Carach Angren - João, Maria e o inferno doméstico
Resenha - This Is No Fairytale - Carach Angren
Por Michel Sales
Postado em 23 de setembro de 2026
This Is No Fairytale (2015), quarto álbum de estúdio do Carach Angren, está entre os trabalhos mais narrativos, sombrios e perturbadores da banda. O próprio título já entrega a proposta: "Isto não é nenhum conto de fadas".

Os holandeses pegaram a estrutura de João e Maria (Hansel and Gretel) e a transportam para uma realidade contemporânea, muito mais cruel do que qualquer floresta encantada. Em vez de duas crianças abandonadas pelos pais por causa da fome, encontramos personagens tentando escapar de um ambiente familiar brutal, marcado por violência e abuso.
Ardek contou que Seregor lhe apresentou uma versão extremamente distorcida de Hansel and Gretel. A ideia era justamente inverter a lógica da história: as crianças fogem de casa porque o verdadeiro horror está lá dentro. A floresta, portanto, não é necessariamente o lugar mais assustador. A casa é.
O álbum se desenvolve praticamente como um filme de horror dividido em capítulos. "Once Upon a Time", a introdução instrumental, estabelece imediatamente a atmosfera de conto de fadas. Em seguida, "There's No Place Like Home" apresenta uma ironia macabra: não há lugar como o lar - mas aquele lar é justamente o inferno. Em "When Crows Tick on Windows", o ambiente de terror doméstico ganha contornos ainda mais perturbadores. Já "Two Flies Flew into a Black Sugar Cobweb" transforma uma das imagens mais conhecidas de João e Maria - a casa feita de doces - em uma armadilha sinistra.
A narrativa mergulha em temas pesados como violência doméstica, alcoolismo, drogas, abuso sexual infantil, sequestro, suicídio e elementos sobrenaturais. Tudo é apresentado dentro dessa espécie de conto de fadas deformado, no qual a fantasia não serve para aliviar a realidade, mas para torná-la ainda mais perturbadora. E talvez essa seja a grande chave conceitual de This Is No Fairytale: realidade versus conto de fadas.
O Carach Angren parece contaminar o universo fantástico pela brutalidade do mundo real. No conto tradicional, temos crianças, floresta, bruxa, casa de doces e perigo. Aqui, a sequência é outra: crianças, casa abusiva, fuga, mundo exterior, elementos de conto de fadas, pesadelo e, finalmente, realidade. É como se a banda perguntasse o tempo inteiro: "Isso é um conto de fadas?" A resposta está no próprio título: não, não é.
Ardek explicou que essa ambiguidade era justamente parte da proposta: fazer o ouvinte oscilar entre a fantasia e a realidade, sem saber exatamente onde termina uma e começa a outra. Daí a força do título e de toda a concepção narrativa do álbum.
Musicalmente, o horror de This Is No Fairytale também se distancia um pouco da atmosfera predominantemente sobrenatural de trabalhos anteriores. Aqui, o terror é muito mais humano e psicológico.
Ardek já explicou que o processo de composição funcionava quase como a criação da trilha sonora de um filme. Seregor apresentava a história; Ardek imaginava as cenas e transformava aquelas imagens em música. O resultado é um álbum que parece acompanhar visualmente cada acontecimento da narrativa.
E, na bolachinha, encontramos um verdadeiro arsenal: black metal agressivo, orquestrações grandiosas, cordas, piano, mudanças bruscas de atmosfera, passagens cinematográficas e vocais carregados de teatralidade, muitas vezes funcionando quase como uma narração. É como se o Carach Angren tivesse composto a trilha sonora de um filme de horror que nunca foi filmado.
Em This Is No Fairytale, a estrutura fantástica não é utilizada para nos afastar da realidade, mas justamente para nos obrigar a encará-la. O conto de fadas deixa de ser uma história sobre monstros escondidos na floresta e passa a ser uma metáfora para os monstros que vivem dentro de casa. E é justamente essa inversão - transformar fantasia em pesadelo e realidade em horror - que faz deste disco uma experiência tão perturbadora e, conceitualmente, tão interessante.
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