Gentle Giant: Entrevista exclusiva com o vocalista Derek Shulman

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Entrevista, texto e tradução por Thiago Corrêa Sarkis

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No mundo da música, é difícil encontrar alguém tão bem sucedido como Derek Shulman. De 1970 a 1980, ele esteve numa das mais famosas e consagradas bandas do rock progressivo, o Gentle Giant. Principal vocalista do grupo, ao vivo, ele ainda tomava conta das partes que Kerry Minnear cantava em estúdio.

Quando ele e seus companheiros entravam no palco, o show de virtuosismo começava. Todos eles multi-instrumentistas, assustavam o público com a mudança freqüente de instrumentos, e também com a complexidade e a riqueza de suas composições e arranjos.

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Depois do fim das atividades do grupo, Shulman se tornou um dos homens mais importantes da indústria da música, ocupando posições de grande importância em gravadoras como a Roadrunner, a Polygram e a Warner. Contratou bandas que foram e ainda são sucesso mundial, dentre elas: AC/DC, Pantera, Dream Theater, The Rembrandts e Bon Jovi.

Influenciado pelos filhos, Derek resolveu encarar um novo desafio abrindo sua própria gravadora, a O.M.A. Records. Em entrevista exclusiva, ele comenta sobre os rumores que há anos cercam um provável retorno do Gentle Giant, falando também sobre seu tempo com a banda, o trabalho nas gigantescas gravadoras, e claro, sobre sua nova empreitada.

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WHIPLASH! - A reunião do Gentle Giant quase aconteceu em 1996. Os fãs ficaram empolgados com a idéia e tudo parecia bem. Por quê a reunião acabou não acontecendo?

DEREK SHULMAN / Não haveria nunca uma reunião pelo menos que eu e o Ray quiséssemos ou ao menos estivéssemos interessados. Isso é... até onde eu saiba. Quando decidimos parar com a banda em 1980, aquele capítulo acabou em nossas vidas e queríamos e de fato nos envolvemos em novos desafios em nossa aventura musical. Ray se tornou um produtor bem sucedido e escreveu vários "jingles" de comerciais. Eu me tornei um executivo de várias gravadoras importantes em Nova Iorque. Creio que parte do rumor sobre a reunião era um pouco do pensamento desejado por parte dos fãs. Por isso, eu dou total atenção a eles. Eles são maravilhosos e mantêm a tocha do Gentle Giant acesa. Mas essa tocha deveria ser uma prazerosa memória do passado. Eu odiaria ser uma paródia do Derek Shulman de 1970. Eu e o resto da banda estamos trinta e três anos mais velhos, e para mim não há nada pior que reviver os dias passados quando novos dias ainda estão por vir.

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WHIPLASH! - Bem, depois disso, creio que boa parte dos fãs se conformou com o fato de que não haverá uma reunião do Gentle Giant. Eles estariam certos pensando assim ou há ainda alguma esperança? Como são os contatos entre vocês?

DEREK SHULMAN / Eu duvido seriamente que uma reunião vá acontecer um dia. Eu compreendo Kerry, John e Gary fazendo uma ‘jam’ juntos na convenção do Gentle Giant há alguns meses atrás. E creio que isso é o máximo que qualquer reunião poderá alcançar. Eu estou em contato freqüente com meu irmão Ray. Ele cria e faz DVDs e se tornou "O" cara para bandas como Queen, Genesis, Phil Collins, etc. Ele está atualmente trabalhando num DVD do Gentle Giant para um lançamento não muito distante. Mantenho contato com Kerry por email, pela sua mulher, etc. Ele dá aulas de música e também compõe alguns temas para a TV. Com o John e o Gary eu não tenho contato já há um tempo, mas sei que eles estão bem, já que Ray viu os dois recentemente.

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WHIPLASH! - Como você pensa que seria uma reunião do Gentle Giant agora, no século XXI e depois de todos esses anos?

