Imago Mortis: das cinzas da eternidade ao retorno à vida

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Por Marcos Garcia
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Quem acompanha a cena nacional há uns 10 ou 15 anos conhece muito bem o nome IMAGO MORTIS, já que seu segundo disco, "Vida, the Play of Change", de 2002, foi sucesso de público e crítica, sendo recebido como um dos melhores CDs de Metal do ano, e mesmo dos últimos vinte anos. Mas após o CD "Transcendental", a banda teve um final abrupto, deixando muitos fãs de seu Doom Metal com um nó na garganta, que foi desatado em 30 de janeiro de 2011, com o concerto da volta, no Teatro Odisséia, no Rio de Janeiro, onde a banda tocou o CD "Vida...", ao vivo, na íntegra. Aproveitando o retorno da banda, que já está preparando material para um futuro CD, fomos bater um papo bem descontraído com o vocalista, Alex Voorhess.

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WHIPLASH! – Primeiramente, uma curiosidade: o que levou a banda, promissora e com um número expressivo de fãs, a encerrar as atividades? E o que levou vocês a voltarem?

Alex Voorhees – Isto me remete ao ano de 2008. Alguns integrantes não tinham mais tempo para as atividades envolvendo o IMAGO MORTIS, eu mesmo também não tinha. Fizemos um último show em Cabo Frio, no Festival Rock Humanitário, em 2008. Desde então, o IMAGO MORTIS não fez mais nenhuma apresentação. E acabou. Mas isto foi anunciado oficialmente apenas em abril de 2010.

Porém, durante este tempo, fui percebendo que minha vida estava muito chata, muito tediosa. Faltava algo. Além disso, sofri perdas terríveis no ano de 2010. A maior delas foi a morte do meu filho Alexandre Júnior, aos 20 anos... Uma doença grave e fatal. Um dos pedidos dele foi que eu voltasse com a banda.

Eu percebi outra coisa: a música e a arte têm um papel importantíssimo em minha vida. Só quem realmente é artista compreende. As pessoas ignorantes e alienadas, robotizadas pelo sistema, acharão bobagem isso, pois só pensam em dinheiro. Não há nenhum dinheiro no mundo que pague a sensação de poder me expressar artisticamente.

E, falando ainda sobre dinheiro, prefiro inclusive gastá-lo com a arte (sim, não sobrevivo disto) do que gastar com psiquiatras, remédios e psicólogos; ou tornar-me um serial killer ou, até mesmo, um suicida. Sem a arte, eu não vivo.

WHIPLASH! – Houve mudanças significativas na formação nessa volta, como foi visto no concerto de retorno. Falem-nos um pouco sobre o porquê de alguns membros antigos, da época em que a banda encerrou as atividades, terem ficado de fora, e também um pouco dos que estão chegando.

Alex - Como dito na resposta anterior, alguns integrantes optaram por ficar de fora justamente por não disporem de tempo para as atividades do IMAGO, sendo que cheguei a chamar alguns para este retorno, mas, infelizmente, isto não foi possível. E para que o retorno funcionasse do ponto de vista logístico, optei por músicos que residissem na cidade do Rio de Janeiro ou em cidades vizinhas, o que acabou acontecendo. São músicos já respeitados no cenário carioca, inclusive dois deles já trabalharam comigo na época da minha banda solo (Rafael Rassan, guitarra e Marcelo Val, baixo). Para um melhor aproveitamento dos arranjos de guitarra, optei por um guitarra líbero, que não toca em todas as músicas, pois as guitarras são revezadas e, de vez em quando, dobradas. Para cumprir função de segundo guitarrista, chamei o conhecido Daemon Ross (que trabalhou junto com o próprio Val na banda PAINSIDE, além de ter feito gigs com músicos internacionais como TONY MARTIN, STEVE GRIMMET e DOGGIE WHITE e tocado em bandas como NEUTRALIS e PROPHECY). Rassan já trabalhou com diversos grupos de vários estilos, sendo considerado um músico polivalente, erudito e que também canta muito bem (vide sua banda UNISSONUS, onde toca guitarra e canta). Esse cara toca desde MPB e música barroca até o Black Metal mais malvadão. O Marcelo Val fez parte de bandas como CIHEN, SHOOBERRY e ainda faz parte do OBSIN e do PAINSIDE (que lançou o CD ‘Dark World Burden’ em 2010 na Europa e EUA). É fã de carteirinha do KISS e, certamente, um dos caras mais rockers dentro do IMAGO MORTIS. Marcos Ceia, teclados, vem da banda EMPÜRIOS, da qual ainda faz parte e estão prestes a lançar um CD. Sua vertente vai da música erudita ao rock progressivo e post rock de bandas como PORCUPINE TREE e ANATHEMA. Para completar o time, os veteranos André Delacroix, além de mim mesmo.

