sobre o que as músicas se tratavam.

PLAYBOY: E então, qual sua situação religiosa?

HETFIELD: Eu fui criado como Cientista Cristão, que é uma religião estranha. A regra principal é que Deus há de curar tudo. Seu corpo é apenas uma concha, você não precisa de médicos. Era segregacional e difícil de entender. Eu não podia fazer educação física pra jogar futebol [estadunidense]. Era estranho ter que sair da aula de ciências no meio do turno, e todas as crianças dizendo, ‘Por que você tem que ir embora? Você é algum tipo de maluco?’. Como garoto, você quer fazer parte do time. Isso era muito incômodo. Meu pai dava aulas de catecismo aos domingos – ele adorava. E isso tudo foi forçado em mim. Nós tínhamos esses testemunhos curtos, e tinha essa menina cujo braço havia sido quebrado. Ela levantou e disse, ‘Eu quebrei meu braço, mas olhem, está melhor’. Mas estava simplesmente, tipo, mole. Agora eu penso nisso, era tudo bem perturbador.

PLAYBOY: Você chegou a fugir de casa?

HETFIELD: Uma vez, eu e minha irmã fugimos. Nossos pais nos pegaram quatro quadras depois. Eles bateram muito na gente, bastante.

PLAYBOY: Então você acredita em bater nos seus filhos?

HETFIELD: Bater em meus amigos, e nas esposas deles. Sim, como ultimo recurso. Mas com a palmada vem uma longa explicação sobre o porquê.

PLAYBOY: Como era sua relação com seus pais?

HETFIELD: Era o segundo casamento da minha mãe – eu tenho dois meios-irmãos mais velhos. Eu não via nenhuma atribulação. Eles não brigavam na frente dos filhos. Daí meu pai saiu em ‘viagem de negócios’ – por mais de alguns anos, entende? Eu estava começando o terceiro ano do ensino médio. Esconderam que ele tinha ido embora. Finalmente, minha mãe disse, ‘papai não vai voltar’. E aquilo foi bem difícil. Houve tempos bem difíceis –minha mãe precisava chegar em casa antes dos filhos, ou eu teria assassinado minha irmã. A gente se surrava. Eu me lembro de queimá-la com óleo quente e pensar, ‘Ai, isso foi longe demais’. Minha mãe se preocupava muito, e isso a deixo doente. Ela escondeu isso de nós. De repente, ela está no hospital. Daí, do nada, ela morreu. O câncer apareceu. Fomos morar com meu irmão postiço Dave, que é 10 anos mais velho. Minha irmã estava se rebelando, e foi expulsa da casa. E terminei o colegial e disse, ‘Até mais, todo mundo.’

HAMMETT: James vem de um lar destruído, e eu venho de um lar destruído, e quando eu entrei pra banda, nós meio que nos ligamos por isso. Eu fui abusado quando era criança. Meu pai bebia demais. Ele espancava muito a mim e a minha mãe. Eu arrumei uma guitarra, e a partir dos 15 anos, eu quase nunca saía do meu quarto. Eu me lembro de ter que tirar meu pai de cima da minha mãe quando ele a atacou uma vez, durante meu aniversário de 16 anos – ele voltou-se para mim e começou a me esbofetear. Daí um dia ele simplesmente foi embora. Minha mãe ralava pra sustentar a mim e a minha irmã. Eu com certeza canalizei muito da raiva na musica. Eu também fui abusado por meu vizinho quando eu tinha 9 o 10 anos. O cara era um doente. Ele fez sexo com meu cachorro, Tippy. Eu consigo rir disso agora – porra, eu já ria naquela época.

PLAYBOY: Parece que o heavy metal atrai um grande número de pessoas que foram abusadas.

HAMMETT: Eu acho que o heavy metal é terapêutico – é uma música que dissipa a tensão. Eu acho que é por isso que as pessoas que passaram por uma infância muito ruim são atraídas pelo heavy metal. Ele permite que as pessoas soltem a agressão e a tensão de um modo não-violento. Além disso, o heavy metal tem um sentimento de comunidade – ele une os excluídos. O heavy metal parece atrair todo o tipo de animais velhos e perdidos, vira-latas que ninguém quer.

ULRICH: Eu sempre tive problemas com isso, porque eu não sinto que tenha tido nenhum dano psicológico significativo na minha vida. Por que isso é limitado ao metal? Se você vai a um show do Elton John, as pessoas tem a mesma bagagem emocional. Se você alinhasse 10 fãs do Metallica contra a parede, você ouviria 10 histórias diferentes.

PLAYBOY: E três deles mijariam no muro.

ULRICH: E um deles bateria a própria cabeça contra a parede, sim. Eu não me sinto muito confortável para aceitar esses tipos de cliché. [...]


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Sobre Nacho Belgrande

Nacho Belgrande foi desde 2004 um dos colaboradores mais lidos do Whiplash.Net. Faleceu no dia 2 de novembro de 2016, vítima de um infarte fulminante. Era extremamente reservado e poucos o conheciam pessoalmente. Estes poucos invariavelmente comentam o quanto era uma pessoa encantadora, ao contrário da persona irascível que encarnou na Internet para irritar tantos mas divertir tantos mais. Por este motivo muitos nunca acreditarão em sua morte. Ele ficaria feliz em saber que até sua morte foi motivo de discórdia e teorias conspiratórias. Mandou bem até o final, Nacho! Valeu! :-)

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