DEREK SHULMAN / (N. do E.: pensa um pouco...) Eu realmente não gostaria de tratar de uma pergunta sobre uma provável reunião, embora eu te diga que nós a faríamos excepcionalmente bem, simplesmente porque os músicos da banda são/eram, os melhores músicos pelos quais eu tive a grande sorte de estar cercado.

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WHIPLASH! – Como você mesmo disse numa entrevista há anos atrás, o Gentle Giant foi convidado a tocar com orquestra várias vezes. Por quê vocês não aceitaram a proposta e o que você pensa do Gentle Giant tocado ou acompanhado por uma orquestra?

DEREK SHULMAN / Eu nunca gostei da idéia de tocar com uma orquestra. Sempre me pareceu extremamente pretensioso, pelo menos essa é minha concepção. Apesar disso, seria divertido ouvir alguns arranjos das músicas que compusemos tocados por uma orquestra, mas sem a nossa participação, é claro.

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WHIPLASH! - Seguindo essa idéia... li algo muito interessante escrito pelos criadores do webring do Gentle Giant na Internet. Eles escreveram exatamente isso (N. do E.: leio uma cópia que imprimi e que estava em minhas mãos): "Nós acreditamos que ‘Octopus’, ‘In a Glass House’, ‘Three Friends’, ‘Acquiring The Taste’ são obras-primas da música em todos os tempos, e que no ano 2318, as pessoas ouvirão Gentle Giant como nós ouvimos hoje a Beethoven ou Bach". Muitas pessoas com certeza concordam com isso. E você? Qual a sua opinião sobre isso?

DEREK SHULMAN / Gentle Giant respirando o mesmo ar de Bach ou Beethoven? (Suspira e pensa um pouco). Dúvido seriamente disso também (risos). O que eu obviamente gostaria, ao menos, era de ficar na lembrança das pessoas de que não éramos escravos da rádio comercial, nem realmente de qualquer outra ‘forma’ particular de música. Nós éramos uma combinação de várias escolas de heranças musicais misturadas num mingau de aveia, o qual se tornou o Gentle Giant.

WHIPLASH! - A música do Gentle Giant foi passada para partitura e também já houve projeto pra camisas, etc. Porém, vocês não parecem ter grande interesse em publicar isso ou outros materiais. E os fãs sempre pedem por alguma coisa nova da banda. Fale um pouco mais do DVD e se há algum outro projeto para lançamento do Gentle Giant.

DEREK SHULMAN / Como eu disse, o Ray está trabalhando no DVD que vai conter um show do Gentle Giant realizado por volta de 1974, por aí. Eu vi algumas passagens e nós estávamos muito bem. Embora seja apenas a minha visão. Não sei o que os outros acharam.

WHIPLASH! - Para finalizar essa parte do Gentle Giant. Há algo que te faça sentir frustrado quando você lembra do tempo que passou com a banda?

DEREK SHULMAN / É óbvio que gostaríamos de ter sido mais populares e também de ganhar mais dinheiro. Seria uma mentira dizer o contrário. Subseqüentemente descobri estar do outro lado da cerca por muito tempo, e a sorte e os anos que se passaram foram realmente uma parte disso. Nosso tempo devia ter acontecido por volta de 1973, 1975, quando Genesis e outras bandas desse porte abriam nossos shows. A gravadora e os empresários, no entanto, mudaram de idéia, provavelmente nos colocaram de molho, e como todas as coisas, se você perde o barco, ele navega sem você. Porém, nós amamos o que fizemos e no grande esquema das coisas, nós fomos relativamente bem sucedidos, tanto em nossa carreira como banda, como em nossa ‘herança’. Apesar de não termos nos transformado numa entidade internacionalmente conhecida como o Genesis.


WHIPLASH! - Antes de falarmos da O.M.A. e de outras coisas, só uma questão. Você tem algum projeto musical ou você diria que sua vida como músico acabou?