WHIPLASH! – Hoje em dia, com tantas bandas que acabaram e que agora retornam para fazer alguns shows, sem compromisso com a gravação de material novo, a volta do IMAGO MORTIS poderia ser encarada por muitos como puro oportunismo. Como vocês encaram este tipo de pensamento? E como pretendem desfazer esta ideia?

Alex - Eu veria algo como oportunista se pudéssemos, claramente, tirar alguma vantagem da situação. O que não vem ao caso. Não pretendo desfazer nenhuma ideia, as pessoas normalmente têm seus preconceitos e não há nada que eu sinta vontade de fazer além da música, de estar nos palcos e trabalhar com liberdade artística.

WHIPLASH! – Ainda nesse assunto, pelo que nos chega ao conhecimento, a banda já se encontra preparando músicas novas para um novo CD. Em que pé estão as coisas? Já há músicas novas prontas?

Alex - Sim, há um material completamente escrito, que servirá de base para as letras. Há todo um conceito, feito sob intensa pesquisa prévia, muita leitura e muitas reflexões também, tanto em nível pessoal quanto em nível de percepção empírica mesmo. Há várias melodias e ideias, o que falta é organizá-las e lapidá-las. Este novo trabalho apresentará algo muito visceral, eu diria, mas com uma carga emocional muito intensa. É conceitual e diferente de tudo o que o IMAGO MORTIS já vez. Não haverá limites para a criação e todos os rótulos serão derrubados.

WHIPLASH! – Desde o início, o IMAGO MORTIS sempre foi caracterizado pela ousadia, e mesmo sendo referenciado sempre como uma banda de Doom Metal, a música de vocês sempre transpareceu influências de estilos mais extremados, e outras de fora do Metal. Como é lidar com tantas influências ao mesmo tempo e, ainda assim, ser capaz de criar músicas tão homogêneas e únicas?

Alex - No começo da carreira, para facilitar a compreensão dos ouvintes, em um primeiro momento se optou por um rótulo, digamos “Heavy Doom Filosofia”, e que, de certa forma, servia bem para sintetizar o trabalho até então. Com o passar do tempo, as composições foram tomando diferentes formatos, pois a única regra que respeitamos é a liberdade artística. Hoje em dia, eu não vejo mais o IMAGO MORTIS sequer como uma banda de Metal, que dirá de Doom. Eu não gosto de rótulos, empobrecem e limitam, além de criar o preconceito automaticamente. Somos simplesmente IMAGO MORTIS, pois não queremos soar como ninguém mais. Somos música, verdadeira, que vem de dentro de nossos corações.

WHIPLASH! – Outra característica da banda é sempre a de remar contra a maré, ou seja, nunca estar fazendo o estilo de Metal em voga, mas, mesmo assim, está sempre em evidência e fazendo sucesso. A que atribuem tal fato?

Alex - Não fazemos de propósito, para ser do contra. Seria hipocrisia, também, eu lhe afirmar que não temos um certo cuidado, a fim de não soar demasiadamente clichê ou banal. Assim mesmo, quando fazemos uso deles, imprimimos a nossa marca. Utilizamos de bom senso, evidentemente, mas somos guiados praticamente 100% pela pura força artística. Considero o IMAGO MORTIS super acessível. Acho que qualquer pessoa que gosta de boa música, não só Rock, pode ouvir nosso trabalho, sem que tivéssemos de fazer um milímetro de concessão a qualquer tendência mercadológica. Até porque isso não faz sentido para nós. Arte é atitude acima de tudo, e não se pode ter atitude quando se está preocupado com o que está na moda.

WHIPLASH! – Mesmo sendo um ponto que já devem ter falado à exaustão, muitos ainda desconhecem o background por trás da estória tratada no ‘Vida, the Play of Change’. Como foi que surgiu a ideia, e em qual banda se baseou para poder contar uma estória que qualquer um pode se identificar, e, mesmo assim, tendo uma aura extremamente positiva?