DEREK SHULMAN / Uma vez músico, sempre músico. Como executivo de uma gravadora, eu trabalho da maneira que um músico trabalharia. Eu adoro estar com os artistas e músicos e obviamente posso me relacionar com eles muito melhor do que os meus companheiros de serviço. Eu tento passar pelo menos uma experiência que eu tive para artistas que estão surgindo tanto em vias práticas, como musicais. Tocar com banda, ensaiar, ‘jams’, eu particularmente não faço. A única vez em que isso aconteceu foi quando meus dois filhos eram pequenos, e agora eles são crescidos e músicos realizados.

WHIPLASH! - Depois de anos trabalhando na indústria musical, você decidiu abrir sua própria gravadora chamada O.M.A. Records. Quando você teve a idéia e começou a colocá-la em prática?

DEREK SHULMAN / Eu decidi começar minha própria gravadora depois de ser presidente e CEO da Roadrunner, até o ano passado. (N. do E.: Ele cita como exemplos das bandas que contratou Slipknot e Nickelback). Antes disso, eu passei por uma aventura na Time / Warner, sendo presidente e CEO da Atco. Records (N. do E.: Novamente como lembrança do trabalho, alguns nomes são citados: AC / DC, Pantera, Rembrandts, Bad Company, Dr. Dre). Minha aventura musical no outro lado dos negócios começou na Polygram Records em 1981 e contratei grupos como Bon Jovi, Tears for Fears, Cinderella, Dexy's Midnight Runners, Men Without Hats e Kingdom Come, entre outros, durante a minha posse lá. A O.M.A. é realmente algo de amor e uma boutique de trabalho pra mim. Vou mantê-la pequena e focada, e vou concentrar os esforços da gravadora nos artistas e não na linha ou na moda. Eu sei que é um anátema em termos da atualidade, mas...

WHIPLASH! - Mas você espera o sucesso dos artistas e isso fará a gravadora crescer, não?

DEREK SHULMAN / Não necessariamente. Eu assinei com várias bandas para a O.M.A. e uma outra gravadora na qual eu e alguns amigos estamos trabalhando. Obviamente eu acredito que todos os artistas contratados serão bem sucedidos na gravadora, senão eu não os contrataria. Mas para isso sei que sorte, tempo e trabalho intenso de todos os envolvidos são especialmente importantes. Tudo o que posso desejar para os artistas é que eles consigam realizar algumas de suas ambições e sonhos e quem sabe até onde isso vai.

WHIPLASH! - Quais seriam as bandas com chances na sua gravadora?

DEREK SHULMAN / Assino com bandas que têm condições de entrar num mercado completamente aberto a novidades. Acredito que com o marketing certo, toda "música boa" tem chance e espaço. Eu preferiria não assinar artistas com base limitada, ou artistas para os quais a música seja elemento limitador. Eu também não contrataria um artista de um gênero que eu particularmente não gosto ou não compreendo... seja ele ‘gangsta rap’ ou hardcore, hip hop, apesar do alto potencial de vendas desses artistas. Eu gosto de saber o que estou fazendo e com quem estou lidando.

WHIPLASH! - Você tem um senso realmente absurdo para bandas que podem ser sucesso e vender bem. No passado, você contratou e descobriu muitas bandas que venderam milhões de cópias. Como você acha que os fãs do Gentle Giant vêem isso? Digo, por exemplo, você ter contratado e investido no Coal Chamber?

DEREK SHULMAN / Eu espero que os fãs de Gentle Giant estejam orgulhosos de mim. Amo o fato de alguns dos artistas que contratei terem obtido sucesso e ainda estarem no topo numa contínua carreira, o que é bem raro atualmente na esfera comercial. Seja Bon Jovi, Pantera, Dream Theater, Tears For Fears, AC/DC ou Nickelback, acredito que uma carreira construída é difícil e essencial obviamente.