Alex – Este álbum surgiu como um desafio, o maior que já encaramos até agora: traduzir a experiência da morte em música. O ponto de partida foi quando tivemos conhecimento de uma pesquisa realizada com doentes terminais, que demonstrou que as pessoas passam por cinco fases bem definidas antes de morrerem: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.
Lembro que a ideia inicial seria compor uma música falando sobre as cinco fases da morte, só que quanto mais nos aprofundávamos no assunto, mais parecíamos longe de esgotá-lo. O que era apenas um estudo psiquiátrico, com pacientes terminais, descortinou aos nossos olhos várias questões de cunho filosófico, social, ético e religioso. Na verdade, quando falamos sobre a morte, estamos por extensão falando sobre tudo o que diz respeito à vida. Dessa forma, o projeto foi crescendo até assumir o formato de um disco conceitual. E este trabalho sintetiza muito bem o conceito por trás do IMAGO MORTIS: de que apenas com a compreensão da finitude do homem, de que morreremos, teremos, de fato, uma vida mais rica, profunda e plena de significado.

WHIPLASH! – Há o interesse do IMAGO MORTIS em levar o ‘Vida, the Play of Change – O Concerto’ para outras cidades do país? Ou este foi um concerto único para celebrar a volta?

Alex - Sim, estamos em contato com produtores através da nossa manager Rachel Möss e pretendemos levar o concerto “Vida - The Play of Change” a várias cidades do país, em apresentações especiais. Serão poucas datas, 13 no total, sendo que já realizamos um concerto (até a presente data, 04 de fevereiro de 2011), então ainda restam 12. Esperamos que muita gente ainda possa assistir a este espetáculo.

WHIPLASH! – Ainda falando do concerto da volta, qual foi a sensação de ver, mais uma vez, vocês no palco juntos, e com a recepção calorosa que receberam? Isso os incentiva ainda mais a ir adiante?

Alex - Foi uma sensação maravilhosa, indescritível. Era como se eu saísse de um túnel muito escuro e encontrasse novamente a luz. Acredito que eu tenha voltado a viver, pois a música é o que dá sentido a minha vida. Pretendemos continuar, enquanto durar o formato IMAGO MORTIS.

WHIPLASH! – Uma pergunta um pouco fora do lado musical em si: a proposta lírica da banda é extremamente avançada, que requer do ouvinte um conhecimento não comum no Brasil. Com isso, vocês acreditam que, de certa forma, estão contribuindo culturalmente para um público que vive num país onde o conhecimento acadêmico é tão maltratado?

Alex - É muito lisonjeira a sua pergunta. Fico receoso em respondê-la e parecer arrogante. Nosso trabalho não é exatamente de cunho educativo, porém muito pode ser aproveitado, pois nossos temas são instigantes, no sentido de fazer o ouvinte pensar e pesquisar mais sobre o que estamos discorrendo nas letras. Antigamente tínhamos um papel mais forte neste sentido, pois imprimíamos um jornalzinho onde comentávamos, com detalhes, todas as letras e seus assuntos relacionados. Pretendemos dar sequência a este tipo de trabalho, talvez com um blog, um livro, em breve, pois nosso novo material poderá parecer bastante complexo.

WHIPLASH! – Bem, agradecemos de coração pela atenção, e o espaço agora é de vocês, para deixarem sua mensagem aos nossos leitores e fãs da banda.

Alex – Nós é que agradecemos o interesse, tanto seu pelo nosso trabalho, quanto você, que está lendo até aqui.
Vou encerrar como sempre encerramos as entrevistas, desejando que todos vocês tenham se divertido com esta leitura como nós nos divertimos ao respondê-la. E, uma frase que cabe muito bem neste momento: “Vida e Morte são efêmeras. O que permanece é a mudança”.

Contatos: www.myspace.com/imagomortis

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Sobre Marcos Garcia

Marcos Garcia é Mestrando em Geofísica na área de Clima Espacial, Bacharel e Licenciado em Física, professor, escritor e apreciador de todas as subdivisões de Metal, tendo sempre carinho pelas bandas mais jovens e desconhecidas do público, e acredita no Underground como forma de cultura e educação alternativas. Ainda possui seu próprio blog, o Metal Samsara, e encara a vida pela máxima de Buda "esqueça o passado, não pense no futuro, concentre-se apenas no presente".

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