WHIPLASH! – Retorne um pouco ao passado desse percurso no mundo da música e comente um pouco sobre os artistas contratados por você ou nos diga sobre alguma decepção, arrependimento, banda que poderia dar certo, etc.

DEREK SHULMAN / Tenho orgulho da maioria dos artistas que contratei. Tendo eles vendido milhares de cópias ou infelizmente não, todos fazem parte de mim. Há alguns artistas que eu tinha certeza que iriam estourar como outros que contratei, e na época eles acabaram não acontecendo. Dan Reed Network é um exemplo. Eram estrelas natas, com ótimas músicas e uma incrível presença de palco. Eles não aconteceram, mas eu tinha certeza de que eles iriam e que deveriam acontecer. Outra é uma banda chamada Enuff Z'nuff...

WHIPLASH! – (interrompendo...) Sim, Enuff Z’nuff. Mas eles têm uma certa fama.

DEREK SHULMAN / É, mas eles estavam lá, exatamente lá, no momento exato, mas praticamente se autodestruíram nessa hora. Eles conseguiram vender uma quantidade boa de discos em algumas ocasiões, como você mesmo disse, mas, pra mim, eles poderiam ter sido realmente estrelas e por um longo tempo. Essa foi uma frustração muito grande para mim e para eles.

WHIPLASH! - Com todos esses anos de experiência na indústria musical, como você vê o futuro do pop rock / alternativo? O que você acredita que poderá realmente ser sucesso no futuro?


DEREK SHULMAN / Pelo que sei, a música ‘mainstream’ atual não é geralmente muito boa. É puramente uma forragem de marketing para o mundo corporativista, e não tem qualquer relação com o mundo da música do qual fui parte, seja como músico ou como executivo. Não acho que a crise que as gravadoras estão sofrendo agora seja por causa da pirataria na Internet ou por causa dos downloads dos garotos de hoje em dia. O problema é o estado geral da indústria da música e do que faz sucesso na atualidade. Britney Spears, J-Lo, P-Diddy são quase a mesma coisa que os Archies (N. do E.: Banda de sucesso em desenhos, história em quadrinhos, e mais lembrada pelo ‘hit’ "Sugar Sugar"), diferentes apenas pelo fato de serem ‘humanos’. Os garotos no underground sabem do que gostam e é por isso que a transferência de arquivos continua. (N. do E.: Shulman fala agora num tom bem irônico) Você pode apostar a sua carteira, cheia de dinheiro, que não tem um garoto destes mandando as ‘grandes’ músicas novas de Britney Spears para seus amigos. As novas companhias independentes criadas por garotos que conhecem o seu público, odeiam o alimento que os meios de comunicação de massa servem. Eles (N. do E.: As novas companhias) são o futuro. Eu aposto que várias bandas desconhecidas e desvalorizadas pelos meios de massa vão estourar. E aí eles verão que apenas esses ‘garotos’ que se comunicam por email dentro de seus quartos e por salas de chat, sabem realmente o que está acontecendo. Uma grande mudança é feita passo a passo, aos poucos, e eu quero fazer parte disso, com um ponto de vista musical ‘antigo’ e que acabará acompanhando esses lançamentos das minhas novas empresas.

WHIPLASH! - Derek, foi um grande prazer para nós fazer uma entrevista com uma figura legendária como você. Esperamos seus objetivos sejam alcançados e que a O.M.A. Records obtenha reconhecimento e sucesso. Esse espaço é seu...

DEREK SHULMAN / Para todos os fãs de Gentle Giant aí, eu gostaria de dizer um muito obrigado por manter a tocha acesa. Ainda sou um músico com as mesmas aspirações de quando comecei em 1966. Tenha a certeza de que o legado e o futuro dos que foram / são os Gentle Giants ainda está vivo e ainda mais forte num mais velho, e talvez não mais tão sábio Derek Shulman.

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